Federação Operária Alagoana e as primeiras greves

Interior da Fundição Alagoana em 1921, na Rua Barão de Jaraguá

Segundo Congresso Operário em 1913 Sessão de encerramento no Centro Operário

Após a fundação da Confederação Operária Brasileira, COB, em 1906, durante o 1º Congresso Operário Brasileiro, trabalhadores alagoanos criaram, em 1º de maio de 1913, a Federação Operária Alagoana, que havia sucedido à União Operária Alagoana, instituição que participou do primeiro congresso em 1906.

O jornal A Voz do Trabalhador, órgão da COB, assim saudou, em sua edição nº 12, de 1º de junho de 1913, a nova associada: “Fundou-se em Maceió, capital do Estado, a Federação Operária Alagoana, que vem assim, formando a junção de todas as classes, desenvolver a propaganda, pugnar mais diretamente pelo interesse das mesmas e estreitar, com a ação que desenvolver, os laços de solidariedade e amizade indispensáveis para a luta gloriosa em que se envolvem atualmente com maior energia os trabalhadores de todo mundo, para que ruindo a sociedade atual com todos os seus horrores, se possa estabelecer por meio de fraternal acordo — a sociedade comunista amanhã”.

O Comitê Executivo da Federação Operária Alagoana estava assim organizado: Flaviano Domingues Moreira, José Grevy, Epaminondas Leite, Leopoldo Pereira e Virgínio de Campos. O Comitê Sindico foi constituído por: Gracindo Silva, Vicente de Moura, Firmino França, Olimpio Sant’Ana e José Gomes Mendonça.

Segundo Congresso Operário em 1913 Sessão de encerramento no Centro Operário

Comitê de Propaganda: Delorizano Morais, Mário Wanderley, Jayme d’Altavilla, Antônio da Silva Duarte e Bernardes Júnior. Comitê Federativo: Jorge Freitas, Oscar de Barros, Benedito Angelo, Manuel Silvino e Gualter Medeiros.

A Secretaria Geral foi ocupada por Bernardes Junior, auxiliado por Oscar Colombo. A Tesouraria ficou com Manuel Sant’Ana Sobrinho. O Secretário do Comitê Executivo era José Vitorino da Costa, que também tinha delegações do Síndico e do Federativo, auxiliado por J. Domingues Moreira. Para delegado junto ao COB foi indicado Cecílio Vilar.

Na sua instalação, a Federação Operária Alagoana contava com o apoio dos sindicatos dos Gráficos, Alfaiates, Sapateiros e Marceneiros. Ocupou como sede o sobrado nº 63 da Rua da Alfandega, atual Rua Sá e Albuquerque em Jaraguá.

Relatório

Meses após a fundação, a Federação Operária Alagoana participou no Rio de Janeiro, do Segundo Congresso Operário Brasileiro, que aconteceu entre os dias 8 e 13 de setembro de 1913 e reuniu mais de 100 delegados. Durante o Congresso, o delegado de Alagoas, o gráfico Virgínio de Campos, que chegou a secretariar Edgard Leuenroth na condução dos debates, apresentou o seguinte relatório, publicado no jornal A Voz do Trabalhador de 1º de maio de 1914:

Seção de Tecelagem da Fábrica São Miguel

“Camaradas:

Sejam primeiramente as nossas palavras uma saudação fraternal a todos quantos se esforçam, sem tréguas, pelo ideal de redenção da grande classe humilhada e vítima das injustiças das atuais e nefastas convenções sociais.

Nós saudamos os convictos, audazes timoneiros do bem, baluartes inexpugnáveis da liberdade, que, em sua trajetória angustiosa, mas firme e honesta, só observam as leis do amor e da equidade, germináveis somente nos corações bem formados e nas consciências límpidas e justas.

O nosso ideal tão simples, tão belo, tão generoso, e que se não confunde com as mistificações daqueles que tudo encaram através dum prisma de ambições pessoais de grandezas e mandos, longe não está de plena realização, pois que a passos de gigante caminha a força consciente que há de dar solução completa ao problema vital do trabalho.

Já o nosso companheiro de lutas João Ferro, saudoso doutrinário desta campanha nobilíssima em Alagoas, arrostando as mais rudes perseguições, nos ensinava que o método de ação direta era o elemento propulsionador das reais conquistas proletárias.

Oficinas da Companhia Trilhos Urbanos em 1922

Disso nos certificamos com as provas que experimentamos dia a dia, momento a momento.

