Benedito Bentes, o comerciante que eletrificou Alagoas

Em julho de 1968, Benedito Bentes toma posse como presidente da Federação do Comércio de Alagoas. Na foto de Pedro Farias estão: Euclides Bandeira (avô do prefeito Rui Palmeira), Juvêncio Lessa, Dalmo Peixoto, Benedito Bentes, João Alves, dois outros não identificados

Benedito Bentes, Ana Bentes Ferreira Pinto, Terezinha Bentes Normande, Coronel José Anchieta Bentes e seus pais, Alcina Andrade do Valle Bentes e Manoel Gentil do Valle Bentes.

Benedito Geraldo do Vale Bentes nasceu no dia 29 de abril de 1918 em Manaus, capital do Amazonas. Ainda criança, acompanhou a família quando seu pai, o engenheiro agrônomo Manoel Gentil do Valle Bentes, deixou Manaus em 1929 e foi trabalhar na Estação Experimental de Ilhéus.

Considerado como o primeiro centro de pesquisa de cacau do mundo, estava instalado no distrito de Água Preta, atual município de Uruçuca, na Bahia. Manoel Gentil ficou por lá até 3 de março de 1933, quando a Estação foi estadualizada. Nesta data era o Chefe de Culturas.

Em 1934, nova transferência leva o agrônomo, acompanhado de sua família, a estabelecer residência em Satuba, Alagoas. Tinha sido contratado como professor do Aprendizado Agrícola Floriano Peixoto, atendendo ao convite do agrônomo e diretor da instituição José Tupinambá do Monte, o Dr Tupi.

Em março de 1939, ainda em Satuba,  se submeteu a concurso para ser efetivado como agrônomo do Ministério da Agricultura, fato que ocorreu em junho daquele mesmo ano. Até então era interino.

Benedito Bentes era bacharel pela Faculdade de Direito de Alagoas

Vieram para Alagoas com Manoel Gentil: sua esposa, Alcina Andrade do Valle Bentes, e duas filhas, Ana Bentes Ferreira Pinto e Terezinha de Jesus Bentes Normande. Benedito Bentes e José Anchieta ainda permaneceram estudando em regime de internato no Colégio Antônio Vieira, em Alagoinhas na Bahia.

Somente quando concluiu o ensino médio é que Benedito Bentes se juntou à família, que já morava em Maceió para facilitar o estudo de suas irmãs no Colégio São José. Por ter sido aprovado no curso preparatório ainda na Bahia, foi matriculado imediatamente na Faculdade de Direito de Alagoas.

Casou-se com Vega Lima Bentes, filha de Heráclito Lima, proprietário de sítios de coqueiros de Alagoas, com quem teve cinco filhos: Luciano, Marden, Humberto, Eduardo e Geraldo. Seu irmão, José Anchieta do Valle Bentes, entrou para a Academia Militar, chegando a coronel do Exército brasileiro.

Durante o processo do impeachment de Muniz Falcão em 1957, o então major José Anchieta fez declarações contra o governador, o que rendeu sua transferência para o Amazonas, onde assumiu em Manaus o comando do 27º Batalhão de Caçadores. No final do ano de 1960, foi transferido para o 2º Regimento de Infantaria, Vila Militar, no Rio de Janeiro. Só voltou a Alagoas em dezembro de 1967 para assumir a Secretaria Estadual de Viação. Naquela data era o prefeito do Distrito Militar de Deodoro, na então Guanabara.

Benedito Bentes, mesmo sendo bacharel em Direito e aprovado em concurso para o Ministério do Trabalho, área do serviço público que destacou Muniz Falcão para a política, optou pelo comércio, setor que o projetou na sociedade alagoana.

Benedito Bentes ao lado de Dom Helder Câmara e dos diretores da Mercedes-Benz do Brasil, durante a inauguração da Imperial Diesel em Recife

Seu primeiro grande investimento foi em sociedade com Flávio Luz. A firma Bentes Luz representava os veículos Ford em Alagoas. Revendeu ainda veículos da Mercedes e equipamentos da Burroughs Corporation, esta última no ramo de computadores.

