Evocação de Félix Lima Júnior

Por Félix Lima Júnior, em 1956.

Permiti, leitor amigo — se é que terei algum… — que eu vos fale de Maceió dos primeiros anos deste século, da cidade daqueles beaux vieux temps d’avant guerre, que conheci menino, de calças curtas, da grande aldeia em que nasci e em que vivi quase toda a minha existência.

Maceió em 1906

Recordo a capital alagoana, onde vi a luz pela vez primeira — ao iniciar-se o século XX — num velho sobrado de taipa e de biqueira, com portas de cedro e três janelas envidraçadas, com grades de ferro, no qual, uma vez por outra, principalmente nas noites de luar, aparecia, sem prévio anúncio, fazendo as suas visagens e alarmando a minha família, a alma do negro Faustino, que fora, in ilo tempore, escravo de minha avó materna, a austera professora Argemira Wanderley Leal, de saudosa memória.

O preto velho, embora libertado pela Princesa Isabel, em 13 de maio de 1888, ficou sempre preso, pela estima, à minha mãe, que visitava enquanto viveu e os seus afazeres o permitiam. Aparecendo em nossa casa, depois de morto, deu margem a que alguns parentes meus, gente de imaginação poderosa e fértil, depois do susto por que passavam, ficassem convencidos de que o antigo cativo deixara uma botija na parte térrea do prédio.

E iam além: faziam a conta, calculavam, gananciosamente, quantas moedas de ouro ele enterrara no salão onde costumava dormir, quando, na realidade, se escondeu algum dinheiro, foram apenas poucas moedas de níquel e de cobre do magro pecúlio que conseguira acumular, pois outros recursos não possuía ele e nem os podia possuir.

Av. da Paz ainda com a praça ao lado do Clube Fênix

Av. da Paz ainda com a praça ao lado do Clube Fênix

Essa botija, esse dinheiro, essa fortuna, em reluzentes libras esterlinas ou em moedas brasileiras de 6$400 — ou sejam vinte patacas — se acreditarmos na ilusão dos meus parentes, lá está ainda, no sobrado em que eu nasci, como permanece na sombria mata de Roquelanes, na Espanha, cheio de ouro, com as chaves nas três fechaduras, o cofre de ferro encontrado pelos famintos fidalgos castelhanos, do conto maravilhoso de Eça de Queiroz.

Não terminara ainda a primeira década deste século quando fui matriculado numa escola pública primária que funcionava na sala de visitas de uma velha casa de residência, com porta e duas janelas sem venezianas, na Entrada da Cambona.

Pontualmente, chovesse ou fizesse sol, eu ingressava às 9 horas da manhã, na sala sem forro, com paredes mal caiadas, ladrilhada com tijolos de barro do Siri. Sentava-me, atento e disciplinado, num duro banco de madeira mal acabado, e que tinha sido envernizado há mais de vinte anos.

Com o 1° livro de leitura de Felisberto de Carvalho aberto sobre os joelhos, permanecia de costas para a rua onde, vagarosos, passavam para Bebedouro os velhos bondes da CATU (Companhia Alagoana de Trilhos Urbanos), puxados por pobres burros cansados e mal tratados, dirigidos pelo Bernardino e pelo Catuaba, que, lá do Reino do Céu, onde estão, com certeza, devem relembrar as famosas festas de Natal daquele bairro, transformado na República da Alegria, graças ao dinamismo do saudoso major Bonifácio Magalhães da Silveira.

Num canto da sala tinham colocado um quadro negro que; de tanto ser riscado a giz, estava ficando branco… Na parede do fundo via-se, emoldurada, uma gravura em cores do Sagrado Coração de Jesus, enfeitada com velhas flores executadas com papel de seda, sujas e cheias de teias de aranha. Na ponta da mesa da mestra Augusta Tavares — simpática e estimada — perto do tinteiro Sardinha e da régua de madeira, repousava uma pedra pequena, lisa, polida pelo uso e que — todos os que estudaram em escolas públicas devem saber — servia para ir-se “lá fora“…

Catedral de Maceió no início do século XX

Catedral de Maceió no início do século XX

Rejubilei-me ao entrar na sala de aula pela vez primeira. É que não encontrara na parede, de cabeça para baixo, pendurada num prego enferrujado — Dona Manieta, reluzente palmatória de massaranduba, com que tantas vezes minha mãe me ameaçara quando, pacientemente, ensinava as minhas leituras e as contas de somar, conservando, porém, ao alcance da mão, por segurança, a correia da máquina de costura, Singer, gabinete inteiro, que meu pai comprara por uma fortuna — 200$000…

