As histórias do “major” em 1988

Chupando rolete nas praças, Luiz Cavalcante marcou seu estilo e foi um dos articuladores da "revolução"

A comparação das campanhas: "hoje e dinheiro é o porta-estandarte", afirma o "major" na entrevista
Luiz Cavalcante: "Na política, Teotônio foi o meu melhor amigo"

Luiz Cavalcante: “Na política, Teotônio foi o meu melhor amigo”

Um governador na praça, rodeado de moleques e chupando roletes. Repentinamente pega uma bicicleta qualquer e sai pedalando pelas ruas da cidade acompanhado ao longe pelo grito das crianças. Para quem não acompanha a história política de Alagoas, pode parecer obra de ficção ou leviana acusação da oposição. Mas, muitos alagoanos foram testemunhas desses episódios no início dos anos 60, quando era de efervescência o quadro político nacional, com a eleição de Jânio Quadros para presidente da República, a renúncia e os fatos posteriores que levaram ao 31 de março de 1964.

O personagem que hoje a ficção pode confundir com a realidade era o governador Luiz Cavalcante, o “major” Luiz, consagrado na popularidade dos alagoanos em uma eleição onde enfrentou e venceu a estrutura dos Góis Monteiro, representados por Silvestre Péricles, e todo o sentimento oposicionista catalisado por Abraão Fidélis de Moura. Foi uma eleição, como todas as outras, com a sua história própria, onde o eleito não ganhou em Maceió, onde Silvestre foi o mais votado, nem no interior, onde Abraão teve mais votos. Luiz Cavalcante foi o segundo na capital e no interior e na soma total dos votos ganhou a eleição por uma diferença de apenas 1.800 votos.

A partir daí, com a posse em 31 de janeiro de 1961, começou a ganhar espaço o estilo Luiz Cavalcante, que misturava o popular com uma maneira própria de governar. O governador chupava rolete na praça dos Martírios, misturado aos moleques de rua. Mas, ao mesmo tempo cuidava de implantar toda uma infraestrutura que ainda hoje resiste ao tempo e por onde Alagoas tenta encontrar o caminho do seu desenvolvimento. Vem do governo Luiz Cavalcante a criação de instituições como o Produban, agora em processo de liquidação, e órgãos como o Ipaseal e a Codeal.

Histórias 1Misturada a esse estilo estava outra figura marcante: a do vice-governador, que tinha características bastante diferentes, como reconhece hoje o próprio general Luiz Cavalcante nos seus 75 anos. O vice era Teotônio Vilela, um político da UDN, mas com rasgos de liberalismo, que quando assumia o governo trazia geralmente problemas para o governador Luiz Cavalcante, que logo retornava a Alagoas para assumir o cargo. Mas, o “major” Luiz, como sempre foi chamado, reconhece que tinha boa convivência com Teotônio.

— “Tivemos as rusgas. Qual o casal que não tem as suas divergências, as suas brigas?” A indagação é do próprio Luiz Cavalcante, que, ao contrário do que se possa imaginar, não se afastou da política. Para a ÚLTIMA PALAVRA ele confirmou a sua candidatura a deputado federal nas eleições programadas para 1990. E nessas últimas eleições, o “major” já estava em ação. Participou da campanha em 20 municípios, inclusive Maceió, onde esteve, por algumas vezes, no palanque dos comícios do prefeito eleito Guilherme Palmeira.

64 e o avião para a fuga

Quem conversa, mais-demoradamente, com o ex-governador Luiz Cavalcante tem a nítida sensação de convivência com os fatos da história recente. Além de tudo o que foi o seu governo e sua chegada à política alagoana, o “major” teve destacada e atuante participação na “revolução” de março de 1964. Espremido entre Pernambuco e Sergipe, onde Miguel Arraes e Seixas Dória eram governadores, Luiz Cavalcante foi o articulador da “revolução” por essa banda do Nordeste. Além de tudo, era anticomunista confesso e militar de grande amor pelo Exército.

Hoje, já nas bodas de prata dos fatos daquela época, o “major” Luiz confessa a sua articulação ao lado do marechal Castelo Branco; do governador de São Paulo, Ademar de Barros; de Carlos Lacerda; de Cid Sampaio, chefe político em Pernambuco; e do Marechal Deny. O entrosamento era tanto que alguns dias antes da “revolução” estourar, um avião da Vasp, enviado por Ademar de Barros, pousou no Aeroporto dos Palmares. O objetivo era permitir a fuga do então governador Luiz Cavalcante caso o movimento militar não fosse vitorioso.

