Famílias na política alagoana do século XX (I): Malta

Euclides Malta, ao centro de chapéu branco, no Rio de Janeiro em fevereiro de 1912, tendo à sua esquerda Eusébio de Andrade, Solfiere de Albuquerque e o major Gomes Ribeiro; à sua direita, Raymundo Miranda e Fábio Bueno Brandão

Usina Leão Utinga

Manuel Diégues Júnior em seu livro O Banguê nas Alagoas constatou que a história de Alagoas se confunde com a história dos engenhos de açúcar. Para este historiador, “a evolução de um ditou e condicionou a do outro; acompanha a história do Estado, o desenvolvimento da cultura da cana e da indústria do açúcar. As dificuldades que sofre o açúcar, refletem-se na história regional. Os seus dias de esplendor são os dias áureos da terra – vilas, comarca, capitania, província ou Estado”.

Identificou ainda que as famílias alagoanas se constituíram ao redor da casa-grande do engenho, “e quando invade as cidades, formando as zonas urbanas, é como um derramamento do banguê; é expandindo os canaviais, a casa de moenda, a casa de purgar, o engenho. As cidades da região açucareira são, na verdade, um prolongamento do engenho. Hoje, talvez, mais da usina”.

Assim, se consolidaram famílias como os Mendonças, Wanderleys, Melos, Cavalcantis, Lins, Holandas, Marinhos, Gomes de Melo e Machados, sempre “senhores dos melhores engenhos ou das melhores terras”.

É o senhor de engenho o chefe da família e de todos que vivem no banguê. Respeitado, ouvido e acatado por ser também o chefe político.

Estas famílias eram tão poderosas que até se permitiam mudar seus nomes adotando referências regionais. Diégues Júnior cita o caso da família Leite Rodrigues como sendo talvez o mais notável: “Aí por volta de 1831 os irmãos Rodrigues deliberaram, numa reunião cívico-regional. Surgem, então, Oiticica, Pitanga, Gejuíba”.

Assim, os irmãos Manuel, José e Antônio Rodrigues Leite passaram a ser Manuel Rodrigues Leite e Oiticica, José Rodrigues Leite Pitanga e Antônio Rodrigues Leite Gejuíba.

Muitas destas famílias indicaram representantes para a política ou para o judiciário. Outras se alinhavam com os grupos mais fortes e mesmo sem estar diretamente ocupando cargos, partilhavam das benesses do poder.

Com a proclamação da República no final do século XIX e a Revolução de 30, já no século XX, algumas destas famílias perderam seus espaços políticos para novos grupos econômicos e familiares, entretanto, sem nunca se afastarem do poder.

Aos poucos, os senhores de engenhos foram se transformando nos modernos capitães da nascente indústria açucareira. Mantiveram o poder, mesmo quando não tinham representantes familiares na política.

Apresentaremos a seguir um resumo da trajetória política de algumas destas famílias.

A Era Malta

Euclides Vieira Malta nasceu em Mata Grande, Alagoas

A política alagoana no alvorecer do século XX é marcada fortemente pela atuação do advogado Euclides Vieira Malta, principal liderança de um dos segmentos das classes dominantes do estado. Nasceu no dia 16 de setembro de 1863 em Mata Grande, Alagoas. Era filho de Manoel Francisco Malta e Maria Vieira Malta.

Estudou em Maceió e em Recife matriculou-se no curso de Direito no ano de 1881, saindo bacharel em ciências jurídicas e sociais no ano de 1886. De volta a Alagoas, foi promotor na comarca de Atalaia e advogou em Penedo.

Casou-se com Maria Gomes Ribeiro Malta e tiveram os seguintes filhos: engenheiro Euclides Malta Filho, que foi coletor federal em Alagoas; Danúbio Gomes Malta, comerciante; Maria Malta Duarte, esposa do dr. Abelardo Duarte; dr. Nilo Gomes Malta, médico em Recife; Ciro Gomes Malta, também comerciante em Recife; e Alice Gomes Malta, que faleceu no dia 12 de janeiro de 1927 quando tinha apenas 22 anos.

