Edécio Lopes por ele mesmo

Edécio Lopes, Odete Pacheco e Nivaldo Valença

Casamento de Edécio Lopes e Olindina em 8 de dezembro de 1957

O texto abaixo, de Edécio Lopes, é um resumo autobiográfico escrito logo após ele ter ingressado na Rádio Gazeta de Alagoas. Vem a público agora com exclusividade no História de Alagoas por deferência dos seus familiares.

Edécio Lopes por ele mesmo*

Edécio Lopes

Dizem que eu nasci no dia primeiro de setembro de 1933. Eu, sinceramente, não recordo o fato. Mas sei que isso aconteceu na Vila Apotí, recanto modesto do modesto município da Glória do Goitá, no Estado de Pernambuco.

Lugar pequeno, minhas lembranças da vila são sempre mais voltadas para o espetáculo da natureza repetindo-se sempre. Nas cheias do “caboge” fazendo transbordar o açude, na serra que se ficava bem alvinha para anunciar chuva, nota maior da alegria de um povo que vivia, como ainda hoje vive da agricultura e da pecuária.

As noites de lua eram belíssimas. Recordo bem da areia fria das ruas que eu deixava escorrer entre os dedos.

Na época do natal, havia profusão de gitiranas e os ipês (pau-d’arcos) hoje tão famosos, ficavam roxos ou amarelos e eu tinha a impressão de que tudo aquilo era bem a propósito do nascimento do Menino Deus.

Fui, em criança, muito apegado a religião. Talvez até um pouco idólatra, pois, a grande imagem de Santo Antônio, santo padroeiro do lugar, me prendia em horas e horas de contemplação.

Gostava de ouvir serenatas e de, apesar de muito menino e dono de uma voz super estridente, cantar pelo meio da rua, acompanhado pelos violões de Biúca ou Eduardo.

E as músicas eram as grandes criações de Orlando Silva, como Sertanejo, Número Um e outras de que não me lembro mais. Talvez tenha nascido aí minha paixão quase doentia pela música brasileira e que considero como a maior expressão músico-sentimental do espírito de um povo.

Estudos

Edécio Lopes como locutor de ato político em Caruaru no início dos anos 60

Sempre tive vontade de ser “gente”, mas, ao que parece, não fui destinado para tal. Assim, vivi uma infância financeira e economicamente instável. Épocas de fartura, épocas de miséria completa. Tempos de almoçar peru, tempos de não almoçar coisa alguma.

Mas sempre apegado aos livros, fui primeiro lugar todos os anos que passei nas escolas primárias. Com a exceção do terceiro ano, quando fui “premiado” com um inesquecível 9, tirei sempre nota 10, como o serviço Atlantic.

E depois do quarto ano primário, tentei fazer o exame de admissão. Nesse tempo já residia no Recife, bairro de Tejipió.

Tive que parar tudo, para ser cobrador de ônibus e trabalhar no escritório da Empresa Santo Antão Ltda., uma das pioneiras dos transportes urbanos organizadas na capital pernambucana. (setor ônibus)

E fiquei só com o curso primário, por sinal, feito aos pedaços, com duas interrupções forçadas pelas mudanças de meu pai para um sítio onde havia uma escola, mas, cuja professora, não sabia soletrar “kiosque”. (Naquele tempo se escrevia assim)”.

Trabalho

Pra ganhar a vida levei uma vida de morte. Fui um bocado de “coisa ruim” neste mundo. Cobrador de ônibus, como já mencionei, garçom, num barzinho localizado na Rua Matias de Albuquerque, (fundos da Rua Nova), limpei telhados e varri enormes quintais (por sinal de umas senhoras alagoanas que me diziam ter nascido numa rua chamada Alegria, em Maceió e que naquele tempo eu não tinha a menor ideia de que um dia iria conhecê-la), empreguei-me numa fábrica de café moído, na então vila de Feira Nova, (hoje é cidade) e terminei um dia sendo chamado para professor num sítio das proximidades.

Algum tempo depois, estava na miséria total. A Prefeitura não pagava a ninguém. O governo federal DE ENTÃO, frise-se, para evitar complicações, também não ligava muito para as chamadas escolas supletivas e o pobre do professor improvisado foi improvisando uma vida meio “mixuruca”.

Um dia caí de fome nas ruas de Feira Nova. E com 160 cruzeiros no bolso resolvi mudar de vida, procurando a cidade de Limoeiro. Mas aí começa outra história que é a minha vida radiofônica.

Sonho de menino

Edécio Lopes e a equipe da Rádio Planalto em Carpina, Pernambuco

Lá em Tejipió, quando do surgir do Rádio Jornal do Comércio, por espírito tradicionalista tomei partido em favor da velha PRA-8, Rádio Clube de Pernambuco. E tanto, que ganhei o apelido de “Rádio Clube”.

