Folclore alagoano: folguedos e danças

Guerreiro alagoano em 1943. Maceió
Capa do CD Folguedos e Danças

Capa do CD Folguedos e Danças

O CD com os cantos dos folguedos e danças do folclore alagoano e depoimento de alguns mestres foi lançado no dia 22 de agosto de 2002 e é o resultado da pesquisa coordenada por Ranilson França e contou com o apoio da Fundação Municipal de Ação Cultural. Foi Ivan Barsand e a Associação dos Folguedos Populares de Alagoas que deram vida a este importante projeto de registro histórico.

Reproduzimos a seguir o texto da capa do CD e as trilhas gravadas nele.

……………

Segundo Aurélio Buarque de Holanda em seu Novo Dicionário Aurélio – 1986, a palavra folclore significa “Conjunto das tradições, conhecimentos ou crenças populares expressas em provérbios, contos ou canções; estudo e conhecimento das tradições de um povo, expressas nas suas lendas, crenças e costumes”.

No mestre Aurélio encontramos para folguedo a definição “folgança, folga, descanso, brincadeira, divertimento, festa”.

Este CD é a síntese do verdadeiro objetivo do projeto “FOLCLORE ALAGOANO: FOLGUEDO E DANÇAS” que é o de pesquisar, resgatar, registrar e divulgar as mais legítimas e variadas formas de manifestações populares cantadas e dançadas existentes em Alagoas, preservando seus valores culturais.

Guerreiro em Maceió em 1943

Guerreiro em Maceió em 1943

Estas manifestações foram pesquisadas e exaustivamente estudadas por célebres historiadores da cultura popular como os mestres Théo Brandão, José Aluísio Vilela e José Maria Tenório, que nos deixaram em legado de textos, fotos e gravações de relevante importância para o entendimento das origens e das características dos 27 tipos de folguedos e danças que permanecem vivos e ativos em nosso estado.

Dando sequência a este trabalho, temos hoje a Associação dos Folguedos Populares de Alagoas – ASFOPAL, que sob a presidência do professor Ranilson França congrega todos os mestres de folguedos existentes, numa verdadeira cruzada pela sobrevivência desses grupos, promovendo constantemente atividades para que eles tenham oportunidade de se apresentar, mostrar sua vitalidade, divulgando os trabalhos que desenvolvem em suas sedes.

“FOLCLORE ALAGOANO: FOLGUEDO E DANÇAS” é um registro sonoro do folclore alagoano, gravado nas sedes dos grupos ou em apresentações públicas, despreocupado quanto a qualidade do som, mas fiel quanto a autenticidade das brincadeiras populares e um breve registro com depoimentos históricos de mestres que já não se encontram mais conosco e que tiveram boa parte dos seus trabalhos perdidos no tempo.

Com esse material, esperamos estar contribuindo para estudos que se preocupam com a preservação da verdadeira cultura popular de Alagoas.

Nossos agradecimentos à PREFEITURA MUNICIPAL DE MACEIÓ, à FUNDAÇÃO MUNICIPAL DE AÇÃO CULTURAL, que através da LEI MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA contribuiu decisivamente para a manutenção e divulgação dos nossos folguedos, apoiando a renovação das vestimentas e estimulando a continuidade das comemorações das mais tradicionais festas populares como o São João, resgatado como o inusitado CAMINHÃO DO FORRÓ.

DESCRIÇÃO DOS PRINCIPAIS FOLGUEDOS E DANÇAS

Ranilson França

Ranilson França

CABOCLINHAS – Dança cortejo sem enredo ou drama, semelhante aos Baianais e Samba-de-Matuto na qual os personagens trajam-se como nos Reisados e cantam fazendo referência às caboclas, temas do cotidiano e temas de amor, acompanhados por banda-de-pífano.

PASTORIL – É uma fragmentação do Presépio, sem os textos declamados e sem diálogos, constituídos apenas por jornadas soltas, canções e danças religiosas ou profanas de épocas e estilos variados.
Como os presépios, origina-se de autos portugueses antigos, guardando a estrutura dos Noéis de Provença, França.

