Edécio Lopes e as Manhãs Brasileiras

Edécio Lopes

Casamento de Edécio Lopes com Olindina Rodrigues Lopes em 8 de dezembro, Limoeiro, Pernambuco

Edécio Lopes Vasconcelos nasceu no dia 1º de setembro de 1933, em Apoti, município de Glória do Goitá, Pernambuco. Era o filho mais velho de Severino Lopes e Almira de Melo Lopes.

Sua família era pobre e ele chegou a trabalhar, quando criança, como “moleque de recados, de pequenas compras”. De tanto ouvir e falar sobre os programas de rádio que ouvia nas casas da vizinhança foi apelidado de “Rádio Clube”.

Ainda jovem, gostava de ouvir serenatas e de cantar pelo meio da rua as famosas músicas de Orlando Silva, sempre acompanhado pelos violões de Biúca ou Eduardo.

Sempre gostou de livros, mas mal conseguiu terminar o curso primário, onde sempre se destacou por suas notas altas. Já morando em Recife, no bairro de Tejipió, tentou fazer o Exame de Admissão, exigido para ter acesso ao curso colegial, mas não teve condições por trabalhar como cobrador de ônibus.

Foi ainda garçom, limpou telhados, varreu quintais, operário numa fábrica de café moído em Feira Nova e até professor num sítio das proximidades. Como a Prefeitura não pagava os salários de ninguém, começou a ter dificuldades para se alimentar, chegando a cair de fome em plena feira da cidade. Foi quando resolveu tentar outra vida em Limoeiro, distante apenas 13 quilômetros da então vila de Feira Nova.

Ingressando no Rádio

Edécio Lopes como locutor de ato político em Caruaru no início dos anos 60

Sabendo que a Rádio Difusora de Limoeiro estava contratando atores para montar sua equipe de radioteatro, pegou carona no primeiro caminhão que encontrou e foi fazer o teste. Leu uma radiofonização de Brasil Caboclo de Zé da Luz e foi aprovado, passando a receber um ordenado de 600 cruzeiros.

Mas o destino o queria como locutor e pregou-lhe uma peça. Como havia desorganização na Rádio, que vivia seus primeiros dias no ar, certo dia na hora de reiniciar o segundo período de transmissões, das 17h às 21h — o primeiro tinha sido das 9h às 13h — não havia locutor na estação. Entregaram uma pasta com vários textos ao jovem radioator e o jogaram no ar. Era o dia 3 de novembro de 1952, seu primeiro dia como locutor.

Mesmo promovido a locutor, continuava a ter uma vida miserável. Seu ordenado mal dava para se alimentar. Dormia numa estrebaria e só tinha uma roupa, que lavava antes de dormir. O salário melhorou um pouco quando o discotecário da Rádio teve que sair inesperadamente da cidade por questões políticas e esta tarefa também foi repassada para Edécio Lopes, que passou a receber mil cruzeiros de ordenado por acumulo de função.

O segundo aumento de salário também foi provocado por questões políticas. Mas desta feita o envolvido foi o próprio Edécio. Por ter lido ao microfone uma nota contra o governador Etelvino Lins, foi preso. Como a divulgação tinha sido autorizada pelo dono da rádio, coronel Chico Heráclio, foi premiado com a direção artística da emissora e um ordenado de três mil cruzeiros.

Nesta rádio apresentou ainda programas de auditório, onde também cantava.

Com mais experiência, transferiu-se para a Rádio Difusora de Caruaru, onde permaneceu por pouco tempo, sendo contratado pela PRA-8, Rádio Clube de Pernambuco, para atuar nos departamentos de esportes e notícias.

Em sua trajetória no rádio pernambucano, Edécio trabalhou nos seguintes meios de comunicação: Rádio Difusora de Limoeiro, Rádio Clube de Pernambuco, Rádio Jornal do Comércio, Rádio Tamandaré, Rádio Planalto de Carpina, Rádio Difusora de Caruaru e Radio Liberdade de Caruaru.

Em Alagoas

Edécio Lopes fez história em Alagoas

Edécio Lopes fez história em Alagoas

Contratado para trabalhar na Rádio Difusora de Alagoas, chegou em Maceió no trágico dia do tiroteio na Assembleia Legislativa, 13 de setembro de 1957. Ele descreveu assim aquele momento: “Meia hora depois de chegar, ouvi um barulho diferente. Perguntei a minha Tia Olímpia, que residia na rua do Macena, o que é que estava havendo e ela, com a maior tranquilidade respondeu que eram metralhadoras na Assembleia. O que me assombrou não foi o fato de serem metralhadoras, mas a tranquilidade como me foi dito”.

