Donizetti Calheiros e o jornalismo panfletário dos anos 40 e 50 em Alagoas

Jornalista Donizetti Calheiros

Donizetti Calheiros perdeu uma perna em um acidente quando ainda era criança

Professor particular de português e funcionário público municipal, Donizetti Calheiros carregou por toda a vida a marca de um acidente que o fez perder uma das pernas quando ainda criança, além do trauma de ficar sem o pai e mãe muito cedo. A fratura exposta provocada por uma queda e a falta de penicilina na época, provocou a amputação. Era neto do também professor Agnelo Barbosa.

Arnoldo Jambo, um dos seus amigos mais próximo, descreveu sua infância como a de uma criança que cansou os parentes que ajudavam a criá-lo. O próprio Donizetti dizia que nenhum menino do seu tempo foi mais sensível, vivaz, inteligente; nem por isso, acima dele, houve alguém mais infeliz. De espírito cáustico, conseguia ser alegre quando entre os poucos amigos.

“Escrevia muito bem e fazia versos da melhor categoria bocageana. Sonetos perfeitíssimos. Líricos, burlescos, eróticos. Obedecia com paixão a gramática e as regras de metrificação. Tinha um humor, um senso de ridículo tão ferino e gozativo que nenhum auditório lhe resistia sem rir aos seus achados em torno da tolice humana”, recordou Arnoldo Jambo em um escrito após a sua morte.

Sem maiores pretensões políticas, iniciou sua atuação no jornalismo panfletário quando foi convidado para escrever no recém fundado Diário do Povo, um jornal assumidamente defensor do pensamento da UDN em Alagoas.

O jornal entrou em funcionamento no dia 7 de novembro de 1945. Seus jornalista e dirigentes eram políticos atuantes na oposição ao governador Silvestre Péricles. Dirigido pelo deputado federal Rui Palmeira e pelo deputado estadual Lourival de Mello Motta, tinha como redator-chefe o também deputado estadual Segismundo Andrade. Na redação atuavam Otávio Lima, Aurélio Viana, Carlos Gomes de Barros, Lincoln Cavalcante, Zadir Cassela, Genésio de Carvalho e Mello Motta.

Arnoldo Jambo, Silvestre Péricles e Deraldo Campos

Arnoldo Jambo avalia que Donizetti foi levado pelos amigos políticos a ser um dos nomes mais comentados do jornalismo alagoano naquele período. “Manobrado habilmente pelos interesses de uns e pusilanimidade de outros passou a desferir a torto e a direito o malho de sua pena. Intentaram mudá-lo numa espécie de mastim de grupo partidário”, disse seu amigo jornalista.

Os aplausos das ruas o levaram a assumir chefia de redação do Diário do Povo. Era uma espécie de herói panfletário e destemido. Seus artigos eram bem escritos e demolidores. “Repercutiam como se exigissem dose sempre mais destruidora para o dia seguinte”, lembrou Jambo.

Espancado violentamente

Após receber várias ameaças por seus escritos, Donizetti Calheiros é preso na tarde do domingo, 18 de maio de 1947. Dias antes tinha publicado o artigo A verdade é mentira,  denunciado o cerco da Assembleia Legislativa de Alagoas por soldados de polícia munidos de fuzis e armas automáticas. A ação policial aconteceu no dia 10 de maio, quando ocorria uma sessão, fato negado pelo governador. Isso ocorreu após a prisão de comunistas e o fechamento do jornal A Voz do Povo.

Em depoimento prestado ainda na segunda-feira, 19 de maio, e publicado no jornal Diário do Povo, o jornalista narra detalhadamente como se deu a sua detenção e tortura: “Domingo, cerca de cinco e meia da tarde, fui convidado por um investigador a comparecer à Delegacia de Polícia. O primeiro delegado de polícia da capital desejava falar-me. Chegando a Delegacia fui logo posto no xadrez e lá permaneci até cerca da meia-noite”.

Rui Palmeira e Freitas Cavalcante

Em seguida, Donizetti descreve que foi retirado da Delegacia pelo próprio delegado e conduzido a um automóvel. “Fui introduzido no referido veículo, podendo distinguir nele o conhecido criminoso Crescencio, que assassinou o investigador Barbosa; o chefe das investigações e capturas, Erasmo Rocha, e um chauffeur”.

Vendado, foi levado para local desconhecido. Durante o trajeto, mais um indivíduo entra no carro. Após vinte ou trinta minutos chegam ao lugar desejado pela polícia e começa o interrogatório que é concluído com a pergunta: “O senhor sabe que vai apanhar?”.

“Depois disso, começou a agressão, que dispensa adjetivos, até quando eu, urrando como um desesperado, fiquei sem ânimo, sem forças. O instrumento usado para meu espancamento deveria ter sido o cassetete de madeira ou borracha”, disse o jornalista.

