Como o frevo chegou em Alagoas

Antigo carnaval de rua em Maceió

Moleque Namorador, o rei do passo de frevo em Alagoas por décadas

Em uma reportagem publicada na revista O Cruzeiro, de 11 de março de 1950, o jornalista José Leal, ao contar a história do frevo, inicia o texto com a seguinte citação: “É como diz o nosso prezado Lins do Rêgo: o frevo é tão do Recife que, em Maceió, no ano de 1929, ninguém sabia o que era isso”.

O repórter revela ainda que José Lins do Rêgo teria dito a um amigo antes do carnaval “que frevo só existe no Recife e nos desenhos de Augusto Rodrigues, e confessou que ele próprio com Valdemar Cavalcanti e o Major Bonifácio foram os introdutores da dança pernambucana no carnaval de Alagoas mas ‘sem sucesso algum’”.

O escritor paraibano morou em Maceió entre 1926 e 1935 e conviveu com Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge de Lima, Aurélio Buarque de Holanda, participando da “Roda de Maceió”, um grupo de escritores regionalista que se constituiu na capital alagoana no início dos anos 30.

O frevo nasceu em Pernambuco entre o fim do século XIX e o início do século XX. O ritmo musical tem influência da marcha, maxixe, dobrado e polca. A dança vem da capoeira e a palavra frevo vem de “frever”, uma corruptela de ferver.

A expressão foi grafada pela primeira vez no Jornal Pequeno, de Recife, na edição de 9 de fevereiro de 1907. Surgiu na seção carnavalesca assinada pelo jornalista Oswaldo Oliveira numa reportagem sobre o ensaio do clube Empalhadores do Feitosa, do bairro do Hipódromo, que apresentava, entre outras músicas, uma denominada O Frevo.

Domingo de carnaval na Rua do Comércio em 1958

Se a afirmação de José Lins do Rêgo pode ter fundamento, quando localiza a chegada da dança a Maceió no final dos anos da década de 1920, o mesmo não acontece quando se trata de precisar o uso da palavra “frevo” em Alagoas.

A seção “Carnavalescas“ do Diário do Povo de 1º de fevereiro de 1917, publicado em Maceió, já registrava a expressão associada a um ambiente de festa, “fervendo” de gente: “Na Levada, à rua da Conceição, aloja-se o Club dos Lenhadores, cujos ensaios, às quartas e sábados, entrando pelos domingos, atraem gente a valer. É um frevo grosso naquela rua, porque o Club, com um terceto, quero dizer, com 3 músicos, faz um reboliço harmonioso que não é deste mundo. E árias novas, e marchas bonitas, um repertório que vale alguma coisa. Tenho dito”.

O termo também foi utilizado fora do carnaval, mas sempre associado a um aglomerado em algazarra. O Índio, jornal de Palmeira dos Índios, na edição de 25 de dezembro de 1921 ao noticiar um pic-nic infantil descreve que as crianças almoçaram uma “opípara” feijoada e “depois da farta sobremesa de arroz doce, num frevo dos pecados, levantou-se a meninada para acompanhar o mastro até a praça da matriz…”.

Esse mesmo jornal nos anos seguintes utiliza a expressão, inclusive para divulgar atividades de blocos, como os Batutas, em 1923, “que já fez uma vez no ano anterior um frevo arrenegado e prodigioso…”.

Em Penedo, o jornal A Vanguarda Carnavalesca, que surgiu em 24 de fevereiro de 1935, anunciava no seu primeiro número que “A Vanguarda Carnavalesca é, pois, a revista do ‘Frevo’, feita para o Carnaval…”. Nesse período, o ritmo pernambucano já tinha espaço destacado nos nossos carnavais.

Corso na Rua do Comércio no carnaval de 1958

A presença dos cordões e blocos de origem popular nos carnavais de Maceió no primeiro terço do século XX tem como um dos seus principais defensores o Major Bonifácio Silveira. Quando o frevo aqui chegou, com certeza recebeu dele o incentivo necessário para se firmar como principal ritmo das nossas festas momescas durante anos.

O folclorista Theo Brandão estimou que o frevo começou a ser dançado em Maceió entre o final dos anos 20 e o início dos anos 30 do século XX, coincidindo este período com a presença em Alagoas de José Lins do Rego.

O mais provável é que o ritmo tenha começado a se impor nos nossos carnavais no início da década de 1930, quando a presença dos blocos populares cresceu expressivamente e tivemos grandes festejos carnavalescos na capital.

Segundo o antropólogo Bruno César, o carnaval em Maceió era dançado de forma diferente de Pernambuco. O termo “passo quebrado” foi criado pelo Major Bonifácio e identificado por Theo Brandão como uma recriação local, “talvez por influência rítmica do coco alagoano, da dança do “passo” do frevo do Recife. Nada mais que isso”, justifica o professor e um dos maiores estudiosos dos nossos carnavais.

Relógio Central decorado para o carnaval no início dos anos 50

Nos anos trinta, com o crescimento do carnaval de rua em todo o país, o frevo se espalha e em 1938, no Recife, é fundada a Federação Carnavalesca Pernambucana, fortalecendo o frevo como cultura local, com reflexos em Alagoas.

Foi nesse mesmo período que no Rio de Janeiro o frevo começou a fazer parte do carnaval carioca, mas somente em 1945 ganhou projeção após a Rádio Tupi contratar a Orquestra Tabajara de Severino Araújo.

Entre as décadas de 1930 e 1950, o carnaval de Maceió viveu seus melhores momentos, com o frevo dominando sobre os outros ritmos, principalmente pelo surgimento de dezenas de blocos, alguns destes sobreviveram até os nossos dias a exemplo do Bloco Vulcão, fundado em 1936.

