Fênix Alagoana, o mais antigo clube em atividade no estado

Clube Fênix Alagoana nos anos 60

Carnaval em 1905 na rua Barão de Jaraguá, em frente à antiga sede da Fênix, onde funcionou depois o Grupo Escolar Ladislau Neto

Na noite de terça-feira, 15 de março de 1886, exatamente uma semana após o carnaval daquele ano, um grupo de foliões maceioenses se reuniu na residência do professor José Napoleão Goulart — situada na Rua da Igreja, nº 16, em Jaraguá, atual Barão de Jaraguá — com o propósito de fundar um clube carnavalesco naquele bairro.

A assembleia de fundação teve ainda a presença de Manoel Bittencourt de Vasconcelos, J. Alves Tosta, Américo A. Guimarães, Leonel P. Guimarães, Jorge Washington, Antônio G. Fortes, Virgílio Carvalho, José Amorim Leão, Eduardo Morais, Francisco de Amorim Leão e Alfredo P. Guimarães.

A solenidade de inauguração aconteceu no dia 7 de setembro do mesmo ano, data adotada como da sua fundação, e o clube nasceu com a finalidade de “Realizar reuniões dançantes, serenatas musicais e coreográficas, jogos permitidos e outras distrações”.

Segundo Félix Lima Júnior em Maceió de Outrora, “Em 7 de setembro de 1886, surge na Rua da Igreja, em Jaraguá, a Fênix Alagoana, sociedade de gente aristocrática, fina, endinheirada, quase toda daquele bairro”.

Garagem Alagoana em 1922, local onde a Fênix construiria sua nova sede em 1936

A oficialização da criação Club Carnavalesco Phenix Alagoana foi assim registrada pelo jornal Gutenberg: “A festa esteve na altura de satisfazer a todas as exigências do bom gosto, nada deixando a desejar, retirando-se todos os convidados às 2 horas da manhã revestidos da mais completa satisfação pelas horas agradáveis que lhes proporcionou o digno diretor sr. Napoleão Goulart, que, pronunciando um belo discurso, assegurou a permanência de dito Club, seguindo-se lhe na tribuna o talentoso e distinto consócio Virgílio de Carvalho, que com frases eloquentes agradeceu ao sr. Diretor o acolhimento que dispensara à associação, e terminou, no meio de frenéticos aplausos, levantando um brinde ao mesmo diretor”.

A primeira diretoria da Phenix foi composta por Napoleão Goulart, presidente; Agostinho Gavazza, vice-presidente; Manoel Tosta, 1º secretário; Manoel Bittencourt de Vasconcelos, 2º secretário; e José Amorim Leão, tesoureiro.

Mas quem era o cidadão Napoleão Goulart, que liderou a Phenix nos seus primeiros anos de existência?

Escudos do Clube Fênix Alagoana

Antes de se estabelecer como comerciante em Jaraguá, foi oficial da Marinha Mercante e teve participação na campanha do Paraguay. Ocupou vários cargos no governo. Pelo voto popular foi eleito Juiz de Paz de Jaraguá em 1882 e Conselheiro Municipal. Foi ainda nomeado como intendente de Maceió, mas permaneceu no cargo por pouco tempo, entre 10 de julho de 1890 e setembro do mesmo ano.

Em 1884, é citado como proprietário de seis alvarengas, embarcações a remo utilizadas no serviço de carga e descarga de navios fundeados. Com escritório estabelecido em Jaraguá, na Rua Sá e Albuquerque, a firma Napoleão Goulart & Cia negociava com açúcar, comprando e exportando a produção dos engenhos.

Em 1º de dezembro de 1897, a firma Napoleão Goulart & Cia publicou que estava mudando de endereço, se estabelecendo na mesma Rua Sá e Albuquerque, no nº 75, “esquina da rua Comendador Leão, em frente ao trapiche Jaraguá”.

Conhecido como Professor Goulart, era tio do redator do jornal Gutenberg, Eusébio de Andrade, um dos filhos do engenheiro Manoel Candido Rocha de Andrade.

Club Carnavalesco Phenix Alagoana

Sede do Clube Fênix Alagoana após 1936

No domingo, 3 de abril de 1887, houve assembleia dos sócios do Clube Phenix e a diretoria foi reeleita, ficando assim composta: presidente, Napoleão Goulart; vice-presidente, Antônio Francelino Gonçalves Fortes; 1º secretário, Manoel José Alves Tosta; 2º secretário, José de Amorim Leão; e tesoureiro, Manoel Bittencourt. de Vasconcelos.