Mas, eu não queria ser apenas ouvinte da PRA-8. Eu queria trabalhar na “pioneira”. Um dia, sem ninguém saber, cheguei sozinho ao velho edifício da Avenida Cruz Cabugá, naquele tempo casinha modesta mesmo e procurei Poliana, que era uma portuguesa muito simpática, diretora do Departamento de rádio teatro da estação.

Falei-me do meu desejo. Ela riu, passou a mão sobre meus cabelos (naquele tempo eu os tinha) e disse que, quando surgisse uma novela que precisasse de um garoto, eu seria chamado. Nunca fui.

No terraço da casa modesta em que morava, lá na Avenida da Liberdade, fazia programas de calouros com os meninos da vizinhança. Transmitia os jogos realizados com os nossos times de botão e, deixava qualquer festa, atração ou brinquedo para ouvir rádio, minha mania desde que me entendo de gente.

Recordo que a primeira coisa que perguntei diante do primeiro rádio que vi, isso em 1943, em plena guerra mundial, foi quem falava dentro do rádio.

Num clube diversional que inventaram na vila, eu, menino de calças curtas, fui destaque, nome de primeira grandeza, vivendo papéis os mais diferentes nos “dramas” ensaiados e representados sobre uns bancos de feira que eram agrupados para improvisar palcos.

Foi assim que sempre sonhei com essa vida que terminou sendo a minha própria vida e penso que quando tiver de me afastar de rádio estarei me afastando de mim mesmo.

O Ingresso

Edécio Lopes atuou em várias rádios pernambucanas

A Rádio Difusora de Limoeiro estava chamando candidatos para o seu “cast” de rádio teatro. Ouvi o chamado em Feira Nova. Peguei o caminhão dos ferreiros e mandei-me para a cidade Princesa do Capibaribe, distante apenas 13 quilômetros da então vila.

Fiz o teste, lendo uma radiofonização de Brasil Caboclo, de Zé da Luz, trabalho de Pinto Lopes. Fui aprovado. O ordenado era 600 cruzeiros. Isso, em 1952.

Sabem o que me aconteceu? A Rádio entrava no ar as 9 horas, saía a 13, voltava as 17 e saía as 21 horas. Era o começo do rádio no interior de Pernambuco. As 17 horas, daquele primeiro dia, quando o controlista ligou a mesa para reiniciar os trabalhos, não havia um só locutor na estação. Sacudiram-me diante da pasta de textos e eu fiz a minha fé.

Fiquei também como locutor. Mas era um inferno. Botavam-me para ler Jornal falado. Eu não sabia, (como ainda não sei) patavina de inglês. E o nome mais suave que saia era Eisenhower. Sem tarimba, sem vivência, mas também sem medo, fiz o que pude, enrolei como sabia e fui ficando.

Como não podia pagar hotel, dormia numa estrebaria, ao lado de cavalos. Era uma vida miserável mesmo. Só tinha uma roupa.

À noite, antes de dormir, eu a lavava e me envolvia nos cobertores velhos que me deram.

Imprevistos

Um dia, o discotecário da Rádio Difusora andou fazendo algumas coisas que não agradou a um grandão de Limoeiro e teve que sair inesperadamente da cidade.

Mandaram-me para discoteca. Eu não sabia patavina de discotecas. Nem era datilógrafo. Mas, “catando milho” bati todo o roteiro da programação, sem ninguém dar o menor palpite. Fui chamado de “gênio” e fiquei como discotecário e com o excelente ordenado de mil cruzeiros.

Luiz de Barros e Edécio Lopes, dois radialistas que fizeram história em Alagoas

Outro imprevisto viria me beneficiar. A Rádio ficou sem direção artística. E dois integrantes do “cast” ficaram à frente da programação até que fosse tomada uma decisão pela cúpula. Um desses elementos era o filho de Apotí e o outro, o Ary Rodrigues, que Alagoas também conhece.

Um dia, por ter lido ao microfone uma nota contra o Governo do Estado (Governo Etelvino Lins), por determinação pessoal do “poderoso” Coronel Chico Heráclio que era, entre outras coisas, o maior acionista da rádio, fui preso, escoltado pelas ruas, na maior exibição de idiotice que as vezes certas autoridades gostam de fazer. O certo seria prender o Coronel, mas, era mais fácil prender o locutor. Eu fui preso.

Quando me soltaram ganhei o cargo de Diretor Artístico e 3 mil cruzeiros de ordenado. Bendita prisão.

Vaias e ajudas

Para me apresentar, a título de teste, num programa de auditório, vesti um paletó emprestado. O dono do dito tinha os braços tão longos que foi preciso pregar alfinetes pregueando as mangas.

