Famílias na política alagoana do século XX (III): Góis Monteiro

Silvestre Péricles foi o Góis Monteiro mais conhecido em Alagoas

Dona Constança de Góis Monteiro, filha de um senhor de engenho

A família Góis Monteiro se constitui em Alagoas no final do século XIX como resultado do casamento do senhor de engenho e médico sanitarista Pedro Aureliano Monteiro com Constança Cavalcanti de Góis. Quase todos os nove filhos homens (sete homens e duas mulheres) seguiram a carreira militar e foi a partir desta atividade que alguns tiveram inserção na política.

Os filhos são os seguintes: Pedro Aurélio de Góis Monteiro (1889/1956), Manuel César de Góis Monteiro (1891/1963), Cícero Augusto de Góis Monteiro (1892/1932), Durval de Góis Monteiro (1895/1939), Silvestre Péricles de Góis Monteiro (1896/1972), Edgar de Góis Monteiro – (1901/1973), Ismar de Góis Monteiro (1906/1990), Rosa (Rosita) de Góis Monteiro e Conceição de Góis Monteiro.

General Pedro Aurélio

O mais velho dos filhos, Pedro Aurélio de Góis Monteiro, foi precursor da família na política. Nasceu em 12 de dezembro de 1889 no Engenho Guindaste, São Luís do Quitunde, Alagoas.

Com a morte do pai a família enfrenta dificuldades e, em 1904, vai para o Rio de Janeiro em busca de formação militar. Inicia os estudos na Escola Preparatória do Realengo. Depois vai para Escola Militar da Praia Vermelha, que é fechada temporariamente por ter se sublevado nos episódios de 1904. Concluiu o curso em Porto Alegre, RS, na Escola de Guerra.

Após participar ativamente das diversas mobilizações políticas ocorridas no sul do país no início do século XX, assume o comando militar das forças revolucionárias que depuseram o presidente Washington Luís e conduziram Getúlio Vargas ao poder em 1930.

General Pedro Aurélio

A partir de janeiro de 1934, quando é nomeado Ministro da Guerra, cresce o seu poder político ao ponto de ser cogitado como candidato à Presidência da República, numa tentativa de dividir as forças de Vargas.

Pede demissão do ministério em maio do ano seguinte, mas volta a ter poder em julho de 1937 ao assumir o Estado-Maior do Exército (EME), onde permanece até 1943. Em agosto de 1945 assume pela segunda vez o Ministério da Guerra, substituindo ao General Eurico Gaspar Dutra, então candidato à Presidência da República.

Foi eleito senador do PSD por Alagoas em 1947. Não consegue a reeleição em 1950. Após ter participado das articulações para depor Vargas, participa do seu governo ocupando novamente a chefia do Estado-Maior, onde permaneceu até dezembro de 1952 quando foi nomeado ministro do Superior Tribunal Militar (STM), cargo no qual permaneceu até a morte em 26 de outubro de 1956, no Rio de Janeiro.

Com imensos poderes durante a Era Vargas, Pedro Aurélio conseguiu abrir espaços importantes na política para seus irmãos.

Dr. Manuel César

Um dos irmãos que também conseguiu grande projeção foi o médico e militar Manuel César de Góis Monteiro (1891 — 1963). Formado na Escola de Medicina da Bahia, chega ao Corpo de Saúde do Exército após ser aprovado em concurso no ano de 1913.

Inicia sua participação política em Alagoas após ser promovido a tenente-coronel em 1933, participando das articulações eleitorais lideradas pelo interventor federal capitão Francisco Afonso de Carvalho.

Fundou em janeiro do mesmo ano o Partido Nacional (PN) de Alagoas com o objetivo de concorrer às eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. Presidindo a comissão executiva do partido e também como candidato consegue eleger toda a bancada alagoana no pleito ocorrido em maio de 1933.

Em 1935, é eleito senador para a Assembleia Constituinte de Alagoas, concluindo o mandato no final de 1937.

Vai para a reserva como general no ano seguinte e ingressa na carreira diplomática como ministro de segunda classe, acumulando suas funções na Guatemala, São Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá.