Continuemos, pois, irmãos, nessa vereda, unidos sempre, fortes e resolutos, cada qual compreendendo as vantagens resultantes da organização sindicalista, e agindo, como leões indomáveis, contra as misérias da atualidade, impostas pelos tubarões de todos os matizes, egoístas que na terra imperam com o fito exclusivo de satisfazer as desumanas ambições por que são dominados!

O operariado de Alagoas ainda dorme; mas constantes são as tentativas para despertá-lo. Estamos certos de que em breve ele tomará vulto, mostrando-se autônomo para propugnar pelos seus direitos. Dessas tentativas tem-se obtido, quando menos, uma concepção mais clara e mais exata da solidariedade.

Muitas greves temos observado em Maceió, porém com um resultado triste, devido aos paredistas não se congregarem em sociedade de resistência, apenas incipiente aqui.

Numa classe compenetrada do valor, que representa, não muito fáceis são tais fracassos, pois que os trabalhadores sabem dirigir-se por trilha certa e segura.

I

Engenho Conceição em São Miguel dos Campos em 1932

A Federação Operária de Alagoas foi organizada a 1º de maio deste ano de 1913, à rua da Alfandega n. 63, em Maceió.

Tomaram parte na fundação os membros das comissões executivas dos Sindicatos Gráfico, dos Sapateiros, dos Alfaiates e dos Marceneiros. A 29 de junho seguinte, foram aprovados os seus estatutos, extraídos, com as indispensáveis alterações, dos da Federação Operária do Rio de Janeiro, que a Confederação Operária Brasileira nos enviara como norma.

Depois de criada a nossa Federação, foi constituído o sindicato dos Estivadores, no mês de agosto, com o número de 150 associados, e cujas sessões têm sido sempre concorridas.

O Sindicato de Ofícios Vários está em formação, devendo ficar definitivamente instalado por estes dias.

Todos estes agrupamentos de classe são puramente calcados na resistência.

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O número de associados do Sindicato Gráfico é de 102, dos Alfaiates 35, dos Sapateiros 80, dos Marceneiros 28, dos Estivadores 150 e de Ofício Vários 27, contando assim a Federação com 422 membros, que a constituem.

Operários saindo da Fábrica Progresso Alagoano em Rio Largo

Todos os sócios pagam as respectivas mensalidades, cujo produto é aplicado na propaganda, no aluguel da casa e auxílios em caso de indigência, sem haver, porém, nesta última parte, compromissos.

A Federação tem uma pequena biblioteca e já resolveu iniciar, no próximo mês de setembro, as aulas da respectiva escola.

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Foram iniciadas, por intermédio do Sindicato Gráfico, 2 greves, sendo 1 no Jornal de Alagoas, durante 6 dias e terminando vitoriosa, e a outra no Alagoas, alcançando os paredistas o que desejavam. Ambas se deram no mês de maio de 1912.

O Sindicato dos Alfaiates também concorreu para o aumento de salário na alfaiataria da Loja da Moda.

O Sindicato dos Sapateiros concorreu para quebrar o “trust” formado por diversos patrões com o fim de não vender material concernente ao fabrico de calçados, para que o operário não pudesse trabalhar por conta própria.

O sindicato dos Estivadores, uma vez organizado, havendo constantes reclamações por parte de vários associados sobre o horário do trabalho, que era das 5 horas da manhã às 7 da noite, sem tempo até para as refeições senão ligeiramente onde trabalhavam, obteve a diminuição de horas, que ficaram reduzidas de 6 da manhã às 5 da tarde.

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Operários da União Mercantil em Fernão Velho no ano de 1922

Todo esse movimento tem causado bom efeito nas classes trabalhadoras, que muito se rejubilam por ver a atitude das classes organizadas, apesar de muitos outros operários não quererem compreender ainda as vantagens provenientes da organização, sendo de notar que estamos dispostos a continuar na propaganda do sindicalismo.

II

A média de salário para todas as classes é de 3$000, quantia insuficiente para a manutenção do operário adulto.

A do salário da mulher adulta é de 1$000, o que é também insuficiente a sua manutenção.

Não há distinção para a diária do trabalhador solteiro ou que tenha família, pois o patronato quer tão somente a produção.

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O trabalhador recebe o salário e passa mal, pois a alimentação não chega para sua subsistência, porque a situação do operário reclama uma sorte melhor, um mínimo de salário de 5$000 diários, o que é impossível ser concedido pelo patronato, a não ser com a ação proletária constante e decidida.