Em pouco tempo era um dos principais líderes do comércio local, o que o levou à presidência da Federação do Comércio e do SESC/SENAC em Alagoas. Por muitos anos também participou a direção da Confederação Nacional do Comércio.

Em agosto de 1964, Benedito Bentes se associa a Pedro Silveira Coutinho e a Euler Moura Matos, constituindo a Imperial Diesel em Recife. A firma ficava na Rua Imperial, 1638, e era concessionária da Toyota e da Mercedes Benz. A inauguração ocorreu no dia 21 de fevereiro de 1965 com a benção de D. Helder Câmara.

Política

Nas eleições para o governo do Estado de Alagoas em 3 de outubro de 1960, o vencedor foi Luiz Cavalcanti (UDN), que derrotou Abraão Moura (PSP) por uma diferença de apenas 1.702 votos.

Em dezembro daquele ano, em um almoço em homenagem ao eleito, alguém perguntou quem teria sido a pessoa mais importante da campanha vitoriosa. Segundo nota publicada na revista O Cruzeiro de 24 de dezembro de 1960, “o Major Luiz Cavalcanti surpreendeu os presentes com a citação de um nome não ligado a qualquer partido político, o do Sr. Benedito Bentes, seu amigo particular, simples comerciante”.

Luiz Cavalcanti deixa o governo do Estado em 31 de janeiro de 1966, acompanhado pelo coronel Antônio Monteiro, Benedito Bentes, Napoleão Barbosa, Ivan Sarmento e sua esposa Luísa Cavalcante Sarmento, filha do governador, Lincoln Cavalcante e, logo atrás de Ivan Sarmento, Januário Procópio

Quando assumiu o governo, no mês seguinte, o major Luiz Cavalcante convidou Benedito Bentes para assumir a presidência da Companhia de Eletricidade de Alagoas, Ceal, empresa criada em 1960 e que tinha como presidente Beroaldo Maia Gomes, coincidentemente, o vice-governador da chapa derrotada de Abraão Moura. A partir de 1983, a Ceal passou a ser sigla da Companhia Energética de Alagoas.

Contando com a colaboração de Napoleão Barbosa e do próprio Beroaldo Maia Gomes, que participaram ativamente da constituição da empresa durante o governo de Muniz Falcão, iniciou uma sequência de grandes realizações na eletrificação do Estado. Napoleão foi diretor administrativo da Ceal de 1961 até 1971. Benedito Bentes dirigiu a empresa até agosto de 1974, quando faleceu repentinamente.

Eletrificação do Estado

Em agosto de 1968, na presença do presidente do Banco do Nordeste Rubens Costa e do governador Lamenha Filho, Benedito Bentes assina o contrato de empréstimo de 3 milhões de cruzeiros para eletrificar as últimas 26 cidades de Alagoas. Foto de Pedro Farias

Para vencer o desafio de levar energia elétrica todas as sede dos municípios do Estado foi elaborado o Plano de Eletrificação de Alagoas, que recebeu a contribuição de Napoleão Barbosa, Beroaldo Maia Gomes, Oswaldo Braga, Lenine Motta, Adalberto Câmara e Maurício Gondim.

Esse Plano, que foi executado durante os governos de Luiz Cavalcante, Lamenha Filho e na interventoria do general Tubino, levou Alagoas a ser o primeiro estado brasileiro a ter energia definitiva nas sedes municipais pelo sistema hidroelétrico e o pioneiro em eletrificação rural em todo o Nordeste. Em 1961, no início do PEA, Alagoas tinha somente sete cidades que recebiam energia elétrica de Paulo Afonso.

Uma das primeiras medidas adotadas por Bentes na direção da empresa teve repercussão nacional. Ele anunciou que a Ceal somente utilizaria material produzido pela indústria brasileira, como noticiou o Diário de Pernambuco de 17 de agosto de 1963.

No final do governo de Luiz Cavalcanti, em 1966, 37 cidades já estava recebendo energia elétrica e, em maio do ano seguinte, Benedito Bentes anunciou que a Ceal iria reduzir o preço das tarifas de energia elétrica. A medida fazia parte do esforço desenvolvimentista do governador Lamenha Filho, que pretendia atrair novas industrias para o Estado.