Se eu já era feio, mais feio fiquei. Fui recebido com uma vaia tão grande que ainda hoje os meus ouvidos me doem.

Mas, lá em Feira Nova, Severino Rocha, um amigo mesmo, ouviu o programa e não se conformando com aquela receptividade, foi até Limoeiro saber o porquê, soube e deu-me roupas, casa para morar e a ajuda que eu estava precisando numa cidade estranha.

Depois, tudo se foi aclarando. Vieram os imprevistos já narrados. Os cargos e depois a transferência para a Rádio Difusora de Caruaru onde pouco me demorei. Fui contratado, imaginem, pela PRA-8, RÁDIO CLUBE DE PERNAMBUCO.

Zé Faz Tudo

Naquele tempo já tocava todos os instrumentos. Com dificuldade, mas, tocava.

Fazia radioteatro, transmitia missa, programa de auditório, escrevia humorismo, programas românticos e terminei um dia cantando também. Mas só sabia cantar tango, baião e músicas do repertório de Carlos Galhardo. Era uma porcaria de cantor.

Um dia, cheio de vida, estava animando programa de auditório, ainda em Limoeiro, quando vi o dono da Empresa lá no auditório.

O Dr. F. Pessoa de Queirós, hoje Senador, é o que se pode chamar de homem exigente. Exageradamente exigente.

Depois do programa, ele me chamou à Direção Geral e disse que eu fazia duas coisas. Uma muito bem, outra desgraçadamente ruim.

Deveria deixar uma e ficar somente com a outra. Claro que pensei, afinal de contas, que eu deveria deixar de cantar. Mas foi o contrário. Dr. Pessoa disse que eu era o pior locutor do mundo. E vai ver que ele estava coberto de razão.

Mas, quando fui para o Rádio Clube de Pernambuco, fazia uma porção de coisas e transmitia futebol. Como eu gostava de transmitir esporte.

Durante um mês, havia emprestado a minha colaboração a equipe do Rádio Jornal do Comércio, ao lado do hoje saudoso Renato Silva.

Transmiti jogos como Náutico x Santos, Santa Cruz x S. Paulo, então acontecimentos extraordinários porque não existiam o intercambio que agora se verifica.

Na PRA-8, fui contratado para os departamentos de esportes e notícias.

Alagoas

Caravana da Alegria da Rádio Gazeta, uma das criações de Edécio Lopes

Quem me trouxe para Alagoas, a vez primeira, foi Florêncio Teixeira, então respondendo pela direção da Rádio Difusora de Alagoas.

Cheguei em Maceió num dia trágico: 13 de setembro de 1957. Quem pode esquecer esse dia? Aqui para nós. Colhi uma péssima impressão da “Terra dos Marechais”.

Meia hora depois de chegar, ouvi um barulho diferente. Perguntei a minha Tia Olímpia, que residia na rua do Macena, o que é que estava havendo e ela, com a maior tranquilidade respondeu que eram metralhadoras na Assembleia. O que me assombrou não foi o fato de serem metralhadoras, mas a tranquilidade como me foi dito.

Nada deu certo por aqui. Somente 3 dias depois de chegar é que me deixaram entrar na Rádio. Estava interditada, fora do ar, abandonada.

Enquanto a política ia e vinha no Estado, as ondas cresciam e a Emissora Oficial ficava aos trancos e barrancos, coitada.

Sofri na própria pele todos esses problemas.

Não obstante, tinha casamento marcado para o dia 8 de dezembro daquele ano. E, corajosamente, casei. Mas, fiquei só com a mulher e a coragem. O ordenado da rádio não saía e eu saí da rádio.

Fui de volta a Limoeiro e sabe Deus com que tristeza interrompi a carreira. Fiquei trabalhando num serviço de alto-falantes.

Depois de 9 meses, voltei a Maceió, desta feita a convite de Castro Filho e Sizenando Nabuco para organizar a Rádio Progresso de Alagoas.

Ali tive a sorte de descobrir Floracy Cavalcante, Wagner Novais, Eraldo Bulhões e outros.

Mas, terminei voltando para a Rádio Difusora de Alagoas. Passei dois anos por ali, numa luta que dá pena de lembrar. Mas, foi um tempo bom, aquele. Boas amizades foram feitas.

Ganhava 7 mil cruzeiros por mês. Consegui um emprego no Tribunal de Contas mas não dava conta do emprego.

Ganhei, além desse emprego e das boas amizades, por culpa do atraso nos vencimentos da Emissora, uma mancha no pulmão, uma fraqueza daquelas e tive que ir embora de Maceió.