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Seção de teares da Industrial Penedense em 1922

As condições higiênicas das casas de operários são regulares nestes últimos tempos, porém são caras de aluguel em relação à insuficiência de salário.

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O horário de trabalho, em muitas classes, irregular; as fábricas exigem 14, 12 e 10 horas, porém as outras oficinas, 10 horas.

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Eis em ligeiros traços o que a Federação Operária de Alagoas pode dizer sobre a situação da classe operária neste Estado.

Sala das sessões da Federação Operária de Alagoas, em 28 de agosto de 1913.

Pela comissão executiva — Virgínio de Campos”.

Recepção

A participação do representante alagoano ao Segundo Congresso Operário realizado no Rio de Janeiro entre os dias 8 e 13 de setembro de 1913 foi destacada pelos jornais de Maceió, como informa a edição de 15 de outubro de 1913 do jornal A Voz do Trabalhador.

Seção de Tecelagem da Fábrica São Miguel

Para receber Virgínio de Campos, foi montada uma recepção festiva. O Correio de Maceió assim noticiou a volta do representante alagoano: “Num verdadeiro delírio a grande massa proletária dirigiu-se, em seguida, para a sede da Federação Operária, de cuja sacada falou Bernardes Junior, agradecendo ao povo e às associações ali representadas o grande brilhantismo, que deram àquela recepção, vibrando, intensamente, às suas últimas palavras novas e ruidosas aclamações”.

E continua: “Virgínio de Campos deu entrada na sala de honra da Federação, onde já estava formada a mesa que presidiu os trabalhos da sessão solene dirigindo-a, e o sr. Flaviano Domingues que produziu um curto discurso, alusivo ao ato, dando, em seguida a palavra ao orador oficial”.

Discursaram ainda Bitencourt Filho; Jorge Freitas, representando o Sindicato Gráfico e da corporação tipográfica do Diário Oficial; Vicente de Moura, Antonio de Albuquerque, João Domingues e Olimpio Sant’Ana, representantes dos sindicatos dos Estivadores, de Ofícios Vários e dos Alfaiates.

Por último falou Virgínio de Campos, que descreveu os trabalhos do Segundo Congresso, destacando que o tema da emigração foi um dos mais discutidos. Seu discurso foi considerado “uma peça socialista de extraordinário valor, despertando os mais vivos e prolongados aplausos”.

Greve nas fábricas de tecidos

Seção de Tinturaria e Engomação da Fábrica Progresso

Em novembro de 1913, com a greve nas fábricas de tecidos de Rio Largo iniciada no mês anterior, em 20 de outubro, a Federação Operária Alagoana solicita, por telegrama, apoio da Confederação no Rio de Janeiro para manter contato com o “maior capitalista” das fábricas, Teixeira Basto, que lá morava na rua Conde do Bomfim, 743.

A reunião foi marcada e uma comissão nomeada pela COB expôs a situação ao empresário, que respondeu já ter comunicado o seu voto para a assembleia dos acionistas, que se reuniria para decidir sobre as reivindicações dos trabalhadores.

Segundo o jornal A Epoca de 3 de novembro de 1913, a proposta apresentada por Teixeira Basto para pôr fim à greve era a seguinte: aumentar de 5 a 10% os salários, estabelecer serões facultativos e pagá-los com mais 30% do salário diurno.

O telegrama da COB encaminhado à Federação Alagoana comunicando a proposta, alerta: “Haverá política? Cuidado. Segue ofício”.

A greve se prolonga e a Federação vai às ruas pedir ajuda para manter os grevistas de Rio Largo. Até audiência foi marcada com o secretário do Interior para cobrar proteção ao movimento paredista. Somente no final de novembro é que os trabalhadores voltam às fábricas, após inúmeros entendimentos e compromissos.

Como resultado da participação da Federação na greve, em fevereiro de 1914, o Sindicato Operário de Cachoeira adere à FOA e indica o tecelão Albino Moreira, como seu delegado junto à COB.

Outro resultado da efervescente atividade organizada dos operários foi o surgimento, em 1915, de vários jornais operários em Maceió. Passam a circular O Debate, O Rebate e A Semana Social, este último dirigido por Antônio Bernardo Canellas a partir de 1917.

No Congresso Internacional da Paz, realizado no Rio de Janeiro nos dias 14, 15 e 16 de outubro de 1915, a Federação Operária Alagoana foi representada por Luiz de França.