Nessa escola, “risonha e franca” como a do estudante alsaciano, e semelhante ao vale de Josafá, pois que nela misturavam-se rapazes ricos e pobres, brancos e pretos, feios e bonitos, bem e mal trajados, convivi três anos com um sobrinho-neto de Floriano Peixoto e o filho de Crescêncio, músico da banda da Policia; com rapazolas herdeiros de negociantes abastados e de diaristas paupérrimos; com descendentes de bodegueiros dos biombos do Paulo e de ricos e orgulhosos senhores de engenho do norte do Estado. No meio dessa meninada, inquieta e travessa, eu vadiava alegremente, convencido, porém, de que estava estudando e aprendendo…

Pela rua do Comércio, em tardes sonolentas, passava, a pé, o Governador Euclides Malta, acompanhado de amigos, inclusive os Secretários de Estado e o Intendente Municipal. Fechando o préstito vinha o Cobrinha, cabo de Polícia, ordenança de Sua Excelência, conduzindo ao lado esquerdo, com a pose de um “Royal Horse Guard” da Rainha Vitória e ares de mosqueteiro, velha espada de cavalaria que, de tão antiga, já deveria ter sido recolhida ao museu do Instituto Histórico de Alagoas…

Praça Santo Antonio em Bebedourona década de 20

Praça Santo Antonio em Bebedouro na década de 20

Nessa mesma artéria, sentados em cadeiras, na calçada, ou encostados em caixões vazios, negociantes, magistrados, funcionários e professores conversavam e discutiam, além da política, os acontecimentos sociais da cidade semimorta. À passagem da primeira autoridade do Estado levantavam-se e respondiam, atenciosos, aos cumprimentos do supremo dirigente da terra de Deodoro.

Na calçada do Bloco Alagoano, na rua da Maraba; da loja de tecidos do velho Taciano da Silva Rego; do armarinho de “seu” Honório de Albuquerque, na esquina da Boa Vista com a rua 1.° de Março; no Bazar Jaraguaense, na rua da Alfândega, pertencente ao sr. Coura Cavalcanti; na praça Deodoro; nos cafés e nos caldos de cana reuniam-se, para um dedo de prosa, grupos de amigos e conhecidos.

Depois, à noite, descansando em cadeiras de balanço ou em “preguiçosas”, conversavam homens e senhoras nas portas das residências, falando “na crise”, “na falta de empregadas domésticas”, “nas eleições que se avizinhavam”, e, principalmente, “na carestia da vida”. Poderão não! Se os gêneros estavam pela hora da morte: “a curimã a oitocentos réis o quilo”; “a dúzia de ovos por um cruzado”; “a manteiga Lepeletier a mil e duzentos a lata”… Não se falava ainda em “tubarões”, sendo a Polícia a única culpada da exploração — opinavam todos — pois não tomava as providências necessárias. Polícia, em Maceió, no Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1908!…

Porto e canal da Levada no início do século XX em Maceió

Porto e canal da Levada no início do século XX em Maceió

Fecho os olhos e julgo estar vendo a cidade que o sr. Álvaro Flores, num artigo publicado no “Correio da Tarde“, pasquim do Costa Bivar, alcunhou de “terra de seu Chico“; os sórdidos biombos da Madalena, na rua Vieira Perdigão; ruas com nomes doces, suaves, uns; inexpressivos outros; pitorescos muitos deles ou inconvenientes: da Alegria, do Cravo, do Verde, da Bela Aurora, da Boa Esperança, do Encanto, das Sete Facadas, do Cheiro, da Bela Vista, da Primavera, do Feliz Deserto, do Paraíso dos Homens, dos Tabaqueiros, do Pescoço do Ganso, dos Sete Coqueiros; do Alto do Céu e Alto da Saudade; praça das Maravilhas; ladeira do Comandante; beco do Cavalo Morto, dos Fogueteiros, do Leite, do Cabelo de Milho, dos Cachorros, da Bahiana; lembro, numa suave evocação, o carteiro, o distribuidor de jornais, o leiteiro, o estafeta dos Telégrafos, o lixeiro, na proximidade do Natal, com os inevitáveis pedidos de “festas”, geralmente em cartões de visita com versos mal impressos e de pé quebrado:

Felicidades no Natal,
Eu vos desejo, leitor,
Com puro amor fraternal,
Na paz de Nosso Senhor!

Com grande, imensa alegria,
Do fundo do coração,
Espero de Vossa Senhoria
Uma simples recordação!

Camarote para assistir uma regata na Praia da Pajuçara em Maceió

Camarote para assistir uma regata na Praia da Pajuçara em Maceió. Foto de Luiz Lavenère

Maceió dos sermões quaresmais pregados por João Machado de Melo, cônego honorário da Sé de Olinda, afamado orador sacro, conhecedor profundo da língua portuguesa e melhor narrador de saborosíssimas anedotas, ainda hoje lembradas pelas suas antigas alunas na Escola Normal, e cujos repentes faziam todos rir; do Zé Maria dos balões, antigo Inspetor de quarteirão encarregado de “recrutar”, além de Voluntários da Pátria, meninos para as Companhias de Aprendizes de Marinheiros, em 1865, durante a guerra contra Solano Lopez; das procissões e santas missões organizadas e pregadas por Frei Eduardo José Erberhol, O F.M., franciscano alemão, eleito, anos depois, Bispo de Ilhéus, Bahia, onde morreu; dos suntuosos bailes e das famosas festas na residência do sr. Francisco Teles Júnior, despachante federal, que terminou os seus dias melancolicamente, numa pobreza franciscana, dando “facadas” nos amigos e nos conhecidos.

