Forte de São João e as baterias reais de Maceió

Atual prédio da 20ª CSM já foi um forte e a enfermaria militar da capital

Antiga Enfermaria Militar em 1920; antes foi o Forte de São João
Desenho com base na planta de José da Silva Pinto, de 1820, mostra o Forte de São João

Desenho com base na planta de José da Silva Pinto, de 1820, mostra o Forte de São João

Foi a presença de piratas, corsários e contrabandistas nas costas brasileiras que levou a coroa portuguesa, no final do século XVII, a montar um plano de defesa para suas posses além-mar. Em Maceió, há registros que de que a primeira fortificação construída para a defesa do povoado ficava na Ponta de Jaraguá, onde hoje está o porto.

Quem ficou encarregado pela corte de fortificar Jaraguá e povoá-lo com açorianos foi o governador da Capitania de Pernambuco, Capitão General Affonso Furtado de Mendonça, o Visconde de Barbacena.

Destas tarefas do governador se tem somente a informação de que cumpriu a de estabelecer uma fortificação guarnecida na área indicada, que por lá não ficou por muito tempo.

A Ponta de Jaraguá voltou a ser ocupada novamente por uma estrutura militar somente após a emancipação de Alagoas, com a chegada do tenente-coronel Sebastião Francisco de Melo Povoas, governador da nova capitania.

20ª CSM, antigo Forte São João, nos anos 60

20ª CSM, antigo Forte São João, nos anos 60, área denominada Praça General Severiano da Fonseca

Ao desembarcar na enseada de Jaraguá no dia 27 de dezembro de 1818, o militar renovou as preocupações militares com o porto natural e ordenou a construção do sistema defensivo da vila.

Assim foram instaladas, em 1820, as baterias reais de São Pedro e de São João. A primeira em Jaraguá e segunda na Boca de Maceió, local onde hoje funciona a 20ª Circunscrição do Serviço Militar do Exército Brasileiro e o Museu da II Guerra Mundial.

Há registros ainda de que mais duas baterias foram erguidas no litoral de Maceió em 1822 durante a chamada Guerra da Independência. Félix Lima Júnior relata que as construções foram ordenadas pelo coronel Oliveira Belo.

A Bateria da Imperatriz ficava onde hoje está a Rua Sá e Albuquerque, em Jaraguá. A outra foi levantada na Ponta Verde e ficou famosa por ter recebido 50 índios de Viçosa, todos armados e dispostos a guerrear pela independência do Brasil.

Em setembro de 1894, o jornal Gutemberg publica edital “das autoridades federais” para tomada de preços com o objetivo de contratar serviços para a “construção de dois fortes, sendo um no porto de Jaraguá e outro entre o novo quartel de linha [na atual Praça da Faculdade] e o lugar denominado Três Coqueiros”.

Forte de São João

Capela da Enfermaria Militar concluída em 8 de dezembro de 1876

Capela da Enfermaria Militar concluída em 8 de dezembro de 1876

Erguido em homenagem a D. João (1816-1826), o Forte de São João tinha sua bateria posicionada para cruzar fogo com o Forte de São Pedro. No início, a construção era apenas de terra elevada, com quatro canhões de 24mm instalados em espaldões sem cobertas.

Sem maiores utilidades, as duas estruturas militares não receberam o tratamento adequado e logo foram sendo abandonadas. O Forte de São Pedro, na Ponta Verde, sobreviveu até 1847, quando foi demolido.

O Forte de São João também não suportou o abandono e em 1832 já estava arruinado, sem parapeitos, esplanadas e plataformas. Só lhe restava um calabouço, uma casa de guarda, um paiol de pólvoras e dois grandes salões.

Enfermaria Militar

O prédio do Forte de São João ficou abandonado até 1844, quando foi reformado para receber a Enfermaria Militar. Pelos registros, as instalações eram precárias e inadequadas. Para se ter uma ideia, o prédio também foi ocupado pelo depósito de artigos bélicos até 1875, quando construíram um equipamento próprio para esse fim.