Nova direção

Gráficos na oficina da Tipografia Americana em Jaraguá

No dia 15 de fevereiro de 1914, o jornal A Voz do Trabalhador informou que a Federação Operária de Alagoas, agora situada à rua do Livramento, 36, “empossou a sua comissão federal e reconheceu as seguintes delegações de sindicatos:

Sindicato Gráfico, Virgínio de Campos, Cleodon Mendes e Genezio Silva; Sindicato dos Padeiros, Antonio Norberto, Raimundo Vieira de Lima e Angelo Alves dos Santos; Sindicato dos Alfaiates, Gracindo Silva, José da Rocha Cavalcanti e Olimpio Santana; Sindicato dos Pedreiros, José Teófilo, Luiz Antonio e Januário de Oliveira; Sindicato dos Operários da Cachoeira, Homero Luz e Domingos Augusto; Sindicato dos Operários do Rio Largo, Justino de Oliveira e Sebastião Tiago; Sindicato dos Trapicheiros de Jaraguá, Pedro Codá e Serápio Nascimento”.

A nota no jornal informa ainda que Leopoldo Pereira e Bernardes Junior foram afastados da Federação “por se encontrarem em desacordo com a orientação criteriosa e correta que com denodo vem assegurando ao operariado alagoano uma luta proveitosa”.

Em agosto de 1914, a Federação Operária Alagoana estava organizando os operários carpinteiros e registravam que não houve sucesso na greve dos padeiros.

Cumprindo agenda de propaganda da Confederação, esteve em Maceió entre os dias 1º e 6 de maio de 1914, José Elias da Silva, tratado pelo jornal A Voz do Trabalhador como “nosso delegado excursionista”. Era um dos principais dirigentes da COB e um expoente do anarquismo no Rio de Janeiro, dividindo com José Oiticica, Edgard Leuenroth, Domingos Passos e Otávio Brandão a tarefa de realizar palestras. Estava vindo da Bahia e prosseguiu visitando outros estados do Nordeste.

Assim o jornal descreveu sua participação em Alagoas: “Logo no dia 1º de maio deu início à sua missão, efetuando uma conferência, que foi assistida por numerosa concorrência. No dia 6 realizou uma outra na sede do “Bloco Alagoano”, agremiação aburguesada, mas que gentilmente cedera seus salões para este fim, visto que o salão da Federação foi julgado pequeno para a assistência que se esperava e que felizmente assim sucedeu”.

Neste ano, a Federação tinha a seguinte direção: Comitê Executivo: Epaminondas Leite, Leopoldo Pereira, Flaviano D. Moreira, Virgínio de Campos e José Grévy. Comitê Sindico: Gracindo Silva, Vicente Moura, Olympio Sant’Ana, José Mendonça e Firmino França. Comitê de Propaganda: Bernardes Junior, Delorisano Moraes, Jayme d’Altavilla, Mário Wanderley e Antonio da Silva Duarte. Comitê Federativo: Jorge Freitas, Oscar de Barros, Benedicto Angelo, Manoel Silvino e Gualther Medeiros. Tesoureiro: Manoel Sant’Ana Sobrinho. Secretário Geral: Bernardes Junior. Adjuntos: João Domingues Moreira, Oscar Colombo e J. Vitcorino da Costa.

O Almanaque Laemmert, de 1915, que publicou a relação acima, informa ainda que “Esta sociedade é a única no Estado de Alagoas, que mantém delegados nos vários Estados da República. Não tem cor política, nem doutrina religiosa”.

Não se conseguiu informações precisas sobre por quanto tempo funcionou a Federação Operária Alagoana, entretanto, ao registrar a entidade, o Almanaque Laemmert, do Rio de Janeiro, cita a mesma direção acima entre os anos de 1916 e 1926.

É provável que a repetição tenha ocorrido por descuido do editor do Almanaque, que sem receber atualizações, repetiu ano após ano as mesmas informações de 1915.

Em junho de 1915 foi publicado o último número do jornal A Voz do Trabalhador, órgão da Confederação Operária Brasileira, e quando foi realizado o terceiro e último Congresso Operário da Primeira República, em 1920, a COB já não existia.

Há indicações que a Federação Operária Alagoana tenha existido até o final da década de 1910. Em agosto de 1920, foi fundada a Federação Operária de Alagoas que teve como seu órgão o jornal O Escravo.

*A editoria do História de Alagoas agradece a Edmilsom Vasconcelos pela cessão do material principal desta pesquisa, a coleção fac-similar do jornal A Voz do Trabalhador, impressa pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, na gestão do alagoano Audálio Dantas. 

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