Aposentou-se em junho de 1956 e faleceu em 1963.

Silvestre Péricles

Silvestre Péricles

Em Alagoas, o mais conhecido dos irmãos Góis Monteiro foi, sem dúvida, Silvestre Péricles.

Nasceu em São Luiz do Quitunde no ano de 1896, mas ainda criança foi morar em Maceió onde concluiu sua educação primária e a secundária.

Recebeu o diploma de advogado pela Faculdade de Direito do Recife em 1918, mesmo ano que é nomeado Delegado de Polícia em Maceió, cargo que ocupa até o ano seguinte, quando vai morar no sul do país e lá conclui também o curso de Ciências Comerciais pela Academia de Comércio de Porto Alegre.

Antes de 1930, já tinha sido Auditor de Guerra, em Belém do Pará, no ano de 1926, e Juiz distrital em Erechim, São Gabriel e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Participou ativamente do movimento armado de 1930, cujo irmão Pedro Aurélio foi chefe militar. É nomeado chefe da Justiça Militar das Forças Revolucionárias.

Sua participação na política alagoana tem início em 1934, quando é lançado candidato ao governo de Alagoas pelo PPN. Nesta época exercia novamente o cargo de auditor de guerra no Rio de Janeiro, então capital federal do país. Tinha honras de tenente-coronel do Exército.

Acreditando que o irmão Pedro Aurélio, então Ministro da Guerra, ajudaria a construir o apoio político necessário para aquela eleição indireta, passou a hostilizar abertamente o interventor Osman Loureiro, que pleiteava continuar governando o estado.

Percebendo que o general Pedro Aurélio não conseguia beneficiar o irmão, Osman Loureiro amplia suas articulações e convida Edgar de Góes Monteiro para assumir a chefia de polícia no lugar de Ernandi Teixeira Bastos. Mesmo sendo Edgar casado com Sofia Loureiro, filha de Osman Loureiro, a nomeação era claramente uma manobra para expor a divisão na clã dos Góis Monteiros.

Rosita de Góis Monteiro

No início de 1935, sentindo que tinha o seu poder lentamente diminuído por Getúlio Vargas, Pedro Aurélio coloca o cargo à disposição. Seu afastamento, entretanto, somente foi efetivado em maio daquele ano.

Em Maceió, o clima político esquenta e as provocações entre os grupos adversários se multiplicam. Silvestre denunciava que Osman Loureiro representava a retomada do poder pelos derrotados em 1930.

O resultado dos choques entre as forças políticas armadas logo apresentou suas vítimas. No famoso tiroteio do Hotel Bella Vista, ocorrido no dia 7 de março de 1935, entre os feridos estava o próprio Edgard de Góes Monteiro, que recebeu tiros na perna esquerda e no antebraço direito.

Horas depois tomba fuzilado na porta da Chefatura de Polícia o deputado Rodolpho Lins. Adauto Viana fica gravemente ferido e Ezequiel Rodrigues de Amorim, funcionário público municipal, que transitava no local, faleceu ao receber um tiro no abdômen.

Outras pessoas tiveram ferimentos leves e o inspetor Manoel Barbosa Cruz foi acusado de ter liderado o grupo que metralhou o carro que levava uma comissão encarregada de negociar o fim do cerco ao Bella Vista.

Após este episódio, Silvestre Péricles se afasta da vida pública e assume a corregedoria da Justiça Militar do Tribunal de Contas da União.

Voltou a disputar um cargo em dezembro de 1945, quando se elege deputado pelo PSD e participa da Assembleia Nacional Constituinte, continuando no mandato legislativo após a promulgação da Constituição de 1946.

No final deste ano é eleito pelo PSD para governar Alagoas. Tomou posse no início de 1947 e realizou uma administração que ficou marcada por episódios violentos, como a morte do pai do deputado Oseas Cardoso em fevereiro de 1950. Silvestre é citado como mandante.

Deixa o governo no início de 1951, após ter seu candidato derrotado por Arnon de Mello. Continua ativo politicamente, presidindo o PST nacionalmente. Em outubro de 1954, perde a eleição para o Senado.