PAGODE – Dança cantada, sendo acompanhada pela batida dos pés ou tropel. Também denominada coco ou samba, surge na época junina ou em ocasiões que se queira festejar acontecimentos importantes da comunidade. Tem origem africana, filiada ao batuque de angola-conguense. Seus personagens são: o mestre ou tocador de coco que entoa as cantigas cujo refrão é respondido pelos cantadores.

BAIANAS – Grupos de dançadores trajados com vestes convencionais de baiana, que dançam e fazem evoluções ao som de instrumentos de percussão. Constitui uma modificação rural dos maracatus de Pernambuco com elementos dos pastoris e dos cocos com a denominação de Samba-de-Matuto ou Baianal. Não possui enredo determinado. Cantam uma sequência constituída de marchas de entrada ou abrição de sede, peças variadas e, por fim, despedida.

CHEGANÇA – Auto de temática marítima versando sobre temas vinculados à vida no mar, às dificuldades como tempestade, contrabando, briga entre marujos e lutas entre cristãos e mouros infiéis, seguidores de Maomé. Deriva-se das “mouriscadas” peninsulares ou das lutas entre cristãos e mouros da Europa. É de origem ou aculturação europeia.

Reisado em Maceió. 1943

Reisado em Maceió. 1943

GUERREIRO – Grupo multicolorido de dançadores e cantadores, semelhantes aos Reisados, mas com maior número de figurantes e episódios, maior riqueza nos trajes e enfeites e maior beleza nas músicas. Surgiu em Alagoas entre os anos de 1927 e 1929, sendo o resultado da fusão de Reisados alagoanos e do antigo e desaparecido Auto dos Caboclinhos, da Chegança e dos Pastoris. Possui em média 36 personagens entre rei, rainha, mestre, contramestre, palhaço etc.

DANÇA DE SÃO GONÇALO – Dança ritual religiosa destinada a pagar promessa. De origem e aculturação portuguesa, foi inicialmente apresentada no interior dos templos católicos e religiosos. Depois foi proibida por seu caráter mundano. Compõe o grupo o mestre e o tocador de viola, o contramestre e o tocador de meia cuia, dois guias e os participantes dançadores.

SAMBA-DE-MATUTO – Dança cortejo, sem enredo ou drama, na qual as cantigas dançadas fazem referência a Santos católicos, a espíritos de religiões afro-brasileiras e as cenas do cotidiano. Possui identificação com os terreiros de xangôs. Antes de cada apresentação o mestre acende três pontos de velas para que os orixás permitam o bom andamento do folguedo.

REISADO – Auto popular profano religioso, formado por grupos de músicos, cantores e dançadores que vão de porta em porta, no período de 24 de dezembro e 6 de janeiro, anunciar a chegada do Messias, homenagear os três Reis Magos e fazer a louvação aos donos das casas, onde dançam. De origem portuguesa, sua principal característica e a farsa do boi que constitui um dos entremeios, onde ele dança, brinca, é morto e ressuscita.

MARACATU – Dança processional e cortejo real, parte dos reisados dos congos. A palavra maracatu é de origem africana que significa dança ou batuque. O maracatu pernambucano penetrou em Alagoas e criou formas alagoanas dessa manifestação, assim como as cambindas, o samba-de-matuto, as negras da costa, baianas e as caboclinhas.

FANDANGO – Auto de assunto marítimo que corresponde a Marujada, Barca e a Nau Catarineta de outros estados brasileiros. Não possui enredo ordenado e lógico. É apresentado em um barco construído em terra, com palanque, onde são entoadas as cantigas náuticas de diversas épocas e origens. Possui nítida formação portuguesa.