É o próprio Luiz Cavalcante quem relembra o fato e sua reação: “mandei chamar o comandante do avião e mandei que voltasse para São Paulo. Não aceitei a generosidade do Ademar. O avião em Maceió era até uma tentação“. O plano, segundo o “major”, era fugir, caso houvesse fracasso, para algum país da América do Sul. A “revolução” conseguiu seu objetivo, mas logo depois um dos cassados foi justamente Ademar de Barros, que havia enviado o avião para uma possível fuga. “Senti muito a sua cassação. Convivi com ele várias vezes, na fase de articulação do movimento”, lembra o general.

Antes disso, a chegada do “major” à política aconteceu no governo Arnon de Mello. Ele era engenheiro militar e estava trabalhando na construção da rodovia Cuiabá-Porto Velho, quando Arnon foi eleito governador. O convite aceito, através do seu irmão Lincoln Cavalcante, que foi um dos coordenadores da campanha de Arnon, foi para ser o diretor da Companhia de Estradas de Rodagem, CER, que hoje corresponde ao DER. Pelo desempenho, inclusive a construção da estrada Maceió-Palmeira dos Índios, o “major” ganhou destaque e mesmo divergindo de Arnon e saindo do governo, conseguiu ser eleito deputado federal em 1958, se afastando em 1960 para ganhar a eleição de governador.

Histórias 2Já no período da ditadura militar, em 1967, Luiz Cavalcante conseguiu nova eleição de deputado federal. Era o tempo da Arena, de onde saiu para o PDS e hoje está filiado ao PFL. Ao final do seu mandato de deputado, foi eleito senador da República, com mandato de 1970 a 1978. Reeleito, ele exerceu até 1986 a vaga de senador de Alagoas. “Agora estou alimentando a ambição política de voltar a ser deputado federal”, argumenta Luiz Cavalcante, que por seu estilo ficou conhecido, por muito tempo, como o “major da sereia“, numa referência à figura de pouco valor artístico, mas amplamente conhecida e implantada na praia a que hoje dá nome, logo após o distrito de Riacho Doce, no litoral Norte.

Mas, todo o seu comportamento na política é dito como autêntico pelo governador Luiz Cavalcante. De maneira simples, vagarosamente, como hoje responde às perguntas, o “major” revela ser mau ator e “sempre gosto de fazer aquilo que me dá prazer. Ainda hoje, saio sozinho pelas ruas e quando me aproximo de um carrinho de caldo de cana, peço os roletes, a cana sem casca, ao invés do caldo, e saio tranquilamente chupando, para surpresa do próprio vendedor”.

Atualmente, o ex-governador Luiz Cavalcante divide o seu tempo entre Brasília e Maceió. Nos seus planos, a partir de meados de 89, o maior tempo será em Alagoas para a caminhada de uma nova campanha política de deputado federal.

“Prefiro Japaratinga a Nova Iorque”

ÚLTIMA PALAVRA – O Sr. foi deputado federal duas vezes, senador outras duas, governador e general. Ficou rico com a política?

Luiz Cavalcante – Não tenho fazenda. Nunca tive. Quando terminei o governo, o meu patrimônio era um apartamento no Rio e outro em Brasília. Hoje, o que possuo é um apartamento em Brasília e outro em Maceió.

UP – E as viagens ao exterior?

LC – Durante todo esse período, nos cargos que ocupei, só uma única vez fui ao exterior. Foi em 1986, como convidado e integrando a comitiva do presidente José Sarney em viagem a Portugal. Sou um provinciano. Prefiro ir a Japaratinga ou ao Bananal, na Viçosa, a ir a Nova Iorque.

Histórias 3UP – E a candidatura a deputado federal em 90?

LC – É. Estou alimentando essa ambição política. Comecei como deputado e pretendo findar como deputado. É como aquela história que o povo diz: “quem entra numa casa, deve sempre sair pela porta que entrou”. É o meu caso.

UP – Na política, ainda existe espaço para o estilo Luiz Cavalcante?

LC – Sinceramente não sei. Sou um mau ator. Quero ser autêntico. Deu certo no passado.

UP – Quais as mágoas da política?

LC – Me considero um vitorioso. Estou realizado. Não tenho mágoas. Estou sentindo falta dela. Me aposentei para descansar, mas não estou conseguindo. O descanso é o trabalho mais estafante que o homem pode ter.

UP – É verdade que na campanha de 60, para governador, o Sr. viajava em ônibus de linha de uma cidade para outra?

LC – Não era bem assim. Às vezes inventam algumas histórias. Na verdade, eu e o Teotônio andamos todo o Estado em um jipe, que tínhamos a nossa disposição para a campanha.