Dois anos depois é nomeado ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), mas volta à política em 1958, quando consegue o mandato de senador. Em 1962, sem se afastar do mandato de senador, candidata-se a deputado federal na legenda do PSD, mas sem êxito.

Em dezembro de 1963, envolve-se em acirrada discussão no plenário com o senador Arnon de Mello (UDN), que tentou matá-lo. Arnon erra o tiro e atinge mortalmente o senador pelo Acre, José Kaiala.

Após o golpe militar e a extinção dos partidos políticos em 1965, filia-se ao MDB, concluindo seu mandato de senador em janeiro de 1967. Tenta ainda uma vaga na Câmara dos Deputados em outubro de 1970, mas perde a eleição.

Silvestre Péricles de Góis Monteiro faleceu em 1972, quando morava em Brasília. Foi o Góis Monteiro que permaneceu por mais tempo na política alagoana.

Edgar de Góis Monteiro

Edgar de Góis Monteiro

Edgar de Góis Monteiro nasceu em Maceió no ano de 1901. Estudou no Colégio S. João e no Liceu Alagoano. Na adolescência chegou a jogar futebol em um grande clube de Maceió. Era zagueiro e ficou conhecido como “Galo” por marcar de forma implacável os atacantes adversários.

A carreira política deste Góis Monteiro também tem a forte influência do irmão general Pedro Aureliano, além da ajuda do sogro Osman Loureiro.

A partir de fevereiro de 1933 teve ascensão vertiginosa, começando como prefeito de União dos Palmares e chegando a interventor interino do Estado por 45 dias em 1935, passando pela prefeitura de Maceió em 1934, chefia de polícia e secretário do Interior de Alagoas em 1935.

Com a eleição indireta de Osman Loureiro em maio de 1935, assumiu a Secretaria-geral do Estado. Após novembro de 1937, com a instauração do Estado Novo, Osman Loureiro permanece no governo voltando a ser interventor federal. Edgar de Góis Monteiro também continuou como secretário-geral, de onde somente saiu em 1940.

Até novembro de 1945, quando é nomeado interventor em Alagoas, Edgar passa a morar em Belo Horizonte, assumindo uma das diretorias do Banco do Crédito Real de Minas Gerais S. A. Desde os anos 30 que era um importante acionista desta instituição bancária, onde desempenhou os cargos de inspetor regional e presidente do Conselho de Administração.

Ao assumir a interventoria federal em Alagoas, substituiu seu irmão Ismar de Góis Monteiro, que estava à frente dos destinos do estado desde de 1941. Deixou o governo em abril de 1946. Alguns jornais da época especularam que ele preferia assumir a diretoria do banco mineiro.

Mesmo sem mandato político, Edgar continuava a ter forte influência em Alagoas. O Diário Carioca de 4 de março de 1947 publica uma nota informando que Tércio Wanderley, eleito para presidir a Assembleia Constituinte Estadual, era “candidato do sr. Edgar de Góis Monteiro”.

Dois anos depois, foi nomeado presidente da comissão executiva do Instituto de Açúcar e do Álcool (IAA), onde permaneceu até janeiro de 1950. O senador e general Pedro Aurélio, que mantinha influência política no governo de Eurico Gaspar Dutra, foi o responsável por sua indicação.

Em 1951, Edgar ainda ensaiou sua candidatura ao governo de Alagoas, mas não conseguiu viabilizá-la. No ano seguinte é citado pelos jornais como presidente do Conselho de Administração do Banco do Crédito Real de Minas Gerais S. A.

Foi morar definitivamente em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde faleceu no dia 26 de junho de 1973.

Ismar de Góis Monteiro

Ismar de Góis Monteiro

O mais novo dos irmãos Góis Monteiro a entrar para a política foi Ismar. Nascido em 1906 em Maceió, onde iniciou o curso primário, logo foi morar no Rio de janeiro.

Como seus irmãos, segue a carreira militar, estudando o secundário no Colégio Militar de Barbacena em Minas Gerais.  No Rio de Janeiro, Ingressa na Escola Militar do Realengo em abril de 1924.