Maceió do relógio Oficial, onde os faladores se reuniam, dia e noite, para a sessão permanente do DIVA (Departamento de Investigação da Vida Alheia); do primeiro automóvel de aluguel, pintado de vermelho, pertencente ao Manoel Estevão, rico banqueiro de bicho; dos carros de bois carregados de pedra, de madeira, de cal, de sacos de açúcar bruto, “chiando”, desesperadamente, pela Estrada Nova, pela Estrada do Poço, pela rua da Alfândega; de Sinhá Rufina vendendo angu, cuscuz e tapioca no beco das Pedras; da música do Batalhão de Polícia do Estado tocando o dobrado “O Combatente“, na retreta da praça dos Martírios, em frente ao Palácio do Governo, sob a direção do maestro Benedito Silva, Benedito Piston, como era conhecido, autor da música do hino de Alagoas; dos incríveis dramalhões, tipo capa-e-espada, encenados no velho Teatro Maceioense, — depois transformado no Cinema Delícia — pelos amadores da Sociedade Dramática Corrêa Vasques; Antonico Lopes, João Pereira Brandão e Quintina Silva à frente; de Sinhá Maria tabelinha, percorrendo as casas dos conhecidos, dando seus palpites infalíveis para ganhar no jogo do bicho; das emboladas do Chico Barbeiro (Francisco da Cunha Lima), — tipo popular, espirituoso, alegre e estimadíssimo, ainda hoje lembrado com saudade — emboladas que eram cantadas nos bondes, nos “cocos”, nas casas das melhores famílias, durante os festejos natalinos:

Rego da Mata, Fernão Velho, Carrapato,
Santa Cruz, Engenho Gato, Burarema, Conceição,
Ponta Grossa, São Miguel, Paripueira,
No engenho das Flexeiras “seu” Aguiar é bichão!

Quero lembrar inconfundíveis tipos populares que a cidade esqueceu: Braz Próspero Jeovah da Silva Coroatá, — subcomissário de Polícia de Jacutinga, autoridade severa e respeitada, que promoveu o casamento de muito cabrocha metido a conquistador e figurou num tango-canção de autoria do saudoso musicista Manoel Eustáquio:

Lá vem o Braz,
dobrando a esquina,
com uma menina,
para casar…;

a Babaré, negra velha, africana legítima, com suas enormes panelas de barro, com apimentado caruru e vatapá, que ela mesma vendia no portão de ferro da The Great Western of Brasil Railway Co.; o dr. Grangeiro, lente do Liceu Alagoano, noivo perpétuo, notado à distância devido à sua inconfundível “bacurinha” cor de cinza; o “doutor” José Lucas, débil mental, muito calmo, falando baixo, com os bolsos cheios de bilhetes brancos da Loteria Federal, receitando, “gratuitamente”, chá de capim santo para todos os males, da gripe à dor de barriga, da bronquite ao câncer; o velho Manoel de Almeida Japiassu, conduzindo debaixo do braço um “big-stick” e falando, a propósito de tudo e sem propósito algum, “em Deus, dr. Euclides Malta e minha filha Manieta”; o João Prisco do Rego, funcionário do Ministério da Viação, magro como um palito, distribuindo telegramas; o Lúcio Suteriano, veterano do Paraguai, bêbedo como uma cabra, chamando todo mundo de ladrão, dando morras à República e vivas ao Imperador Pedro II e à Monarquia; Chico Foguinho, Tia Marcelina e Manoel Inglês, nos seus terreiros, com filhos e filhas de santo, dançando xangô a noite inteira e incomodando os vizinhos com a infernal barulhada…

Essa a cidade que já não existe. Sobre a velha urbe, avalanche enormíssima, desabaram, de repente, os novos costumes, o modernismo, a civilização e o progresso. Ao relembrá-la, comovido, escrevendo estas linhas despretensiosas de papa-sururu legítimo, noto que de meus olhos, cansados de quarenta anos de labor, caem lágrimas e sinto que de amargura e de tristeza me está cheio o coração.

Alto do Jacutinga, Maceió, Natal de 1955.

(Publicado no livro Festejos Populares em Maceió de Outrora, editado pela Associação Atlética Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 1956).

2 Comments on Evocação de Félix Lima Júnior

  1. Ronnie Christian // 12 de setembro de 2015 em 19:17 //

    Só tenho a agradecer a vocês por tanta informação das Alagoas.

  2. Edson Bezerra // 12 de maio de 2019 em 13:47 //

    …..que deslumbrante…

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