UP – Qual, então, a diferença das campanhas de antigamente para as de hoje?

LC – Hoje o dinheiro é o porta-estandarte das campanhas. Antigamente, o esforço pessoal sobrepujava a falta de dinheiro.

UP – Nos episódios de 64, Teotônio ficou ao seu lado ou foi contra?

LC – Ele foi solidário. Estava comigo, fazendo a revolução. Estávamos articulados com Castelo Branco e outros líderes. Tivemos uns dois ou três encontros.

UP – E na dissidência dele na Arena, como foi a convivência no Senado?

LC – Estávamos juntos na Arena, quando ele começou a divergir. Quando ia ocupar a tribuna, parecia um leproso, pois toda a bancada se retirava. Eu permanecia em plenário, apesar de nem sempre concordar com o que ele defendia. Nunca lhe faltei com o meu aparte e solidariedade. E sempre me dirigia a ele com a referência: “o nobre cavaleiro do Sabalangá me permite um aparte?” (Sabalangá é um povoado do município de Viçosa, bem próximo de onde ficava localizada a Usina Boa Sorte, de propriedade da família de Teotônio).

Histórias 4UP – Hoje, qual a avaliação que faz da “revolução” de 64?

LC – Se depois se cometeram abusos, e se cometeram, do ponto de vista administrativo foi bom para o país.

UP – Os episódios de 64 têm alguma semelhança com os dias de hoje?

LC – A sociedade tem que avançar. Acho que é exagero fazer essa comparação.

UP – No dia 31 de março de 64 e dias seguintes, qual era sua expectativa? Tinha receio?

LC – Confesso que agora não me lembro da minha expectativa naqueles momentos. Uma coisa era certa: não havia certeza de vitória ou derrota. Era como um jogo entre CSA e CRB. Acho que o que influiu para a vitória foi o contraste entre os governos de Jânio e Jango.

UP – Qual o seu candidato a presidente da República?

LC – O Jânio, apesar de ter feito, em sete meses, um governo decente, que contagiou a nação, está fora de possibilidade. Como renunciou, eu não elegeria ele como meu candidato. Estou perplexo. As forças conservadoras estão desarticuladas. Também o Brizola jamais será o meu candidato.

UP – No momento, quem são as novas lideranças políticas de Alagoas?

LC – Vejo o Divaldo despontando para um terceiro mandato. Ou uma possível eleição do Nonô. Também o Guilherme, que foi eleito prefeito. Do outro lado, não sei. Suruagy é o mais elegível.

UP – O Sr. apoiaria a candidatura do senador Teotônio Vilela Filho?

LC – Ele pode contar com o meu apoio. Não tem importância que ele esteja em outro partido.

UP – Na política, quem foi o seu melhor amigo?

LC – O grande amigo foi Teotônio, apesar da divergência ideológica e da liberalidade às minhas custas.

UP – O Sr. aos 75 anos ainda tem fôlego para uma campanha?

LC – Tenho, sim. Ainda ontem cheguei às 20 horas do interior. Fiquei de domingo até quinta-feira visitando várias cidades, como lnhapi, Arapiraca, etc…

UP – Qual o fato que marcou a sua vida política?

LC – Foram vários os fatos. A eleição para governador, com uma diferença de 1.800 votos foi um deles.

UP – O que acha da nova Constituição?

LC – Confesso que não a li toda. Tomei conhecimento espaçadamente. Sou mais do homem do que de textos.

UP – O Sr. era bom de voto no sertão? Como tratava os “coronéis”?

LC – Sempre tive boas votações. Interessante que quando fui eleito governador, meu posto no Exército era de coronel, mas nunca dei muita bola para os “coronéis” da política. Não tinha isso de exercer pressão e a influência para nomear delegado e outras pessoas.

UP – O Sr. teve uma fase de dissidência na Arena?

LC – E verdade. Foi no governo Geisel. O problema foi a questão do petróleo, pois eu achava que o governo, nem ninguém, estava se preocupando com as perfurações. Estava sendo cometida uma falha, inclusive do ponto de vista militar. Se tivéssemos uma guerra, na época, ficaríamos sem combustível. Eu defendia os contratos de risco e o governo tinha posição contra esses contratos, como até hoje. Só que o meu alerta, a minha dissidência serviu para a Petrobrás aumentar em muito as perfurações e hoje já estamos produzindo uma quantidade razoável. A Petrobrás, o governo, investiu muito em perfuração.

Histórias 5UP – No seu governo, quantos funcionários públicos tinha o Estado?