Em setembro de 1875, o presidente da província nomeou o padre Antônio José da Costa para que, além das obrigações, “administre com a necessária prontidão os sacramentos e outros socorros espirituais às praças em tratamento na Enfermaria Militar”.

O prédio hoje está ocupado pela 20ª CSM e o Museu da Segunda Guerra

O prédio hoje está ocupado pela 20ª CSM e o Museu da Segunda Guerra

A proteção divina era mais que necessária, considerando principalmente o estado precário da construção, que parte desabou em 1876. No ano seguinte, a Enfermaria Militar foi reconstruída e o prédio recebeu a configuração que permanece até hoje. A capela foi concluída em 8 de dezembro daquele mesmo ano.

Para a Maceió do final do século XVIII, a Enfermaria Militar estava situada em uma área com sérios problemas. Ficava muito próximo ao antigo curso do Riacho Maceió (o nosso atual Salgadinho) e cercado por alagadiços, como denuncia um leitor do jornal O Gutemberg de 20 de junho de 1886, que assinou como “Pai de família”.

Preocupado com as “exalações miasmáticas e deletérias” que existiam nas proximidades da antiga Ponte do Leão sobre o Riacho Maceió (atualmente seria o final da Rua Barão de Anadia), o “Pai de Família” assim descreveu o problema: “Mesmo em frente da enfermaria militar e quartel da companhia de infantaria, um imundo esterquilínio empestando a localidade, contribuindo ainda mais para a insalubridade pública”.

Em sua denúncia, uma informação importante: o prédio também funcionava como Quartel da Companhia de Infantaria. Outros jornais da época confirmaram essa utilização.

No O Orbe de 23 de outubro de 1887, um colaborador opina sobre os estudos solicitados pelo Ministro da Guerra sobre a viabilidade econômica de se manter a Enfermaria Militar. A intenção era transferir os militares enfermos para o Hospital de Caridade, a Santa Casa, onde o custo seria inferior.

“Existe aqui uma excelente enfermaria militar, próprio nacional [prédio da União] com linda capela no centro, tendo há pouco a dita enfermaria sofrido grandes reparos e reforma de mobília e outras modificações, prestando-se cômoda e decentemente ao tratamento dos oficiais e praças desta guarnição”, descreveu o anônimo colaborador.

Salgadinho no antigo curso com a Enfermaria Militar do 33º Batalhão de Caçadores, atual CSM

Salgadinho no antigo curso, com a Enfermaria Militar do 33º Batalhão de Caçadores ao fundo, atual CSM

Em 1879, três anos após a reconstrução do prédio, seus alicerces estavam sendo abalados em função da mudança do leito do Riacho Maceió, que estava se aproximando do prédio. Algumas obras foram realizadas para proteger a Enfermaria.

Em outubro de 1911, a Enfermaria ainda funcionava e era referência para os anúncios dos bondes para o Trapiche, que partiam de um ponto em frente, na atual Rua Barão de Anadia.

Não se tem a data exata de quando a Enfermaria Militar deixou de funcionar no local, mas em fevereiro de 1917, a comissão encarregada dos festejos do centenário da emancipação de Alagoas anunciou que haveria uma exposição de produtos agrícolas e industriais no prédio “onde funcionava a enfermaria militar”. (Jornal A Pyrausta de 14 de fevereiro de 1917).

Anos depois o prédio recebeu o Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva – NPOR, que foi criado em outubro de 1942 e ocupou o casarão da esquina da Praça Sinimbu com a Rua do Imperador, onde funcionou o TRE-AL.

Nos anos 70, a 20ª Circunscrição do Serviço Militar também se instalou na antiga Enfermaria Militar e com a saída do NPOR, divide o lugar com o Museu da 2ª Guerra Mundial desde 14 de março de 1996.

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