Com a crise política instalada e a Rádio Difusora sem pagar seus salários, voltou para Limoeiro, onde casou, no dia 8 de dezembro daquele ano, com Olindina Rodrigues Lopes. Tiveram quatro filhos, Ednéia, Edmilson, Edvaldo e Ednaldo. Trabalhou esse período como locutor de um serviço de alto-falantes.

Em setembro de 1958 estava de volta a Maceió. Atendendo ao convite de Castro Filho e Sizenando Nabuco, foi contratado para ser o gerente de operações da Rádio Progresso de Alagoas, que havia sido inaugurada em 15 de janeiro de 1958. A rádio era do deputado federal Ary Pitombo.

Pouco tempo depois foi contratado pela novamente pela Rádio Difusora de Alagoas, onde permaneceu por dois anos, ganhando sete mil cruzeiros por mês, além de um emprego no Tribunal de Contas. Edécio revela as razões que o levaram a deixar a Difusora: “Ganhei, além desse emprego e das boas amizades, por culpa do atraso nos vencimentos da Emissora, uma mancha no pulmão, uma fraqueza daquelas e tive que ir embora de Maceió”.

Para recuperar a saúde foi para Carpina, Pernambuco, cidade escolhida por ter clima agradável. Lá trabalhou durante dois anos na Rádio Planalto, uma emissora católica.

Edécio Lopes foi levado para a Rádio Gazeta pelo senador Arnon de Mello

Com a saúde em dia, foi para Caruaru, ingressando na Rádio Cultura do Nordeste, onde começou a fazer crônica política. Ainda em Caruaru, em meados dos anos de 1960 montou a Rádio Liberdade. Um ano depois foi contratado pelas Emissoras Associadas pensando que iria para o Recife. Voltou a Maceió e novamente para a Rádio Progresso.

Após sete meses na Progresso, foi contratado pela Organização Arnon de Mello, passando a atuar na Rádio Gazeta de Alagoas, onde escreveu as páginas mais importante de sua história no rádio alagoano.

Em Alagoas, atuou na Rádio Difusora de Alagoas, Rádio Progresso de Alagoas, Rádio Palmares de Alagoas, Rádio Gazeta de Alagoas AM, Rádio Gazeta FM, Rádio Jornal de Hoje FM, Rádio Manguaba AM e Radio Educativa FM. Foi diretor da TV Gazeta de Alagoas e da Gazeta FM.

Manhãs Brasileiras

Ainda estava na Rádio Liberdade de Caruaru, quando criou o programa Manhãs Brasileiras, que foi ao ar pela primeira vez no dia 12 de outubro de 1965.

É considerado como o programa diário com mais tempo de execução do rádio brasileiro. Foram 43 anos e aproximadamente 12.300 audições em várias estações, sempre com um único apresentador: Edécio Lopes.

Edécio Lopes em seu Manhãs Brasileiras. Foto de Plínio Nicácio

Em Alagoas, o Manhãs Brasileiras fez história. Durante décadas, a voz inconfundível de Edécio Lopes entrava nas casas no início da manhã e anunciava:

“Muito bom dia senhoras e senhores, estamos começando mais uma edição do programa Manhãs Brasileiras…”.

A trilha sonora era a música “Brasil”, de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, de 1939, com a voz de Francisco Alves e Dalva de Oliveira.

Manhãs Brasileiras, sempre executando músicas de boa qualidade, teve sua importância também por transmitir pelos comentários sobre os diversos problemas do Estado de Alagoas. Suas entrevistas e debates com as autoridades da política e da economia alagoana faziam a cidade parar.

Outra característica levou o programa a ser referência política em Alagoas foi a  postura democrática do seu apresentador, abrindo espaços para todas as lideranças da sociedade.

Durante a Ditadura Militar, mesmo tendo suas opções políticas e trabalhando em emissoras cujos proprietários apoiavam o governo, corajosamente deu voz às forças políticas oposicionistas.

Os últimos momentos do programa aconteceram nas emissoras do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP), instituição do governo estadual alagoano. O maior período foi na Rádio Educativa FM, onde foi apresentado até o dia 9 de abril de 2007, quando sua transmissão ao vivo foi interrompida por ordem da direção do IZP, nos primeiros meses do governo de Teotônio Vilela Filho. Ele estaria contrariando determinação superior que havia estabelecido que o  programa teria que ser gravado.

