Cemitério de N. S. da Piedade completa 160 anos de histórias

Portão de entrado do Cemitério de Nossa Senhora da Piedade
Cemitério Nossa Senhora da Piedade no final do século XIX

Cemitério Nossa Senhora da Piedade no final do século XIX

Em meados do século XIX, a falta de um cemitério em Maceió preocupava a população. Eram tempos das epidemias e suas terríveis consequências para as populações, principalmente as mais pobres. Os espaços para inumações ficavam restritos aos cemitérios das igrejas, ou mesmo as suas áreas internas, onde os mais abastados procuravam para última morada.

As reações a estes hábitos incomodava aos mais esclarecidos, como testemunha uma correspondência para o jornal O Correio de Maceió, de 11 de agosto de 1850, que denunciava que havia um projeto da Irmandade de N. S. do Livramento de “construir um pequeno cemiterio e uma casa para catacumbas em terreno atráz de sua Igreja”.

O anônimo que escreveu a correspondência reconhecia que o problema não seria resolvido enquanto não houvesse um cemitério público na capital. Entretanto, a decisão de construir um cemitério em Maceió já havia sido tomada pelo presidente em exercício da província de Alagoas, Dr. Manoel Sobral Pinto, dois meses antes.

A Lei nº 130, de 6 de julho de 1850 estabeleceu que o governo estava autorizado a construí-lo no lugar que julgar apropriado. Na Falla Presidencial de novembro daquele ano, o governante explica que a escolha do local foi objeto de profundos estudos e que para tal foram mobilizados “todos os médicos e engenheiros existentes na Cidade”.

Capela do Cemitério Nossa Senhora da Piedade

Capela do Cemitério Nossa Senhora da Piedade

Duas comissões ficaram encarregadas dos estudos que determinariam a localização do cemitério. O local escolhido foi analisado pela comissão formada pelo presidente do Conselho de Obras Públicas, José Sesinando Avelino Pinho e Bernardo Pereira do Carmo.

Segundo o relatório desta comissão, havia pressa em definir a localidade para o cemitério “extra-muros”, onde ocorreriam as inumações, “ao contrario do que até hoje se há observado, com detrimento de todas as conveniencias de salubridade”. Com o cemitério fora da cidade, eles pretendiam eliminar o perigo que representavam “os gazes produzidos pela putrefação dos cadáveres”, que se elevam, alterando a atmosfera.

Para a escolha do terreno foram levados em consideração a direção dos ventos, natureza do solo, topografia e vizinhança. Os dois lugares estudados foram os seguintes: parte superior da barreira da Cambona, “que fica em frente (pouco mais ou menos) ao sítio de D. Anna Magna, e o outro foi um terreno “adjacentes à margem direita da estrada que vai desta Cidade, pelo lado de O. [oeste], para o Trapiche da Barra”.

O terreno da cabeça da barreia da Cambona foi descartado por ter “uma espécie de terra argilosa muito densa, cede dificilmente ao gume da enchada” e por causa das fontes de água potável que ficavam nos sítios do pé da barreira. Os estudos sobre os ventos também apontaram para a escolha da área da estrada para o povoado do Trapiche da Barra.

O terreno formado por “arèa granitosa” na região onde hoje é o bairro do Prado, também apresentava problemas para a instalação de um cemitério, no entendimento da comissão. O relatório aponta que este solo permitia facilmente a evaporação da umidade, principalmente pelo calor. Um local quente e sem humidade dificultaria “se realizar a fermentação pútrida dos cadáveres”, que ficaria seco. A solução indicada no relatório era tirar uma camada de areia e substituí-la por barro.

Monumento aos ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial no Cemitério de N. S. da Piedade

Monumento aos ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial no Cemitério de N. S. da Piedade

A conclusão do relatório é a seguinte:
“1º que não há, absolutamente falando, um lugar inteiramente conveniente para a erecção de um Cemitério.
2º que o local da Cambona não é apropriado.
3º que o local da estrada do Trapiche da Barra encerra menos circunstancias desfavoráveis, que podem extraordinariamente modificadas, mediante esforços d’arte”.

O jornal O Correio de Maceió de 29 de setembro de 1850 publica o expediente do governo informando que foi ordenado ao engenheiro Pedro José Schranback que marcasse e fizesse o quadro de alicerce para a edificação do cemitério, preparando para receber a primeira pedra.

Definido o local, a obra é levada em hasta pública conforme editais publicados no O Correio de Maceió de 3 e 7 de novembro de 1850. Ao que tudo indica, até 1954 nenhum licitante se habilitou e o presidente da província, Roberto Calheiros de Mello, resolveu que a própria administração pública construiria o cemitério. Foram utilizados 3.000$000 réis consignado pelo Ministério do Império, mas naquele ano foram gastos 8.000$000. As obras tiveram início em junho de 1854.

Em 1855, o presidente da província, Antonio Coelho de Sá e Albuquerque, anunciava que as obras estavam “muito adiantadas”, e que o cemitério já contava com 274 catacumbas, sendo 198 construídas com recursos públicos e “as outras por conta das diferentes confrarias existentes nesta Cidade”. A “área quadrada” era de 597 palmos de face.