Euclides Malta ascendeu politicamente a partir do legado deixado por seu sogro, Manuel Gomes Ribeiro, o barão de Traipu. Governou Alagoas entre 16 de abril de 1888 e 10 de junho de 1888; 28 de novembro de 1891 e 24 de abril de 1892; e 17 de outubro de 1894 e 14 de janeiro de 1896.

Utilizando-se de maior capacidade de articulação política que os tradicionais e incultos “coronéis” que mandavam no estado, conseguiu aglutinar forças que o mantiveram no poder de 1900 a 1912.

Manuel Gomes Ribeiro, o Barão de Traipu

Governou Alagoas de 12 de junho de 1900 a 12 de junho de 1903 e de 12 de junho de 1906 a janeiro de 1912. Antes foi eleito deputado federal, cargo que voltou a ocupar em 1921. Como senador, representou Alagoas nos seguintes períodos: 1903-1905 e 1906-1908. Foi ainda conselheiro municipal e intendente.

Após derrotar Miguel Soares Palmeira nas eleições de 1900 e conquistar forte respaldo político no início do governo, principalmente por contar com o apoio do presidente Campos Sales, manobrou para fortalecer eleitoralmente seu irmão, Joaquim Paulo Vieira Malta, que governou o estado de 12 de junho de 1903 a 12 de junho de 1906.

A reforma da Constituição estadual que permitiu a eleição de Paulo Malta não agradou a ninguém. Entre seus aliados chegou a perder o apoio do barão de Traipu. A oposição, liderada por José Fernandes Lima também esperneou, mas não consegui impedir que o governador aprofundasse o poder da família.

Após recompor-se com o sogro, Euclides voltou a ocupar o Palácio Velho da Rua Barão de Anadia derrotando Gabino Besouro em 1906. Teve 14.511 votos contra 1.749 do adversário. É reconduzido em 1909 sem ter que vencer ninguém. Sua candidatura foi a única apresentada.

Estes dois últimos governos não foram tranquilos. A crescente presença na cena política de trabalhadores organizados e associados à oposição liberal liderada por Fernandes Lima fortalecem a oposição.

A instabilidade política e o enfraquecimento do poder dos Maltas se apresentam mais nitidamente no início de 1911, quando o “salvacionismo” adotado pelo presidente Hermes Rodrigues da Fonseca intervém nos estados atingindo algumas oligarquias.

A oposição sentindo-se protegida por um presidente apresenta a candidatura ao governo do coronel Clodoaldo da Fonseca, escolhido por ter algumas “virtudes”: era primo do presidente Hermes e filho de Pedro Paulino da Fonseca, ex-governador de Alagoas. Todos herdeiros do patrimônio político de Deodoro da Fonseca.

Apetrechos dos cultos afros apropriados pela Liga dos Republicanos Combatentes

Fernandes Lima e seu grupo aceleram as ações de fustigamento e apoiam a criação, em dezembro de 1911, da Liga dos Republicanos Combatentes, uma organização paramilitar a serviço das oposições.

No final de janeiro de 1912 o Palácio dos Martírios é invadido e Euclides Malta foge de Alagoas. Vai para Recife e depois para o Rio de Janeiro, tentando estabelecer uma conversa com Clodoaldo da Fonseca. Quem assume o poder é o coronel Macário Lessa, presidente do Congresso Estadual.

Uma das ações perpetrada pela Liga dos Republicanos Combatentes entrou para a história e ficou conhecida como O Quebra de Xangô. Várias casas de culto afro-brasileiros foram destruídas no dia 2 de fevereiro por serem consideradas redutos eleitorais de Euclides Malta.

Esta ação política violenta foi alimentada pelo discurso da intolerância religiosa estimulado principalmente pelas principais lideranças da Igreja Católica, que se alinhavam com Fernandes Lima.

No dia 26 de fevereiro de 1912 Euclides Malta volta a Maceió no mesmo navio em que viajava o general Olímpio Fonseca, mas tem dificuldades no desembarque e é levado sob proteção até a sua casa onde fica recluso, guardado por soldados do Exército.

General Clodoaldo da Fonseca, governador de Alagoas de 1912 a 1915

Mesmo enfrentando manifestações populares, Euclides reassume o governo no início de março e diante dos confrontos armados, solicita intervenção federal. Uma semana após ter reassumido, teve que fugir novamente, agora sob a proteção das forças do Exército. No dia 17 de março tomou um navio para Recife e de lá para o Rio de Janeiro.