Era primeiro-tenente quando lutou ao lado dos irmãos na chamada Revolução de 1930. Consegue a promoção a capitão em novembro de 1932 e vai para a Escola de Armas do Exército. Em 1936 inicia os cursos de engenheiro mecânico e eletricista na Escola Técnica do Exército, concluídos em 1939.

Quando assumiu a interventoria de Alagoas, em 1941, ainda era capitão. Foi promovido a major por merecimento em agosto daquele mesmo ano. Em abril de 1945 chega a tenente-coronel. Em fevereiro do ano seguinte atinge a patente de coronel.

Com a campanha presidencial em curso, Ismar se destaca em Alagoas ao liderar uma verdadeira cruzada do seu partido, o PSD, em defesa da candidatura do general Eurico Dutra. Realiza vários comícios pelo estado, sempre juntando muita gente para ouvir as lideranças políticas.

Em novembro daquele ano, o PSD apresentou a seguinte chapa de candidaturas: para o Senado, tenente-coronel Ismar de Góis Monteiro e cônego Cícero de Vasconcelos; para deputados federais, Silvestre Péricles de Góis Monteiro, coronel Afonso de Carvalho, Luiz Silveira, Lauro Montenegro, Antônio Mafra, Esperidião Lins, padre Medeiros Neto, José Maria Melo e o major Manoel Xavier Oliveira, então comandante da Força Pública do Estado.

Eurico Dutra sai vitorioso e em Alagoas os dois candidatos ao Senado do PSD são eleitos. O partido elege ainda seis deputados federais. A UDN fica com as outras três vagas.

Em maio de 1946, Ismar e o irmão Silvestre se envolvem em caso de agressão no Senado. Segundo os jornais da época, os irmãos tomaram as dores do Ministro da Guerra, general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, que foi atacado com “acusações impensadas” pelo deputado Barreto Pinto do Partido Trabalhista Brasileiro.

Após descer da tribuna, Barreto Pinto estava em um dos corredores dando entrevistas quando “foi agredido a socos pelo sr. Ismar de Góis Monteiro”, detalha o jornal A Manhã de 29 de maio de 1946.

Barreto Pinto volta ao plenário e ao microfone narra a agressão sofrida e volta a atacar o Ministro da Guerra. Então é a vez de Silvestre entrar em ação, se atracando com o colega deputado, que foi salvo graças à intervenção de alguns constituintes.

Em 1948, Silvestre e seu grupo no PSD rompem com o senador Ismar. Magoado, deixa vazar a informação que pensava em renunciar o mandato, não o fazendo para atender aos apelos do outro irmão, o general Padro Aurélio.

A separação política entre Ismar e o Irmão Silvestre permanece por muito tempo e em outubro de 1950 se manifesta no tiroteio de Mata Grande, quando Ismar é atingido por disparos. Já estava reformada com o posto de general-de-brigada.

Volta a tentar uma cadeira no Senado em outubro de 1954 e em outubro de 1962, sendo derrotado nas duas últimas tentativas. Em janeiro de 1961 toma posse como vice-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) para no final do mês assumir interinamente a presidência da empresa por um breve período. Ocupou ainda a presidência da Caixa Econômica Federal em Alagoas.

Sobre sua passagem como diretor da CSN, há um episódio divulgado pelo jornal O Semanário do final de junho de 1961. O presidente Jânio Quadros, que tinha assumido a presidência do país em janeiro, estava demitindo uma porção de diretores das autarquias e empresas estatais para acomodar seus amigos e correligionários, atropelando a lei quando a situação exigia.

Pretendo substitui Ismar de Góis Monteiro, Jânio mandou que o ministro da Indústria e Comércio convencesse o alagoano a pedir demissão para não ser demitido. Ismar reagiu:

— Diga ao dr. Jânio que irei até o fim do meu mandato. Se ele ousar demitir-me, dar-lhe-ei um tiro na boca. É a minha resposta.

Segundo o jornal, o presidente da República, que renunciaria em agosto daquele ano, teria dito:

— O homem é maluco. O melhor e deixá-lo em paz. Com malucos não se brinca.

Ismar de Góis Monteiro faleceu no Rio de Janeiro em 21 de fevereiro de 1990.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*