Foi Porto de Pedras, no dia 13 de abril de 1969, a última sede de município alagoano a receber energia de origem hidroelétrica. O serviço foi inaugurado pelo então ministro do Interior Costa Cavalcanti e pelo governador Lamenha Filho. O ato contou ainda com a presença do superintendente da Sudene, general Tácito de Oliveira; do presidente da Chesf, senador Apolônio Sales; do senador Teotônio Vilela; do prefeito de Porto de Pedras, José Aluísio da Cunha; e do presidente da Ceal, Benedito Bentes.

Benedito Bentes, o bairro

Primeiras casa do Conjunto Residencial Benedito Bentes em 1986

O conjunto habitacional que homenageou Benedito Bentes foi construído em 1986, quando o governador de Alagoas era
Divaldo Suruagy e o prefeito Djalma Falcão. Aos poucos, vários outros conjuntos e loteamentos se estabeleceram no seu entorno transformando a área no maior e mais populoso bairro da capital.

Fazendo fronteira ao norte com Rio Largo, e ainda com os bairros da Serraria, Jacarecica, Guaxuma, Garça Torta, Riacho Doce, Antares e Cidade Universitária, o Benedito Bentes já foi alvo da tentativa de emancipação. O projeto de um vereador o levaria ser mais um município de Alagoas.

Com mais de 80 logradouros, o complexo Benedito Bentes é constituído pelos conjuntos habitacionais Benício Mendes, Frei Damião, Jardim Paraíso, João Sampaio II, Luís Pedro III, Moacir Andrade, Selma Bandeira, pelos loteamentos Alvorada e Bela Vista, e pelas grotas da Alegria e da Caveira.

Outra homenagem a Benedito Bentes foi prestada pelo Sesc Poço, em Maceió, que ao inaugurar seu ginásio no dia 30 de maio de 1965, deu a ele o nome do ilustre líder do comércio alagoano. Seu pai, Manoel Gentil do Valle Bentes, também teve o seu trabalho reconhecido e hoje é nome de uma escola no município de Satuba.

Bodas de prata de Benedito Geraldo do Valle Bentes e Vega Lima Bentes em 2 de dezembro de 1969. Sentados: Geraldo Lima Bentes, Benedito Bentes, Vega Lima Bentes e Roberto Araújo Bentes. Em pé: Marden Lima Bentes, Humberto Lima Bentes, Heráclito Luna Lima, Rosa Vieira Lima, Eduardo Lima Bentes, Márcia Araújo Bentes e Luciano Lima Bentes. Heráclito e Rosa eram os pais de Vega.

5 Comments on Benedito Bentes, o comerciante que eletrificou Alagoas

  1. Marcos Monte // 14 de junho de 2017 em 21:19 //

    Excelente o texto. Mais uma vez Ticianeli nos presenteia com ricas informações de um grande administrador. Que possamos sempre “beber” dessa cultura que, infelizmente, se torna rara em nosso meio. Que surjam outros Ticianeli para resgatar a nossa história.

  2. Excelente! Nunca aprendi isso na escola!

  3. Thiago Bentes // 17 de junho de 2017 em 08:13 //

    Homem de bem que se foi muito cedo!
    Orgulhoso do que ele fez, faltam pessoas assim como ele no mundo de hoje!

  4. Antônio Alcântara // 18 de junho de 2017 em 07:53 //

    Matéria impecável, ótima. Para a todos da família Bentes. Toda Alagoas agradece a todos os serviços prestados por Benedito Bentes. Torço para que mais publicações desse estilo sejam publicadas.

  5. Apesar de trabalhar na Ceal, hoje Eletrobras Alagoas, há 27 anos, desconhecia a importância de Benedito Bentes para a companhia e para o nosso estado. De certa forma, é significativo que essa parte da história seja contada justamente agora, quando um novo ciclo pode estar se encerrando na Ceal, com a sua prevista privatização.

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