Dias depois da reeleição, a diretoria do clube publicou edital de compra para “tijolo, cal, barro, areia e vigames para a construção do prédio do mesmo club”. Em dezembro daquele ano, a Phenix promoveu no dia 17, no Theatro Maceioense, a apresentação da peça Conde de Zampiere “em benefício das obras da mesma Phenix”. A maior parte dos atores era composta por diretores comuns as duas sociedades, a Phenix e a Thalia. O papel principal, do Conde de Zampiere, foi interpretado pelo próprio Napoleão Goulart.

A planta do prédio foi projetada pelo irmão do presidente Napoleão Goulart, engenheiro Manoel Candido Rocha de Andrade, também responsável pelas plantas das igrejas do Livramento, Matriz de Jaraguá, Montepio dos Artistas, Asilo das Orfãs de Bebedouro, sendo ainda responsável pela conclusão das obras do Asilo de Santa Leopoldina e Correios de Maceió. Faleceu em outubro de 1996.

Baile de Carnaval na Fênix, década de 50.

Em 1891 a diretoria da Phenix era a seguinte: José Joaquim Rippol, presidente; Kenneth C. Macray, vice-presidente; João Antônio Loureiro, 1º secretário; Francisco dos Santos Porto, 2º secretário; e Rodolpho José da Silva, tesoureiro.

Não se conseguiu precisar a data da inauguração do prédio sede da Phenix, mas no dia 7 de setembro de 1894, quando se comorava o seu 9º aniversário, foi realizado um baile “nos vastos salões do seu suntuoso edifício social”, que contou com presença do governador Rocha Lima.

Neste ano, a diretoria tinha como presidente Joaquim da Silva Costa Júnior. Kenneth C. Macray era vice-presidente e Pedro Duarte Muniz e Felix Bandeira Júnior ocupavam as secretarias, além de Manoel Bittencourt de Vasconcellos que cuidava da tesouraria.

Uma nota de outubro de 1895 informa que algumas obras estavam sendo realizadas no prédio, possivelmente de ampliação.

Segundo Ednor Bittencourt, da família do fundador Manoel Bittencourt de Vasconcelos, “no início de suas atividades, na antiga sede localizada na rua Barão de Jaraguá, a alta sociedade alagoana desfrutava de um ambiente luxuoso e acolhedor para as grandes comemorações. Segundo os mais velhos, os associados ricamente trajados (fraque, cartola, luvas e bengala), acompanhados das esposas e filhas, com vestidos de soirée, leques, ricas peles e joias valiosas, para lá se dirigiam em seus bem cuidados coches, ou em bondes de burro, previamente fretados”.

Joaquim da Silva Costa foi o presidente em 1902. José de Amorim Leão, vice-presidente; Oscar Falcão e Joaquim Goulart Pimentel, as duas secretarias; e Pedro Araújo era o tesoureiro.

Em fevereiro de 1906, Álvaro Flores publica nota no Gutenberg informando que estava renunciando à presidência da Phenix e da Sociedade Filarmônica Artística. O clube passa a viver uma crise que só começou a ser superada em agosto, quando o vice-presidente Francisco de Amorim Leão convoca assembleia geral para eleger nova diretoria.

São eleitos: Agostinho Gavaza, presidente; Antônio Pinheiro, vice-presidente; Américo Passos, 1º secretário; Ranulpho Goulart, 2º secretário; e Alfredo Wulcherer, tesoureiro. Ranulpho era filho de Napoleão e Alfredo seu genro.

Voleibol feminino do Clube Fênix Alagoana em 1954

Em 7 de setembro de 1896, quando comemorou 11 anos de fundado, o Club Phenix promoveu um sarau, quando foi apresentada a iluminação elétrica da sede. Foi o primeiro edifício em Jaraguá a receber este benefício. No bairro, somente existia um poste de iluminação na esquina da Rua Comendador Leão com a Rua Barão de Jaraguá, a poucos metros da Phenix.

Nas eleições realizadas em 25 de março de 1897 é eleita a seguinte diretoria: Américo Passos Guimarães, presidente; Antônio Pinheiro, vice-presidente; Taciano Rego Filho, 1º secretário; Alfredo Passos Guimarães, 2º secretário; e Alfredo Wucherer, tesoureiro.

Napoleão Goulart faleceu às 9 horas da manhã do dia 3 de março de 1898, vítima de um aneurisma na aorta. Estava trabalhando em seu escritório em Jaraguá e estava sob cuidados médicos há algum tempo.