Filhos de Edécio Lopes: Ednaldo, Ednéia, , Edvaldo e Edmilson

Foi convencido a continuar com o Manhãs Brasileiras na Rádio Difusora. Aceitou a contragosto. Argumentava para os mais próximos que a Rádio FM permitia melhor qualidade musical.

Depois deste episódio deixava transparecer que era um homem triste, que esperava chegar ao final de sua trajetória de radialista sendo mais respeitado. Manhãs Brasileiras sobreviveu até o dia 13 de agosto de 2008, quando um AVC tirou os movimentos, calou a voz e fechou os olhos de Edécio Lopes. Permaneceu em coma até 21 de janeiro de 2009, quando definitivamente nos deixou.

 

Música

Edécio Lopes era apaixonado pela boa música e principalmente pelo frevo. No rádio, não perdia oportunidade para divulgar as músicas de carnaval. Não é exagero afirmar que o carnaval de Alagoas deve muito a ele.

Essa adoração pelo frevo o levou a compor músicas que fizeram muito sucesso em Alagoas. As mais conhecidas são: Cidade Sorriso, Marceió, Olha a Cara Dele, Galo da Pajuçara, Vou Sair do Mapa, Carnaval de Vitória, Toque de Reunir, Lembre de Mim, Assim se Passaram Dez Anos, Ói Nós Aqui de Novo, Princesa do Capibaribe, Despedida e Tão Bonzinho.

Também foi o idealizador e organizador de vários festivais e encontros musicais.

7 Comments on Edécio Lopes e as Manhãs Brasileiras

  1. Edson Newton Pimentel // 10 de junho de 2015 em 20:48 //

    Conheci Edécio Lopes já trabalhando na Radio Difusora de Limoeiro e acompanhei por muitos anos sua trajetória radialista. A Ultima vez que o vi foi na residência do amigo Zé Galego que é casado com Dainha que é irmã da esposa de Edécio. Resta agora a saudade deste grande radialista que rompeu fronteiras.

  2. Edvaldo Vasconcelos // 10 de junho de 2015 em 21:13 //

    Agradecemos a publicação de sua história de vida. Foi sempre um amante desta terra e é com muita honra que vemos o seu nome fazer parte da história das Alagoas.

  3. Foi um privilégio ter conhecido o caríssimo Edécio e com ele ter trabalhado na EMATUR, tornando-o um exponencial amigo. Sob a batuta de Caio Porto estávamos juntos com Edécio, Dydha e o Coronel Almeida.
    Bons e inesquecíveis tempos quando tive a honra maior de conviver com tão exponenciais amigos.

  4. Amigo, cunhado, irmão, muitas saudades.

  5. Pelópidas Argolo // 26 de junho de 2015 em 15:38 //

    Certa vez, tive o prazer de receber Edécio Lopes, em minha residência situada na Pça. Ciro Acioly, no bairro da Levada, por ocasião da exibição do Arraial dos Guaicurus, que participava de um campeonato de Arraial promovido pela Prefeitura de Maceió, no mês de Junho de 1975/76. Na ocasião ele estava na companhia de Fernando Collor, a quem ele me apresentou. Eu já o conhecia e o admirava, tanto pelo tipo educado de pessoa que era, como por seu talento como homem de rádio. Morreu quando ainda tinha muita coisa a produzir. Uma penas!

  6. Hiram Penaforte // 2 de setembro de 2016 em 00:19 //

    Sou fã de Edécio. Certa vez ele me fez um convite!. Disse que minha voz era perfeita para o rádio e sendo assim, “já estava na frente”!. Bom, como eu era muito novo, não levei muito a sério sua visão e não dei importância. Lembranças à parte, Edécio foi certamente uma das pessoas mais inteligentes que conheci. Fico feliz por sua história e seu legado estarem presentes na cultura alagoana e pernambucana.

  7. josé gomes de sá dezinho - TIDE // 6 de dezembro de 2016 em 11:06 //

    Fomos vizinhos na Rua da Aurora, em Limoeiro. Edécio foi um vencedor, merecendo tudo o que conquistou com o seu talento, a sua coragem, a sua simpatia. Além de locutor, destacou-se como apresentador de programas de auditório,

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