LC – Não tenho lembrança desses números. Mas, depois de mim veio o Lamenha e depois o professor Afrânio Lages, que pelo que tenho conhecimento foi o último governador que fez um censo do funcionalismo. Pois bem, no governo Afrânio Lages, entre 1970 e 1974, eram 8.700 funcionários públicos. Desses, 1.500 pertenciam ao efetivo da Polícia Militar. Portanto, sem a Polícia Militar, o número de funcionários era de 7.200.

UP – Qual o julgamento que faz do governo Fernando Coltor?

LC – O pai dele foi um bom governador. Tinha amor à obra. Quanto ao filho, não sei o que ele tem feito. É aquela história, “não julgueis, para não serdes julgado”.

UP – Votaria nele para presidente da República?

LC – Pelo fato, simplesmente, de ser alagoano não. Acho que não voto.

UP – E o pagamento do funcionalismo, como foi em seu governo?

LC – Nunca tivemos problema de pagar o funcionalismo. Apenas 70 por cento da receita, no final do governo, era para pagar ao funcionalismo. Tínhamos 30 por cento disponível para custeio e investimento, além do dinheiro do Fundo Rodoviário Nacional e a ajuda da Aliança para o Progresso, do governo americano.

UP – Votou em Tancredo Neves?

LC – Sim. Votei em Tancredo. Participei dos comícios da campanha em alguns Estados. E como orador fraco, começava meu discurso, que era sempre um repeteco, dizendo que era da terra do andarilho, do menestrel Teotônio Vilela. Do peregrino que era muito amigo meu.

UP – Teotônio seria hoje um forte candidato a presidente da República?

LC – Sim. Se não tivesse falecido e com a ascensão política que vinha tendo, era o possível presidente.

UP – O Sr. já está fechando acordo para a eleição de 90, para deputado federal?

LC – Não sou homem de fechar acordo político com a compra de votos. Nunca fiz isso.

UP – E como era, então, nomeado o seu secretariado?

LC – Todos os secretários eram meus, escolhidos por mim. Talvez hoje eu não tivesse essa liberdade de escolha.

UP – No seu governo, a Segurança já era uma dor de cabeça?

LC – Eu trouxe do Exército, para ser secretário, o coronel João Mendes. Sinceramente, a violência não era tão grande. O incêndio mais difícil de apagar foi em Palmeira dos Índios. Muniz tinha sido governador e casou com uma integrante da família Mendes. Aconteceram alguns problemas. Agora, para você ter uma ideia, o Robson Mendes, certa ocasião, levou um tiro e foi levado para tratamento no Rio. Pois bem, ele era meu adversário, mas foi para o Rio com todas as despesas pagas pelo governo do Estado, autorizadas por mim.

UP – E essa divisão dos políticos na defesa dos interesses de Alagoas, o Sr. enfrentou isso?

LC – Isso é coisa mais recente. Não tive esse problema. Acho que isto aconteceu a partir de revolução, a partir de 1964.

UP – Qual foi o melhor presidente da República?

LC – Apesar da renúncia, foi Jânio Quadros. E ele que destaco. Em sete meses, foi extraordinário.

UP – O caminho de todos os governadores e ex-senadores são os tribunais. O Sr. não quis ser nomeado para algum Tribunal?

LC – Isso não me apetece. Sou o único ex-governador, possivelmente, que não recebe pensão. Fiz opção pelo soldo de general, apesar da pensão de ex-governador ser três vezes maior que o soldo que recebo hoje. Tenho muita gratidão ao Exército, onde cheguei em 1930, como soldado. Fiz toda a carreira e consegui me formar em engenheiro.

UP – O Sr. é anticomunista?

LC – Em certo sentido, sim. Apesar do meu jeito, fui um militar mais para a linha dura.

UP – Gosta de televisão?

LC – Não sou muito de assistir Tv.

UP – E a leitura?

LC – Leio de preferência livros religiosos. Estou começando a me preparar para o grande encontro.

*Publicado originalmente na revista Última Palavra de 18 de novembro de 1988. O texto final foi de Dênis Agra e a entrevista foi concedida a Joaldo Cavalcante e Dênis Agra. Fotos de Josival Monteiro.

3 Comments on As histórias do “major” em 1988

  1. Conheci-o pessoalmente.Grande homem publico,diferente dos de hoje.Conversei muitas vezes com ele em Sao luiz do Quitunde(cidade que gostava muito de visitar) Sempre tava la-sozinho.Grande Major!!!!

  2. por que meu comentario nao será publicado?

  3. Adavio Soares da Silva // 14 de fevereiro de 2016 em 18:19 //

    Atualmente ainda é vivo o major Luiz ??

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