Entretanto, o espaço do frevo nas ruas de Maceió foi conquistado lentamente e principalmente graças ao empenho do Major Bonifácio, como registrou o Diário de Pernambuco de 17 de janeiro de 1934, informando que ele havia enviado ao Jornal de Alagoas uma carta “lançando um apelo as sociedades dançantes de Maceió, para que façam seus bailes carnavalescos antes do dia 11, para não prejudicar nos três dias consagrados a Momo, o frevo de rua”.

A nota no jornal pernambucano revelava ainda que “o carnaval em Maceió só tem animação até às 10 horas da noite, pois que as sociedades atraem para seus salões, daquela hora em diante, toda massa, que em meio delirante de alegria, faz o “passo” na rua do Comércio, deixando-a completamente vazia”.

Dias depois, em 31 de janeiro, o mesmo jornal avaliava que o “bairro da Levada é de certo o que mais se diverte em Maceió” e apontava um dos seus blocos, o Bota-Fora, como “o líder do Carnaval das ruas de Maceió”.

No ano seguinte, o Diário de Pernambuco de 25 de janeiro noticiava que o carnaval seria animado e que alguns clubes naquela data já realizavam “ruidosas exibições na cidade, arrastando massa popular em delírio”. “A Gazeta de Alagoas já está recebendo composições para o concurso da melhor marcha ou samba do carnaval alagoano, ao mesmo tempo que a eleição do bloco, rancho ou club mais animado está alcançando completo sucesso”, informava o jornal, revelando o surgimento do “carnaval competição” e que ainda não havia espaço para o frevo nos concursos musicais.

Sobre o “carnaval competição”, em 1933, o Jornal de Alagoas já promovia concurso para a escolha da Rainha do Carnaval, que naquele ano foi a “senhorinha Nelly Ribeiro”.

Outra informação importante surge no Diário de Pernambuco de 1º de fevereiro de 1935, quando anuncia que “realizar-se-á no domingo próximo, 3 de fevereiro, uma animada batalha de confetti nas ruas do Comércio e Boa Vista, com a presença da banda de música da Força Policial Militar e de todos os blocos e clubs carnavalescos”. Como o carnaval daquele ano ocorreu entre 3 e 5 de março, um evento um mês antes pode ser indício de prévias carnavalescas já naquela época. Há inúmeros registros de atividades desse tipo antes do carnaval propriamente dito.

Nas prévias do carnaval de 1937, o bloco Vou Botar Fora foi às ruas da capital e levou uma multidão calculada em 5.000 pessoas. O Diário de Pernambuco de 26 de janeiro de 1937, ao noticiar esse evento, informou ainda que os Pás Douradas e os Cavalheiros dos Montes também tinham desfilado nesse período.

Anunciava ainda o jornal para o dia 31 de janeiro a realização de “duas grandes festas de carácter popular e que terão animação inexcedível: será o banho de mar à fantasia e o grande concurso do passo do Jornal de Alagoas”, efetivado no período noturno no Teatro Deodoro.

O concurso era considerado a “nota mais original e de maior brilho dos festejos carnavalescos”, considerando que haviam sido inscritos “os campeões de passo da terra pelos clubes Vou Botar Fora, Pás Dourada, Cavalheiros dos Montes e Cavadoures Filhos”.

Em Alagoas, o frevo ganhou um divulgador importante nos anos 60: o radialista pernambucano Edécio Lopes. Com seu programa radiofônico “Manhãs Brasileiras” liderando a audiência, promoveu verdadeiras campanhas de incentivo ao ritmo e ao carnaval como um todo. Como autor e cantor, também contribuiu para que a nossa produção musical carnavalesca se mantivesse viva por décadas.

Atualmente, o ritmo está presente em vários momentos dos nossos carnavais, mas vive uma longa crise, com raras novas composições e sem tocar na maioria das rádios. Em Maceió, o frevo resiste principalmente nos clubes tradicionais e nos eventos da Liga Carnavalesca de Maceió.

5 Comments on Como o frevo chegou em Alagoas

  1. Prof. Roberval // 14 de Janeiro de 2018 em 21:46 //

    Excelente texto. Muito informativo quanto a nossa história do frevo em Alagoas.

  2. Leonardo Pinto Junior // 14 de Janeiro de 2018 em 22:48 //

    Parabéns Edberto Ticianeli por essas memórias que nos proporcionou. Digno de um carnavalesco apaixonado pela cultura. Os alagoanos agradecem.

  3. Edmilson Vasconcelos // 15 de Janeiro de 2018 em 08:42 //

    Edberto Ticianeli tem cumprido um excelente papel no resgate de nossa memória política e cultural. Datar o ingresso de uma manifestação cultural é resultado de muita pesquisa, pois temos a tendência de, por ser do povo, acharmos que é atemporal. Há sempre alguém que lute para dar início a uma tradição e há os que lutam para que não acabe. No texto, José Lins do Rego, Théo Brandão e Major Bonifácio ajudaram a botar fogo pra o começo da “frevura”. Edécio Lopes manteve a ebulição e, mais recentemente, Carlito Lima tem jogado lenha para que tenhamos carnaval no carnaval. Se depender do Nega Fulô teremos brasas e labaredas, e tome frevo.

  4. Edmilson, agradeço por suas generosas palavras. Quanto ao Carlito, tenho dito: no início do século XX tivemos o Major Bonifácio; no século XXI temos o Capitão Carlito Lima. E vamos ao frevo!

  5. Nasci em Alagoas em 1962 e já naquele tempo o frevo como existe em Pernambuco não era tão divulgado em Alagoas. Lembro-me muito das marchinhas tocada nos clubes Acem e Canavieiros em São Miguel dos Campos na época de minha infância mas de frevo mesmo não tenho lembranças.

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