Cheia de 1924

Praça Dois Leões, em Jaraguá, na cheia de 24
Av. Comendador Leão tomada pelas águas de 1924

Av. Comendador Leão tomada pelas águas de 1924

Em 1924, enquanto São Paulo enfrentava uma das maiores secas da sua história, os estados do Nordeste eram atingidos por um verdadeiro dilúvio.

No Ceará, um dos estados mais atingidos, as inundações arrastavam para os leitos dos rios tudo que encontrava pela frente. Açudes e barragens se romperam matando muita gente.

Em Maceió, as chuvas que caíram na noite entre os dias 18 e 19 de abril, de sexta-feira para sábado, provocaram danos consideráveis à cidade, além de matar três pessoas.

Na Mensagem Governamental de 21 de abril de 1924, que abria a 17ª legislatura em Alagoas, o presidente da província, José Fernandes de Barros Lima, assim relatou a cheia ocorrida três dias antes.

Vale do Reginaldo em 1924, após a tromba d’água. No alto da foto, o Seminário de Maceió

Vale do Reginaldo em 1924, após a tromba d’água. No alto da foto, o Seminário de Maceió

Elaborava os primeiros trechos da presente Mensagem, quando, na noite de 18 para 19 do corrente (abril), chuvas torrenciaes, fortissimas, tempestuosas, com uma violência de que não ha noticia entre os coevos, cahiram a nossa Capital e os suburbios, inundando alguns, repentinamente, em diversos pontos, destruindo, por completo grande numero de habitações de população pobre que se concentra pela margem do Riacho Reginaldo, no arrabalde do Poço e margem do riacho Maceió, chegando a impetuosidade das aguas a derrubar diversas outras casas que pareciam de construcção solida, em algumas ruas principaes da cidade, invadindo também muitos armazéns, trapiches e casas particulares do bairro de Jaraguá, danificando mercadorias, ocasionando vultuosos prejuízos de toda sorte e cuja importância exacta ainda não pode ser precisada.

Rua do Ganso, no Poço, em 1924

Rua do Ganso, no Poço, em 1924

Verdadeira catástrophe, que alarmou a todos, causando grande panico e a todos consternando dolorosamente, foi sem duvida produzida por algum fenômeno cosmico, como alguma grande tromba d’agua que tivesse, inopinadamente, desabado sobre os morros de circulam a cidade, despejando sobre esta. Tão brusca inundação que a todos apavorou e surprehendeu pela sua rapidez, chegou, em alguns pontos da cidade, a atingir á altura de 2 metros.

A furia das aguas vertiginosas que, no espaço de 2 horas ou menos, produziu tantos males e estragos; occasionou também a morte de 3 pessoas arrastadas pelas correntes.

Ponte de ferro da Great Western sobre o Salgadinho cheia de 24

Ponte de ferro da Great Western sobre o Salgadinho após a cheia de 1924

O próprio estadoal, a ponte com estructura de ferro construida em 1870, pelo então presidente da Provincia Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior, denominada – ponte dos Fonsecas – soffreu consideraveis estragos, ficando inutilisada para o transito de vehiculos.

Tambem foi arrastada pelas cheias a ponte de ferro da Great Western entre Maceió e Jaraguá, impedindo o trafego.

Desabou igualmente a velha ponte de madeira sobre o rio Jacarecica, na estrada de rodagem para o Norte. Esta soffreu alguns estragos, em geral de pouca monta, no seu leito, sendo os dois de maior vulto o desabamento de um boeiro no logar denominado Aguas Ferreas (a 5 kilometros da Capital) e o de um pontilhão de madeira, sobre o riacho Lancha, em Ipioca, no kilometro 21, o qual, agora mesmo, ia ser substituido, já estando contractada a sua construção em cimento armado.

Av. Comendador Leão alagada pela cheia de 1924

Av. Comendador Leão alagada pela cheia de 1924

A cheia de 1924 no Nordeste, por sua magnitude, também foi registrada no cancioneiro popular. Luiz Gonzaga gravou A cheia de 24, em 1968, uma toada do cantor e compositor paraibano Severino Ramos de Oliveira – o Parrá. Ramos é também o autor do sucesso Ovo de Codorna.

A cheia de 24
Doutor não foi brincadeira
Na correnteza das águas
Descia a família inteira
Quase não sobra vivente
Para contar a história
Assim falava mamãe
Aquela santa senhora } bis

Praça 13 de Maio, no Poço, também alagada pela cheia de 1924

Praça 13 de Maio, no Poço, invadida pelas águas da cheia de 1924

Descia gado e cavalo
Pato, peru e galinha
Cabrito, porco e carneiro
Tudo o que o povo tinha
Os açudes não podiam
Tantas águas suportar
Rio, riacho e lagoa
Tudo junto num só mar }bis

Os canoeiros lutavam
Passando podro no rio
Mas o remanso das águas
Corria água em rodopio
Afundavam as canoas

Rua Sá e Albuquerque na cheia de 1924

Rua Sá e Albuquerque na cheia de 1924

Na violenta correnteza
Parecia inté castigo
Do Autor da Natureza } bis

Meu Padim Ciço pediu
A Nossa Senhora das Dores
Que parasse aquela enchente
Que causava esses horrores
Quando terminou a prece
Logo parou de chover
O sol brilhou lá no céu
Para todo mundo ver } bis

4 Comments on Cheia de 1924

  1. Antonio Onety Vasconcelos // 11 de outubro de 2016 em 20:37 //

    Essa foi a “prova dos nove”, pois vem atestar a veracidade de um fato que meu falecido pai (1895-1988) relatava. Dizia ele que, – na idade de 29 anos -, nunca vira tão grande enchente do rio, em cuja margem situa-se a terra natal. E acrescentava :”Nesse rio Acaraú (Ceará), eu entrava na água já nadando, dentro da rua, com cavalete de mulungu.” Naquela região, o terreno sofre ligeira elevação, daí haver a cheia de 24 não ter devastado completamente o então povoado de Morrinhos.
    Eu resido no RJ desde abril/1960, tempo em que sobrevoei – vindo para a Velhacap, em bi-motor da NAB – a cidade de Orós, com açude cheio inundando tudo. É só ver os jornais da época.

  2. oneide Rodrigues Cavalcante // 23 de outubro de 2016 em 20:53 //

    Amei essas fotos! Não sabia dessa enchente em Maceió!

  3. Amei gostei meu vizinho falava pra mim escutando a noite a voz do povo Brasil no rádio entre 1966 a 1969. eu com 5 aninhos à noite professor que alegria Gratidão

  4. Sou uma agente de saúde Ace de Maceió e escrevo e sócia de uma organização não governamental quando criança morei em Murici /neta de Manuel Martins e Antônia Martins da Silva, feliz obrigada. K

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*