Muitos anos depois, quando a Fênix já estava no novo prédio na Av. da Paz, a praça construída ao lado recebeu o seu nome. A área da praça hoje está incorporada ao clube.

Baile no Clube Fênix em 1960

Em 1899, o presidente era José Duque de Amorim. Nas eleições de abril de 1905 foi eleita a seguinte diretoria: Luiz de Vaconcellos, presidente; Gerd Borstelmam, vice-presidente; Ignácio Calmon, 1º secretário; Oscar Jensen, 2º secretário; e Luiz Lessa, tesoureiro.

No ano seguinte, dirigem a entidade os seguintes sócios: Alfredo Wucherer, presidente; F. Umbehagen, vice-presidente; José Duque de Amorim, 1º secretário; João Lício, 2º secretário; e Bonifácio Silveira, tesoureiro.

Em março de 1907 assumiu a seguinte diretoria: Alfredo Wucherer, presidente; Mello Machado, vice-presidente; José Leão Rego, 1º secretário; Luiz Abreu, 2º secretário; e major José B. Barros, tesoureiro.

O coronel Manoel Vianna aparece como o presidente da Phenix em 1908. O secretário era Nunes Leite. Um detalhe importante durante esta gestão foi o convite para uma reunião com todos os sócios que foi realizada no dia 5 de fevereiro de 1909, na Rua Boa Vista. Sinal de que a maioria dos associados já moravam na parte central da capital.

Carnaval da Fênix nos anos 60

Outro fato marcante desta gestão foi a não realização do tradicional Zé-Pereira, “a nota primaz do Carnaval de Maceió”.

Em 1909 o presidente era Octávio Lessa. O Gutenberg de 15 de fevereiro de 1910 publica uma nota revelando que a Phenix estava passando por dificuldades, “Ouvimos que vai ser reerguido esse distinto e antigo club alagoano”.

No início de 1911, Faustino Silveira aparece como secretário do clube. Em agosto a presidência estava entregue a Kenneth C. Macray. Em 1916 a entidade foi presidida pelo coronel Arsenio Araújo, deu posse ao coronel Américo Passos Guimarães para o período seguinte.

Nos jornais de 1923 a divulgação do carnaval coloca a Phenix Alagoana como responsável por manter os bailes à fantasia “e um formidável Zéca Pereira, puxado pelo cabo da briosa Egas Duarte e pelo dr. Kenneth Macray”.

O cônsul da Bolívia em Alagoas, coronel Ezequiel Pereira, presidiu a Phenix nos períodos de 1926 a 1927 e de 1927 a 1928.

Em 1930 a diretoria tinha a seguinte composição: José Quintella Cavalcanti, presidente; Alexandre Nobre, vice-presidente; Antônio Brasileiro Filho, 1º secretário; Alberto Passos Guimarães, 2º secretário; e Francisco Brandão, tesoureiro.

Voleibol feminino da Fênix no final dos anos 60. Em pé: Simone, Vânia, Nina e Cristina. Agachadas: Lúcia, Kátia Born e Fátima Pinto

Com as transformações surgidas em Jaraguá e a consequente perda do título de “nobre área residencial”, o clube oficializa a necessidade de se aproximar mais do centro de Maceió e resolve, em assembleia geral realizada no dia 9 de junho de 1933, vender a sede em Jaraguá e investir em outro prédio.

A nova sede foi inaugurada em 1936 e foi construída no local onde existia a Garagem Alagoana, da empresa Leão & Cia, situada na Av. da Paz. Informa Ednor Bittencourt que “a nova sede, situada na Praça Napoleão Goulart e construída pelo engenheiro Aloisio Freitas Melro, sob o patrocínio do dr. Quintela Cavalcante, gastando na empreitada a quantia de 400 contos de réis”.

A diretoria que tomou a decisão de mudar a sede em 1933 era formada por Antônio Machado, presidente; Orlando Araújo, vice-presidente; Carlos de Gusmão, 1º secretário; Moacir Pereira, 2º secretário; e Francisco Brandão, tesoureiro.

Na reforma dos Estatutos do Clube, em 1933, o seu art. 1º recebeu a seguinte redação: “Art. 1º – Este Clube, cuja denominação é Phenix Alagoana, e que a 7 de setembro festejará sempre o aniversário de sua fundação tem por fim proporcionar aos seus associados reuniões dançantes, serestas musicais e choreographicas, jogos permitidos e outras distrações, sendo sua sede na cidade de Maceió. § Único – Para a secção de jogos o Clube manterá um Cassino”.