TRILHAS

01. Caboclinhas de Passo de Camaragibe – Mestre Joel Otaviano (2001).

02. Pastoril de Santa Luzia do Norte – Ivanilson Monteiro.

03. Pagode Comigo-Ninguém-Pode. Depoimento da Mestra Hilda (1999).

04. Baianas Mensageiras de Santa Luzia – Mestra Maria do Carmo.

05. Chegança Cruzador São Paulo – Mestre Juvêncio Joaquim dos Santos (1999).

06. Guerreiro Treme Terra de Alagoas – Mestre Benon Pinto (1999).

07. Dança de São Gonçalo – Mestre Deca de Água Branca (instrumental).

08. Guerreiro Alagoano – Parte da Borboleta – Mestra Celsa Maria.

09. Samba de Matuto – Recordação do Passado – Mestre José João.

10. Reisado dos Três Amores – Mestra Virgínia Morais (1987).

11. Maracatu Alagoano – Mestre Arthur Morais (1987).

12. Fandango do Pontal da Barra – Mestre Izaldino (1997).

13. Pagode Tira Teima – Mestre Manoel Venâncio.

14. Reisado de Viçosa – Fazenda Caçamba – Mestra Maria Pinto da Silva – Coordenação: Mussolini Brandão.

15. Pagode de Viçosa – Mestres Cícero Lendandro Martiniano, Edith Silvino, Maria Pinto da Silva e Jacira Rufino. Coordenação: Mussolini Brandão (1967).

16. Guerreiro Alagoano – Mestre José Jorge – Apresentação de Pedro Teixeira.

17. Rabequeiros de Ibateguara – Solo de Natalício José (1999).

18. Guerreiro Alagoano – Chamada da Lyra – Mestre Djalma de Oliveira. Coordenação: Gustavo Quintella (2002).

19. Guerreiro Alagoano – Parte da Lyra – Mestra Das Dores Jupy. Coordenação: Gustavo Quintella.

20. Guerreiro Alagoano – Entremeio do Zabelê – Mestre Djalma de Oliveira.

21. Depoimento da Mestra Joana Gajuru – Noite de Natal (1980) – Guerreiros Alagoanos de Mestre Adelmo Oliveira (1988) e Mestre José Laurentino (1980).

22. Guerreiro Alagoano – Mestre Juvenal, Venâncio, Arthur Morais e Maria Vitória.

23. Terço Cantado em Homenagem a Santo Antônio –  Jota do Pife. Gravação: Paulo Dias.

FICHA TÉCNICA

Projeto “FOLCLORE ALAGOANO: FOLGUEDO E DANÇAS”
Realização: LEI MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA
PREFEITURA MUNICIPAL DE MACEIÓ
FUNDAÇÃO MUNICIPAL DE AÇÃO CULTURAL
COMISSÃO MUNICIPAL DE INCENTIVO À CULTURA
ASSOCIAÇÃO DOS FOLGUEDOS POPULARES DE ALAGOAS – ASFOPAL
Empreendedor: Ivan Barsand de Leucas
Coordenador: Ranilson França
Pesquisa: Ranilson França / Josefina Maria de Medeiros Novaes
Colaboradores: Fernando Cerqueira e Virgínia Leuca
Técnico de Som: Edson Silva
CAPA: Leopoldo Novaes e Lucas Souza

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS

Rádio Educativa FM
Secretaria de Estado da Cultura
Programa “Balançando o Ganzá”
A todos os mestres dos folguedos de Alagoas
COLÉGIO INEI
VIAÇÃO CIDADE DE MACEIÓ

4 Comments on Folclore alagoano: folguedos e danças

  1. joão gomes de sá // 22 de julho de 2016 em 10:06 //

    Doces lembranças! Viva o folclore de Alagoas! Viva Ranilson, o nosso saudoso professor!
    Viva dr. Theo e Pedro Teixeira!

  2. Ana Rosa Villas Bôas de Souza // 22 de julho de 2016 em 10:55 //

    Essa é a minha terra, a minha cultura e eu tenho um imenso orgulho de nossa cultura e de nosso povo tão sofrido mas que sabe dançar, cantar e agregar as pessoas com suas cantorias! Só lastimo que hoje ninguém mais queira ouvir e valorizar essa cultura nossa!

  3. André Soares // 26 de julho de 2016 em 13:40 //

    Um belo resgate das nossas genuínas manifestações folclórica.

  4. Sônia Lucena // 10 de outubro de 2016 em 14:41 //

    As fotos em preto e branco são do fotógrafo francês Marcel Gautherot e pertence ao Instituto Moreira Sales. Marcel também fotografou meu pai na cavalhada.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*