Reconduzido à delegacia, novamente de olhos vendados, foi ameaçado de morte se revelasse publicamente as torturas sofridas. No final da madrugada foi levado de volta a sua residência com a recomendação que deveria parar de escrever em qualquer jornal. Donizetti, acompanhados de amigos saiu imediatamente de Alagoas, procurando proteção no Rio de Janeiro, onde denunciou os abusos.

“Confesso que estou verdadeiramente aturdido. Sou um homem que perdeu a iniciativa para pensar sobre o que devo fazer. Desde ontem vejo o mundo muito pequeno para mim. O momento de tortura por que passei deixara-me quase sem ânimo. Tenho a impressão de que até o ar que respiro está contaminado pela influência dos algozes a que estão entregues os destinos de Alagoas”, concluiu o jornalista agredido.

Em 1950, Donizetti Calheiros escrevia para a Revista infantil SESINHO no Rio de Janeiro

No dia 21 de maio, em resposta à denúncia de Donizetti Calheiros, o secretário do Interior, Educação e Saúde do governo de Silvestre Péricles, Alfredo Uchoa, reagiu e deixou claro que o espancamento do jornalista era um recado ao jornal oposicionista: “O governo está disposto a aceitar a censura e a análise de todos os seus atos, dentro dos princípios do direito e da razão. Uma opinião bem ordenada é digna de acatamento, mas uma opinião sistemática, desarrazoada e mentirosa, não pode ter apoio na opinião pública e no consenso dos homens de bem”.

E continuou: “É bem conhecida do povo alagoano a tolerância com que vai sendo dirigida a nossa terra e, por ser demais a tolerância, é que surgem jornalistas e redatores desabusados com o único fito de perturbar a ordem pública, quiçá a administração do atual governo. Cheio de empreendimentos e problemas que urgem soluções, o chefe do Executivo não pode distrair-se com pilhérias jornalísticas, merecedoras só do desprezo e mais nada”.

Concluiu o secretário afirmando que a Secretaria do Interior resolveu advertir o jornal Diário do Povo que “não consentirá, dora em diante, sem a devida repressão, os insultos, calúnias e injúrias contra as altas autoridades do Estado, jogadas por indivíduos completamente alheios as noções de dignidade moral”.

Antes mesmo desta ameaça chegar a público, o prometido pelo secretário já estava sendo cumprido. No dia 20 de maio, às 10h30, um investigador de polícia entra no jornal e diz ao secretário de redação, jornalista Haroldo Miranda, que o secretário do Interior mandará buscá-lo para uma “palestra”.

Após receber orientação dos seus diretores, Haroldo Miranda foi até a Secretaria onde ouviu graves ameaças do próprio secretário Alfredo Uchôa, que iam desde o empastelamento do jornal às agressões ou espancamentos em horas remotas.

O Haroldo informou que o Diário do Povo tinha como diretores os deputados Rui Palmeira e Melo Motta, e que eles assumiam a responsabilidade pelas matérias publicadas. O secretário reagiu: — “Não me interessa essa parte. Diga, seja lá a quem for, que não admitirei mais uma linha que fira o governo. Se insistirem, quem for encontrado na redação pagará pelo desaforo”.

No dia 24 de maio, é a vez do governador Silvestre Péricles contra-atacar fazendo publicar no jornal A Notícia as seguintes declarações: “Os udeno-comunistas têm explorado, como de seu hábito, o fato banal, que de vez em quando acontece em suas hostes. Um tarado que acode pelo nome de Donizetti Calheiros, naturalmente por suas bebedeiras, entrou em conflito com seus apaniguados, que lhe deram, conforme me informaram, umas pancadas nas nádegas, que é lugar onde devem apanhar as crianças”.

E continua: “Isso parece até uma gentileza que fizeram com o referido tarado. Ao que fui informado, esse cidadão vem de uma origem de criminosos: seu bisavô matou a esposa e o próprio filho e parece que morreu a cadeia cumprindo sentença e o pai do referido Donizetti era bêbado habitual. Trata-se de um indivíduo asqueroso, difamador de famílias, adepto do comunismo aqui. Alcoólatra, intrigante, em suma, perfeito patife pernicioso à sociedade”. Silvestre ainda relaciona diversos fatos violentos da história de Alagoas para atingir aos seus oposicionistas.

Esse mesmo depoimento foi enviado para líder da bancada pessedista de Alagoas, padre e deputado federal Medeiros Neto, para ser lido na tribuna da Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro. Medeiros Neto recusou-se a lê-lo, mesmo recebendo a solicitação do governador.