Guilherme Palmeira, Claudionor Germano, Lelé Lima, Carlito Lima, Socorrinho, Claiton e Cuca em um Réveillon da Fênix nos anos 60

Com essa modificação, a Phenix retirava o “Carnavalesco” de sua denominação oficial, mas continuou a promover o carnaval até o início do século XXI, quando foi perdendo espaço como clube recreativo.

Nos anos da década de 1950, a Fênix ampliou suas atividades esportivas, passando a liderar os esportes amadores em Alagoas nas suas várias modalidades. Nos anos seguintes, alguns dos seus atletas chegaram a participar de equipes da seleção brasileira.

A partir de 1911, e principalmente após o primeiro Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro de 30 de abril de 1931, a grafia com “ph” deu lentamente lugar ao “f”, o que levou o clube a adotar a denominação que permanece até os dias de hoje, Clube Fênix Alagoana. Nos anos 50 ainda se registravam nos jornais a grafia “Phenix”.

Ficaram famosos, nas prévias carnavalescas de Maceió, os concorridos Baile de Máscara, Noite do Havaí (ou Noite Hawaiana), Preto e Branco e Até o Sol Raiar. Durante o Carnaval, a Fênix disputava com o Iate e o Tênis as melhores festas da cidade.

Outros bailes também marcaram a história do clube, como os do Réveillon, Dia dos Namorados, Noites Ciganas, Festa dos Pedros ou ainda o Baile das Debutantes que coincidia com as festas aniversárias do clube.

Clube Fênix em 1967

Em meados dos anos 60, o presidente da Fênix era Jarbas Gomes de Barros, que foi substituído por Ardel Jucá. No início dos anos 70, Ardel passou o cargo para Elson Sampaio de Melo e depois para José Otávio Moreira Filho e Ronalso Cansanção. Nesse período sofreu a ameaça de perder sua sede, que iria a leilão para pagar dívidas com a Fazenda Estadual.

O tradicional Clube Fênix Alagoana, presidido pelo advogado Eduardo Guimarães, vive atualmente do aluguel de seus espaços para atividades esportivas e eventos.

Eduardo Guimarães avalia que o Clube Fênix Alagoana é um patrimônio histórico de Maceió. Lembra que sua sede na Av. da Paz já recebeu dois ex-presidentes da República e foi sede provisória dos Poderes Legislativos e Executivos.

“No ano de 1950, na presidência do Dr. Afrânio Salgado Lages, foi construído o ginásio de esportes e o seu primeiro diretor de esportes foi o Dr. Ardel Jucá, que depois veio a ser presidente sucedendo o presidente Dr. Jarbas Gomes de Barros”. Foi na gestão deste último que foi construída a piscina semi-olímpica, recorda o atual presidente Eduardo Guimarães.

Para 2018 está anunciada a volta da prévia carnavalesca Noite do Hawaí. Pode ser a retomada das grandes festas e dos tempos de glória daquele que foi batizado com o nome da ave mitológica que tinha o poder de renascer das cinzas.

4 Comments on Fênix Alagoana, o mais antigo clube em atividade no estado

  1. Gilvan Rodrigues // 12 de outubro de 2017 em 18:06 //

    Que matéria meu amigo! Me fez lembrar grandes encontros com muitos amigos que ainda os tenho até hoje

  2. Eduardo Auto Monteiro Guimarāes // 13 de outubro de 2017 em 08:31 //

    Está de parabéns o meu amigo e grande historiador Edberto Ticianeli. Li com bastante atenção os fatos narrados e constatei as veracidades. pela razão de já conhece-Los, quando por vários meses pesquisei no Instituto Histórico para a formação da Galeria dos Ex Presidentes. Inaugurada na Presidência do Dr. Isaac Samuel de Carvalho Nascimento. O Clube Fênix Alagoana não deixa de ser um Patrimônio da história de Maceió, onde na sua sede da praia da Avenida da Paz, já recebeu dois ex-Presidentes da República, foi sede provisória dos Poderes Legislativos e Executivos. No ano de 1950 na Presidência do Dr. Afrânio Salgado Lages, foi construído o ginásio de esportes e o seu primeiro diretor de esportes foi o Dr.Ardel Jucá, que depois veio a ser presidente sucedendo o presidente Dr. Jarbas Gomes de Barros o qual foi na sua gestão foi construida a piscina semi-olímpica.

  3. Catarina de Labouré // 13 de outubro de 2017 em 14:52 //

    Ticianelli,
    Estou maravilhada com esta matéria. Parabéns.

  4. Esteve nos bons tempos do esporte e dos carnavais no ginásio da Fênix.

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