Balões no céu de Maceió

Lyceu de Artes e Offícios em 1908, de onde partiu o balão.
Laurinda Silva e o Balão Granada. Foto Luiz da Rosa Machado. Fonte: Revista O Malho, Ano VII, Nº 291, 11 de abril de 1908, p. 25. Disponível em: memoria.bn.br

Laurinda Silva e o Balão Granada. Foto Luiz da Rosa Machado. Fonte: Revista O Malho, Ano VII, Nº 291, 11 de abril de 1908, p. 25. Disponível em: memoria.bn.br

Por Etevaldo Amorim

Mesmo depois de Santos Dumont conseguir a dirigibilidade dos balões, os voos em balões convencionais, os chamados aeróstatos, continuaram a acontecer e, em muitos casos, por mera exibição.

Foi assim que, num final da tarde do dia 23 de fevereiro de 1908, lá pelas 17:50 h, a aeronauta portuguesa Laurinda Silva, subiu aos céus de Maceió a bordo de um balão denominado Granada.

A ascensão teve lugar na Praça Euclides Malta, atual Sinimbu, tendo como ponto de partida a área interna do Lyceu de Artes e Ofícios. O balão, que seguia o modelo inventado pelos irmãos franceses Joseph Michel e Jacques-Èienne Montgolfier, era propriedade do Sr. Magalhães Costa, também aeronauta.

O fotógrafo amador Luiz da Rosa Machado, gerente da Empresa telefônica, foi extremamente feliz ao registrar esse fato. Postado na margem esquerda do riacho Maceió (hoje Salgadinho), de costas para o mar, ele revelou a Maceió do início do Século XX. Mostra, em primeiro plano, o riacho passando sob a Ponte dos Fonseca; mais além a estação da Companhia de Trilhos Urbanos e o Lyceu de Artes e Ofícios. Ao fundo, o morro da Jacutinga, destacando-se o Farol, o mastro de sinais semafóricos e, entre estes, a casa do faroleiro.

Segundo o jornal Gutenberg, vários fotógrafos amadores registraram o fato, mas nenhum tão feliz como Rosa Machado. O seu trabalho ficou exposto na redação do jornal Gutenberg por vários dias.

Guilherme Antônio Magalhães Costa. Fonte; Revista Fon-Fon, Ano VIII, nº3, 17 de janeiro de 1914, p. 14. Disponível em: memoria.bn.br

Guilherme Antônio Magalhães Costa. Fonte; Revista Fon-Fon, Ano VIII, nº3, 17 de janeiro de 1914, p. 14. Disponível em: memoria.bn.br

O balão atingiu a altura de 950 metros, indo cair nas imediações do Matadouro Público, depois de atravessar a cidade de Norte a Sul. Segundo notícia publicada no Jornal do Brasil, de 11 de março, Laurinda Silva “caiu desastradamente, a fim de evitar a queda juntamente com o balão”. Ela foi medicada e se restabelecia bem. Tanto que uma nova subida chegou a ser anunciada para o dia 8 de março, dessa feita tendo como partida a Praça dos Martírios. Porém, alegando motivos de segurança, Laurinda desistiu e se desligou da empresa do Balão Granada. Teria declarado que, durante uma exibição na Bahia, o balão perdera parte de uma peça que diminuía sua velocidade na queda e que, caso realizasse a ascensão, “caminhava para a morte certa”. A “peça” seria a Bambinela, que funcionava como um paraquedas do balão.

O jornal Gutenberg, de 29 de fevereiro, já tirava uma onda com a situação, simulando uma carta pretensamente escrita por um dos irmãos Montgolfier:

“O público alagoano já admirou a intrepidez assombrosa dessa a quem ele, num momento de alto entusiasmo, denominou Rainha dos Ares. Desse modo, guarda e conservará a melhor impressão.

O que se faz mister a apresentar-se o Sr. Capitão Magalhães Costa que, a julgar pela leitura dos jornais do Norte e do Sul do país, é um aeronauta de tirocínio. Suba agora Sua Senhoria. Não lhe são absolutamente estranhas as ascensões pois que ele, ao que se diz, já as tem feito em número de 59.

A cidade de Maceió bem merece expectar uma dessas arriscadas sortes do intrépido navegador do espaço.

O Capitão Magalhães Costa bem poderia fazer na terra alagoana a sexagésima ascensão.

O público maceioense já sabe que a Srª Laurinda Silva é de uma coragem espantosa a orçar pelas raias da mais perfeita loucura. Venha agora, Sr. Redator, a ascensão do bravo Capitão aeróstata Magalhães Costa! A Rainha dos Ares já nos deu um sucesso.