Solidariedade

A agressão ao jornalista repercutiu em todo o país. O deputado federal Rui Palmeira foi à tribuna da Câmara e denunciou a violência e a intimidação imposta por Silvestre Péricles aos seus adversários em Alagoas. Carlos Lacerda, líder nacional da UDN, reagiu escrevendo um longo texto no Correio da Manhã do dia 23 de maio, referindo-se ao governador como “O doidinho de Maceió”. O alvo, além de Silvestre, era seu irmão o general Pedro Aurélio de Góis Monteiro.

No dia 14 de junho foi a vez da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) prestar homenagens ao jornalista agredido. O ato ocorreu em sua sede no Rio de Janeiro. Entre os oradores, estava a nata do udenismo alagoano: Rui Palmeira, Melo Motta, José Maria Crispim, professor Quintella Cavalcanti, Castro Azevedo e os jornalistas Coreia de Oliveira e Arnon de Mello. Os outros oradores foram: Osório Borba, vereador carioca do PSB; jornalista Vitor, do Espírito Santo; e Astrogildo Pereira, da Associação Brasileira de Escritores.

Neste mesmo período, Donizetti Calheiros enfrentava um processo de demissão na Prefeitura de Maceió. Era mais uma retaliação por sua militância nos jornais.

Repercussões

A agressão sofrida pelo jornalista da UDN alagoana causou sérios danos à imagem de Silvestre, que já não era das melhores. Em agosto de 1947, o governador foi eleito para a Academia Alagoana de Letras por ser autor do livro de versos intitulado No tempo das rimas. Um jornal humorístico do Rio de Janeiro escreveu o seguinte sobre o fato. “O Péricles teve a honra de ter sido eleito ao seu último poema vegetal escrito nas costas do jornalista Donizetti Calheiros: — Na minha terra canta o pau!”.

As ameaças ao jornal Diário do Povo foram cumpridas no dia 22 de dezembro de 1947, quando suas oficinas foram destruídas. Uma semana antes, o próprio jornal já divulgava que o governador selecionara uma tropa especial para esse fim.

Segundo apurou Luiz Nogueira de Barros, em seu livro A solidão dos espaços políticos, a invasão se deu à meia-noite e o grupo agressor portava armas e já se concentrara na Rua do Comércio desde às 11 horas da noite. Nas oficinas trabalhavam àquela hora somente os revisores e impressores. Lá estavam Edmundo Alves, Antenor Mendes de Araújo, José Barbosa da Fonseca, Leôncio de Carvalho, Zacarias Vanderlei, Vicente Ferreira, João Alves, Alvino Pininga e José Góis.

Alguns destes operários foram agredidos e forçados a ajudar na destruição dos equipamentos. Após o empastelamento, o Delegado de Ordem Política e Social esteve no local e ordenou que os presos fossem conduzidos à Penitenciária, onde foram ouvidos e liberados na manhã seguinte.

Melo Motta ainda fez uma tentativa de continuar imprimindo o jornal nas oficinas do Jornal de Alagoas, que não aceitou temendo sofrer as mesmas represálias que o Diário do Povo.

Candidato a deputado

Em 1950, quando morava no Rio de Janeiro e era redator da revista infantil carioca SESINHO, Donizetti Calheiros teve seu nome citado nos jornais como um eleitor que voltou a Maceió para participar das eleições em Alagoas votando contra Silvestre Péricles.

Motivado por amigos da UDN, candidata-se a deputado estadual nas eleições de 1954 e repete a candidatura em 1958, sendo derrotado nas duas eleições. Nas eleições de 1958, passou a ser perseguido pelo grupo ligado ao governador Muniz Falcão e teve a fachada da sua casa suja com excrementos.

Os munizistas não perdoavam a sua atuação no processo que tentou cassar o mandato do governador após o tiroteio do ano anterior. Na manhã do dia 14 de janeiro de 1958, Donizetti depôs como testemunha contra Muniz Falcão, atuando na acusação ao lado de José Maria Mello, Cícero Toledo, Teotônio Vilela, José Pereira Lúcio, Pedro Alves de Oliveira e Teobaldo Vasconcelos Barbosa.

O jornalista Edberto Ticianeli conheceu Donizetti Calheiros no início dos anos 60. “Eu trabalhava com meu pai em um pequeno alfarrábio que ficava no pé-de-escada do prédio que foi do Barão de Atalaia na Rua 2 de Dezembro, e o professor Donizettti dava aulas de português em uma das salas do primeiro andar. Diariamente acompanhava o seu esforço ao subir a escada do prédio. Era um sujeito caladão, sisudo”.

A pesquisa não consegui maiores informações sobre o início da vida de Donizetti Calheiros. Ele faleceu em Maceió no dia 9 de junho de 1974.

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