Pela terceira vez

Edécio Lopes foi levado para a Rádio Gazeta pelo senador Arnon de Mello

Fui para Carpina. Cidade de clima delicioso. Trabalhei na Rádio Planalto, uma Emissora católica muito bem arranjadinha, com uma programação que faz gosto de ouvir. Ali, em dois anos, recuperei a saúde e parti de volta para Caruaru, ingressando na Rádio Cultura do Nordeste.

A influência da capital do agreste em minha vida é extraordinária. Ali, escrevi meus melhores programas. Fiz minhas melhores transmissões externas. Desde procissão de Nossa Senhora das Dores, padroeira da cidade, até desfile de 7 de setembro, ou enterro de gente famosa e querida. Transmiti tudo.

Fiz crônica política e com tal veemência que um dia um deputado federal foi de Brasília a Caruaru só para me dar uma resposta que terminou não convencendo ninguém.

Organizei uma nova estação de rádio: a Rádio Liberdade de Caruaru. Um ano depois, era contratado pelas Emissoras Associadas pensando que iria parar no Recife.

Voltei para Maceió e novamente Rádio Progresso.

Sinceramente, se me fosse dado escolher, naquela época, entre vir para Maceió ou ir para qualquer outra parte do país, aceitaria até mesmo Corumbá. Tinha desagradáveis lembranças de Maceió, no que tange a vencimentos em estação de rádio.

Hoje, seria diferente. Nada me faz deixar Alagoas, pois, a visão que o Estado me ofereceu, em todos os sentidos, é bem diferente daquela outra.

Sete meses depois da Progresso, passei-me de armas e bagagens para a Organização Arnon de Mello. Não sei se a Organização está satisfeita comigo. Eu, porém, sinto-me realizado, depois de tanta luta, tanto corre-corre, chegando a Diretor Artístico da maior Emissora do Estado e, para minha felicidade, desfrutando de um círculo de amizades que as vezes me surpreende.

Outros detalhes

Aspiração outra não tenho na vida senão criar os meus quatro filhos: Edméia, Edmilson, Edvaldo e Ednaldo. Por sinal, Edmílson é alagoano.

Como não me foi possível estudar darei o melhor de meus esforços para que os meninos sejam alguma coisa na vida. Por sinal, corujamente eu afirmo que todos eles são muito inteligentes: fazem palavras cruzadas, matam as charadas do Nivaldo Valença, gostam de Chico Buarque de Holanda e Luiz Gonzaga.

Morrendo agora já vou parcialmente feliz.

Preferência musical

Há momentos em que a gente encontra felicidade ouvindo Chopin. Mas há instantes em que Vassourinhas soa melhor.

Em termo de preferências musicais só não gosto de yê-yê-yê, nem tanto pela música, mas, pelos interpretes que quase sempre são ruins de fazer pena.

Mas, se é para escolher um gênero, fico com a música popular brasileira tradicional, incluindo o baião, mas este, com Luiz Gonzaga.

Entre os compositores brasileiros, faria uma pequena seleção dos melhores incluindo o próprio Luiz Gonzaga, Ataulfo Alves, Chico Buarque de Holanda, Sergio Bitencourt, Silvino Neto.

Adoro ouvir bandolim bem executado.

O vulto brasileiro que mais me impressionou até hoje foi o de D. Pedro II. Talvez, principalmente, pela injustiça de que foi vítima entre nós.

No plano internacional, John Kennedy, indiscutivelmente.

*Título da Editoria.

3 Comments on Edécio Lopes por ele mesmo

  1. Ednaldo Costa // 25 de setembro de 2017 em 18:52 //

    Grande Edécio Lopes, saudades!!! O Mais completo Radialista , foi ele quem trouxe o meu saudoso irmão Arnaldo Costa para Alagoas!

  2. Jerry Carlos // 25 de setembro de 2017 em 20:54 //

    Nessa autobiografia Edecio Lopes transmite aquilo que realmente ele era, simples, dedicado e lutador, além de objetivo nas suas buscas pra alcançar o que idealizara quando ainda jovem no interior de Pernambuco. As barreiras do destino que ultrapassou era pra qualquer outra pessoa desistir logo no segundo ou terceiro entrave, superando doenças, falta de emprego e de salário, mas acredito que sua fé tenha contribuído na sua realização profissional. Fica aqui Edecio meu abraço e saudosas lembranças que apesar de tê-lo conhecido tão pouco e já no final da vida, ficou algo que não sei explicar, como se já o tivesse conhecido por anos e anos. Valeu demais Edecio Lopes. Fica com Deus.

  3. Uma das boas memórias que tenho de minha já falecida mãe é e de lembra-me dela ouvindo em seu rádio o famoso programa Manhãs Brasileiras com Edécio Lopes todos os dias.

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