A mitológica Mulher da Capa Preta no Cemitério de Nossa Senhora da Piedade

A mitológica Mulher da Capa Preta no Cemitério de Nossa Senhora da Piedade

Em novembro do mesmo ano, Roberto Calheiros de Mello, presidente em exercício, reclama da morosidade das Confrarias na construção das suas catacumbas, e que isso estaria atrasando a utilização do cemitério. Ele informa ainda que para a conclusão da Capela estariam faltando apenas o altar e as portas.

Como as irmandades não construíam suas catacumbas e havia a ameaça da cólera, o presidente Sá e Albuquerque anunciou, em 1856, que o próprio governo assumia a conclusão da obra, mas fez questão de denunciar os que não cumpriram com os compromissos. “Apenas duas, as do Sacramento e Martyrios, construirão as que lhes pertencião”. Informou ainda que havia sido concluído o aterro da entrada, “por onde dificilmente transitarião carros em consequencia da grande quantidade de arêa que a cobria”.

O cemitério começou a funcionar ainda  em 1855, mesmo com algumas obras em andamentos. O ano seguinte, a situação era a mesma e Sá e Albuquerque resolveu nomear uma comissão para administrar as obras, além de reconhecer as elevadas despesas com a construção. Nesta época a antiga Estrada do Trapiche já era conhecida como Estrada do Cemitério, que ainda não tinha denominação. Era simplesmente o Cemitério Público de Maceió.

Após 24 anos de funcionamento, o Cemitério da Piedade já reclamava por manutenção.  O jornal O Orbe de 4 de julho de 1879 noticia, em matéria de primeira página, o estado de abandono do cemitério público de Maceió. “Lagedos de cimento despedaçados completamente, canteiros de flores destruidos, vasos inutilizados, uma aridez bem significativa do abandono e triste, as escavações produzidas pelas formigas minando as bases dos mausoléos”.  O jornal informa ainda que o cemitério está a encargo de uma instituição de caridade.

Jazigo da família Teixeira Basto

Jazigo da família Teixeira Basto

Segundo Felix de Lima Júnior, em Cemitérios de Maceió, quando inaugurado, em 1955, o cemitério passou a ser chamado de Nossa Senhora da Piedade, ficando ao encargo da mesma irmandade que administrava a Santa Casa de Misericórdia de Maceió. Somente em 1880 é que a municipalidade assumiu o seu controle.

O velho problema da localização do cemitério volta à tona 38 anos depois. Em 1893, o governador Gabino Besouro enviou mensagem à Assembleia Legislativa pedindo o fechamento temporário do cemitério para reformas. Ele temia que as infiltrações no terreno poroso pudessem afetar as habitações e edifícios que já tinham sido construídos no entorno do cemitério.

O mais antigo cemitério de Maceió, após 160 anos de serviços prestados ao maceioense, continua a funcionar plenamente, mesmo não recebendo os investimentos necessários para um equipamento tão importante para a capital. Além de guardar os corpos dos falecidos, o Cemitério de Nossa Senhora da Piedade também preserva belo patrimônio artístico nas peças esculpidas para os mausoléus, que são objetos de vários estudos acadêmicos.

6 Comments on Cemitério de N. S. da Piedade completa 160 anos de histórias

  1. Não a lugar pra quem anda na frente do tempo…
    Cão… Ultima parada.

  2. Ótimo texto, conteúdo de grande valor histórico. Parabéns!!!

    OBs.: Só precisa dar um pouco de atenção à ortografia.

  3. Junior, se você se refere a ortografia entre aspas, devemos explicar que é a ortografia da época. Foi reproduzida como está escrito nos antigos jornais citados. Por isso as aspas.

  4. Legal a matéria. Senti falta de ilustrar também o túmulo do ex-governador Muniz Falcão. Mas parabéns mesmo pela matéria!

  5. Legal a matéria; mas falta uma palavra no título: 160 ANOS! Além dos cochilos na digitação aqui e ali.

  6. Elma Albuquerque Leite // 2 de novembro de 2015 em 03:29 //

    Que bom que o Edberto Ticianeli escreveu esse valioso texto sobre o Cemitério Nossa Senhora da Piedade (Maceió, AL). O lugar, além de seus símbolos com significados religiosos, é repleto de histórias de moradores locais e constitui o local onde foram sepultados vários vultos do nosso Estado, importantes para a nossa cultura, como a atriz Linda Mascarenhas (eterna Dama do teatro alagoano), o cenógrafo Gustavo Guilherme Leite, o cineasta Guilherme Rogato e um dos atores do considerado primeiro filme alagoano, Moacyr Miranda, entre outros. Ainda podemos apreciar, por entre o silêncio dos túmulos (alguns bem simples e outros com um certo ar de ostentação ou requinte), diversas esculturas que expressam sentimentos profundos e um gosto artístico bastante significativo. Na capela, as pinturas e as esculturas sacras revestem o ambiente de mistério e serenidade. É, sem dúvida, uma área de grande relevância para a nossa cidade.

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