Com a eleição, em março de 1912, do coronel Clodoaldo da Fonseca, que tinha como vice-governador José Fernandes de Barros Lima, estava encerrada a considerada Era Malta em Alagoas.

Euclides Vieira Malta voltou a participar da política alagoana a partir de outubro de 1917, quando retorna a Alagoas e começa a reestruturar o Partido Republicano Conservador, PRC, por onde é eleito deputado federal em 1921 e reeleito em 1924, encerrando o mandato em 1926.

Abandona definitivamente a política em 1929, quando já morava em Recife. Faleceu na capital pernambucana no dia 16 de julho de 1944. Morava na Rua Marquês de Tamandaré, nº 85 e tinha 82 anos.

Ismar de Góis Monteiro

Entretanto, a família continuou envolvida com a política e teve vários representantes em mandatos eletivos durante o século XX. O caso mais famoso envolvendo os Maltas ocorreu nas eleições de 1950 em Mata Grande.

O prefeito do município era Moacir Peixoto, PST, ligado a Silvestre Péricles e com apoio de Pompílio de Alcântara Brandão, casado com uma sobrinha bisneta de Euclides Malta. Esse grupo apoiava a candidatura ao governo de Campos Teixeira.

Outra parte da família, liderada pelo deputado Antonino de Albuquerque Malta, irmão da esposa de Pompílio, apoiava Arnon de Mello, candidato da UDN, que tinha ainda o respaldo dos irmãos Edgar e Ismar de Góis Monteiro.

Foi a presença anunciada de Ismar que esquentou os ânimos. Circulou a informação que ele iria para o município com o intuito de desmoralizar os adversários. Silvestre estimulou seus correligionários a enfrentarem o irmão. Rosita de Góis Monteiro, irmã e aliada de Silvestre, também foi para Mata Grande.

O resultado foi um intenso tiroteio no dia da eleição. Em poucos minutos, quatro mortos e vários feridos mancharam de sangue as ruas de Mata Grande. Entre os feridos estava o próprio senador Ismar de Góis Monteiro.

Morreram neste episódio Eustáquio Malta, sua filha Maria Sônia Malta com 17 anos de idade, seu filho João Ubaldo Malta com 18 anos de idade e Napoleão Henrique de Souza, um empregado de Eustáquio.

O advogado José Moura Rocha defende Urbano Malta e Gerson de Souza acusados do assassinato de Moacir Peixoto

Moacir Peixoto foi morar em Goiás e voltou a Alagoas para ser eleito deputado estadual em 1958. Foi assassinado em 7 de dezembro de 1961 por Urbano Malta, que era criança quando o pai morreu baleado em 1950, e por Gerson de Souza, irmão de Napoleão Henrique. Os dois foram absolvidos por serem menores e por terem agido em “legítima defesa natural”

Após os incidentes em Mata Grande, a família Malta teve como liderança na região Luiz Gonzaga Malta Gaia, o Luiz Corneteiro, filho de dona Alzira Malta. Foi prefeito nos anos 50 e deputado estadual nos anos 60.

A família ainda elegeu os seguintes deputados estaduais: Eraldo Malta Brandão, Laércio Malta Brandão, César Eustáquio Malta Amaral e Eraldo Malta Brandão Filho. Vitório Manuel Malta Marques foi deputado federal entre 1991 e 1995.

O último representante da família a ter poder na política alagoana foi o deputado estadual Celso Luiz Tenório Brandão, que presidiu a Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas.

2 Comments on Famílias na política alagoana do século XX (I): Malta

  1. Maria das Graças Feitosa Alves // 28 de outubro de 2017 em 06:06 //

    Uma pequena correção, Pompílio era se chamava, Pompílio de Alcântara Brandão, a sua esposa era sobrinha bisneta de Euclides. Antonino de Albuquerque Malta e não Antonio, este era cunhado do Pompílio, por sua vez também sobrinho do Euclides.

  2. Maria das Graças, agradecemos pela contribuição. Faremos as alterações.

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