Dona Mocinha, a última mestra das Baianas da Barra de Santo Antônio

Dona Mocinha é patrimônio cultural da Barra de Santo Antônio
Dona Mocinha é também mestra na cozinha regional

Dona Mocinha é também mestra na cozinha regional

Poucas pessoas da Barra de Santo Antônio conhecem Maria José Oliveira da Rocha, mas se alguém citar Dona Mocinha o reconhecimento será imediato. Famosa por suas caranguejadas, peixadas e galinhadas, ela também é referência quando o assunto é Reisado.

Nasceu em Bananal, povoado do vizinho município de São Luiz do Quitunde. Com seis anos foi morar na Fazenda Riacho da Vara, propriedade de Nelson Tenório onde seu pai trabalhava. Com nove anos de idade perdeu a mãe e passou a ajudar os cinco irmãos. Ela revela que sua mãe colocou 19 crianças no mundo, mas somente seis sobreviveram, três mulheres e três homens.

Dona Mocinha emociona-se ao falar da sua juventude e lembra que seu pai não permitia que as filhas se divertissem e nem fossem para a escola. “A gente queria estudar, mas ele não deixava dizendo que só servia para aprender a escrever carta para os namorados”, recorda.

Ainda jovem, Dona Mocinha foi levada para Maceió onde foi morar na casa de um tio. Trabalhando como empregada doméstica, conheceu uma realidade diferente da imposta pelo pai. “Foi minha salvação. Hoje eu sei entender como é o mundo”, avalia.

Depois de algum tempo em Maceió, Dona Mocinha voltou a morar na Fazenda Riacho da Vara, mesmo contra a vontade do pai, que dizia que a sua volta era só para namorar. Convenceu o pai explicando que era só por algum tempo, para descansar.

Foi nesse descanso que conheceu o motorista do Engenho Coronha, José Sebastião da Rocha, que veio a ser seu marido. Por causa de acidente de trabalho com ele em 1973, foram morar na Vila Aratu, Ilha Croa na Barra de Santo Antônio.

Sem alfabetização, Dona Mocinha arranjava o sustento vendendo caranguejo e peixe seco, enquanto seu marido começava uma nova profissão trabalhando como ajudante de pedreiro até dominar o ofício e ser promovido a mestre de obra. A venda de caranguejo ela não deixou, mas ampliou os negócios e no alpendre dos fundos da casa colocou duas mesas onde serve refeições para quem encomenda.

Orgulhosa da sua freguesia, revela que já recebeu muita gente importante da política. “Quando eu completei 60 anos, esteve aqui o Jeferson Morais. Aquilo para mim foi um sonho”, lembra com entusiasmo.

Mestra das Baianas

Ilha da Croa na Barra de Santo Antônio

Ilha da Croa na Barra de Santo Antônio

Já depois de casada, Dona Mocinha foi convidada pela Dona Tiana, organizadora de um grupo de Baianas, para ser a Mestra. Seu marido não aprovou a ideia, mas também não impediu.

Não demorou e Dona Mocinha se revelou uma verdadeira mestra na arte do improviso. Nunca falhou quando foi convocada a criar alguma peça para o grupo. A primeira delas foi esta:

A Barra de Santo Antônio
É um pequeno lugar,
Mas tem umas lindas praias
Pro turista se banhar.
Mas tem umas lindas praias
Pro turista se banhar.

Responda meu “Baianá”
Quem tá rimando é Mocinha
Uso um chapéu de palhinha
Só boto pra “rebentar”.
Uso um chapéu de palhinha
Só boto pra “rebentar”.

 

As Baianas da Tiana logo fizeram sucesso e foram chamadas para várias apresentações fora do município. A Mestra Mocinha era o destaque. Ela recorda que em um determinado dia, algumas pessoas de fora estavam almoçando em sua casa quando souberam que a cozinheira era também a Mestra das Baianas e pediram para ela cantar uma peça.

Como um dos fregueses era de Marechal Deodoro e disse que daria uma ajuda a ela se fizesse o improviso, Dona Mocinha não vacilou e ganhou o dinheiro do desafiante:

Amanhã vou viajar
Pro estado de Alagoas
Eu vou andar de canoa
Na Terra dos Marechais.

Quando eu sair de lá
Vou fazer meu matrimônio
Em Barra de Santo Antônio
Aqui é meu natural.

 

Outro desafio que lhe foi feito, partiu de um rapaz que reclamava das ladeiras e da poeira na estrada do Passo de Camaragibe para a Barra de Santo Antônio, e dizia que era impossível se tirar uma peça de uma estrada tão ruim. Dona Mocinha aceitou a provocação e saiu-se com essa:

Quem vem do Passo pra cá
Rompendo lama e poeira
Quando cheguei na ladeira
Vi um carro buzinar.

Responda meu Bainá
Eu tiro verso e amarro
As baianinhas da Barra
Tá em primeiro lugar.

 

Em outra oportunidade, durante um ensaio do grupo, ela reclamou a Tiana que estava com fome e que ia improvisar uma peça pedindo café para ela e para as colegas. O desafio foi aceito e Dona Mocinha, notando que um bêbado acompanhava a conversa com cara de desconfiado, ganhou o lanche cantando assim:

Dona Tiana, dona de hotel,
Prepare o café pras suas Baianas.
Dona Tiana, dona de hotel,
Prepare o café pras suas Baianas.

Café com pão,
carne com banana,
Só dá desgosto
É pra quem toma cana.

 

O bêbado não gostou e sapecou de lá: — Fia da peste!

Dona Mocinha não perdia oportunidade para exercitar a sua arte de improvisar. Mesmo nas conversas com suas amigas ela encontrava uma forma de “tirar uma peça”. Uma destas amigas comentou que ela trabalhava na cozinha sem tirar os anéis dos dedos. A resposta veio em forma de verso:

Atirei minhas joias no mar
Vou usar meu anel de plaquê
Quem nunca viu venha ver
A mestra Mocinha rimar.

Outro mestre que chegar não vai entrar
Eu pra cantar e rimar tenho valor
O zabumbeiro este ano é do amor
As baianinhas está em primeiro lugar.

Mas nem tudo era alegria na vida da mestra das Baianas. As tarefas da casa e os compromissos religiosos impediam que ela participasse mais ativamente do grupo e das viagens, o que era cobrado pelas colegas que viam nela o destaque das apresentações.

Atendendo a pedido dos familiares resolveu sair do grupo e logo em seguida o próprio grupo deixou de existir por falta de uma mestra. Ainda hoje as amigas de Dona Mocinha sentem falta dos seus improvisos nas peças do “Baianá” da Barra de Santo Antônio.

As Baianas perderam sua mestra e deixaram de existir, mas sobrou para todos a oportunidade de saborear a melhor caranguejada do litoral norte e, de vez em quando, ouvir algum dos seus versos famosos.

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