Que nos diz a isso o maquinista do balão, o álacre Sr. Romero?

De certo concordará e dirá ao Capitão:

— Ahora se marchará usted, Guilherme! Como non?!

— Bueno! Concluirá o povo.

E aqui fico. Atenciosamente.

(a) Montgolfier.”

Com a desistência de Laurinda, a empresa escalou o árabe Felippe Manuel, que dela já fazia parte, para uma ascensão no dia 15.

O jornal Gutenberg denunciou a falta de segurança e o Governo do Estado, através do Secretário do Interior Wanderley de Mendonça, nomeou uma Comissão composta pelos Engenheiros Henrique Cox [i] e Eduardo Whitehurst para, juntamente com o 1º Comissário de Política, vistoriar o balão. Levada a efeito a perícia, a Comissão constatou a denúncia e emitiu o seguinte Laudo:

“Exmº Sr. Dr. José de Barros Wanderley de Mendonça – M. D. Secretário do Interior,

Eduardo Whitehurst e Henrique C. Cox, sendo nomeados peritos por V. Ex.ª, para dar parecer sobre o estado do balão Granada, vêm apresentar dito parecer, que é o seguinte:

Uma grande parte do tecido que serve de paraquedas está estragada, de forma que não oferece o balão as necessárias condições de segurança. Declaramos mais que o Granada não é novo, tendo já bastante uso e somos informados que já tem cerca de dezesseis anos, tendo sido reformado por partes à proporção do estrago.

Saúde e fraternidade.

Maceió, 9 de março de 1908.

Eduardo Whitehurst

Henrique C. Cox”

Ante a decisão de Laurinda Silva e a proibição de nova ascensão sem os necessários reparos no balão, os organizadores do evento, entre eles o Deputado Coronel Bonifácio da Silveira[ii], anunciaram a devolução das espórtulas arrecadadas em benefício da Sª Laurinda. O total arrecadado atingiu a quantia de Rs 867$500 (oitocentos e sessenta e sete mil e quinhentos réis) que, depois de descontadas as despesas, restaram Rs 113$333 para Magalhães Costa, Romero e a própria aeronauta. Profundamente agradecida, a corajosa portuguesa fez publicar, no Gutenberg do dia 17 de março, uma carinhosa carta nos seguintes termos:

“Penhorada à toda culta e generosa sociedade alagoana, ao seu heroico povo, ao benemérito Governador de Alagoas, Exmº Sr. Dr. Euclides Malta, à douta imprensa maceioense, aos cavalheiros que se dignaram de me proteger e às gentis brasileiras aqui residentes, cumpro o grato dever de agradecer quanto por mim fizeram suas almas benfazejas.

Peço permissão para declinas principalmente os nomes dos Exmºs Srs. Euclides Malta, Comendador Teixeira Basto, Coronel Bonifácio Silveira, Antônio Duarte, farmacêutico João Nunes, Drs. Egas Duarte e Costa Barros, Dr. F. Jucá Filho, Dr. Orlando Araújo.”

Laurinda R. Moreira da Silva

Maceió, 17 de março de 1908.”

Feitos os consertos necessários, a empresa escalou o árabe Felippe Manuel, que dela já fazia parte, para uma ascensão no dia 15.

No dia marcado, Praça cheia de gente, e com a animação das bandas musicais do 33º Batalhão de Infantaria do Exército e do Batalhão Policial, subiu o Sr. Felippe. O balão subiu rapidamente até bem acima do sobrado do Sr. Pontes de Miranda. Daí em diante, foi baixando até quase tocar na chaminé da usina da Nova Empresa Luz Elétrica. E diz o Gutenberg: “O aeróstato baixava, como de fato baixou, num dos sítios da Cambona, perto dos Martírios, pouco além dos biombos do Paulo.” [iii]

No trajeto, enroscou nas palhas dos coqueiros, momento em que, estando o a cestinha do piloto bem perto do solo, este saltou e saiu ileso. Aliviado do peso, o balão voltou a subir e seguiu na direção do Flexal para depois cair na lagoa do Bebedouro.

[i] Henrique C. Cox, engenheiro da Companhia de Águas de Maceió. Baiano de nascimento, faleceu no dia 28 de julho desse mesmo ano.

[ii] Bonifácio Magalhães da Silveira, conhecido por Major Bonifácio ou “Major do Frevo”, conforme citado na música Carapeba, de Luiz Bandeira e Julinho, interpretada por Luiz Gonzaga.

[iii] “Biombos do Paulo” eram casebres de propriedade do Sr. Paulo José de Azevedo, situados na Rua Coronel Paes Pinto, atualmente denominada Dr. Francisco de Menezes, por onde passa a linha férrea.

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