Arte nos cemitérios

Maceió tem um rico patrimônio cultural, onde a morte leva você a viajar com a história

O Cemitério Público de Nossa Senhora da Piedade guarda obras de arte que decoram seus mausoléus
Vasos de louça vindos do Porto em Portugal, fazem a decoração do muro externo

Vasos de louça vindos do Porto em Portugal, fazem a decoração do muro externo do Cemitério de N. S. da Piedade

Fernando Porfírio, repórter*

A partir da segunda metade do século XIX, quando já haviam sido criados os cursos jurídicos de Olinda e de São Paulo e a Escola de Medicina da Bahia, começa a surgir em Maceió uma elite intelectual que, oriunda dos engenhos de açúcar, após a diplomação, não mais regressava à vida rural e se fixava na capital a fim de exercer a profissão e encaminhar-se, sobretudo, para a política. Foi assim que começou a se formar uma cultura europeia, basicamente portuguesa, que se espalhava entre os jovens das mais abastadas famílias maceioenses.

O gosto pelas óperas, pelas grandes companhias de teatro e dança, pela pintura e escultura que dominavam o cenário mundial passou a ter um número cada vez maior de adeptos, cooptados entre os filhos dos senhores dos engenhos banguês. Assim como na vida, também depois dela, esta nascente burguesia intelectualizada formada longe da mentalidade tacanha do “fogo morto”, procurava cultuar na província o espírito cosmopolita adquirido em seus anos de academia. Muitas famílias, dentre as mais ricas, faziam trazer de São Paulo, Rio de Janeiro e mesmo da Europa, obras de arte para decorarem seus mausoléus. O melhor exemplar deste período de grande riqueza econômica e cultural que contagiou Maceió, às vésperas do século XX, pode ser encontrado ainda hoje no Cemitério Público de Nossa Senhora da Piedade, localizado na Av. Siqueira Campos, no bairro do Prado.

Obras de arte no Cemitério da piedade compensam a falta de planejamento

Obras de arte no Cemitério da Piedade compensam a falta de planejamento

Segundo o consagrado pintor Pierre Chalita, um dos organizadores do livro “Alagoas, Roteiro Cultural e Turístico”, a construção do cemitério data de meados do século XIX, havendo indícios de que ela foi iniciada sob a administração do Dr. Sobral Pinto, no dia 27 de outubro de 1850. O pintor alagoano, que é também um dos maiores colecionadores de objetos de arte do país, critica a pouca preocupação das administrações municipais para com aquele cemitério, que ele define como “um dos melhores patrimônios culturais da cidade”. Pierre Chalita lembra da “verdadeira depredação”, que aconteceu ali durante a gestão do prefeito Sandoval Cajú, que segundo ele, destruiu dezenas de obras de arte e mausoléus que existiam na rua frontal do cemitério, construindo em seu lugar peças com o logotipo de sua administração.

Figura em forma de anjo, em mármore

Figura em forma de anjo, em mármore

O Cemitério de Nossa Senhora da Piedade não tem planejamento, suas ruas não obedecem a um traçado regular, mas a falta de um traçado definido é compensada por algumas obras de arte de uma beleza extraordinária, como o mausoléu da família Barão de Mendonça, o mausoléu da família Jucá, onde se destacam os elementos decorativos inspirados na “belle époque” e que foi projetado pelo pintor Rosalvo Ribeiro, ou os vasos de louça, vindos da cidade do Porto, que fazem a decoração do muro externo.

Com dezenas de esculturas trabalhadas com mármore Carrara, pedra de Lioz, de granito, ou mesmo de alvenaria, vindas, em sua grande maioria, de Portugal, Itália e Holanda, os jazigos daquele cemitério oferecem uma verdadeira “viagem” pela história da arte dos dois últimos séculos. Pierre Chalita, que também é professor da disciplina de História da Arte na Universidade Federal de Alagoas, diz que costuma levar seus alunos para desenharem os monumentos e tomar contato com as formas das esculturas que existem ali.

Sem dúvida, toda a escultura e arquitetura tumular encontrada no “cemitério velho”, como é popularmente chamado, é o retrato de uma época, pois hoje os sepultamentos da classe alta e da classe média têm lugar mais frequentemente no Parque das Flores, de feitio inglês, caracterizado por um extenso gramado com pequenas cruzes, indicativas de sepulturas. “Mesmo os mausoléus populares são de uma inspiração artística surpreendente”, afirma Chalita, numa referência ao cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Suntuosidade renascentista diferente dos traços assimétricos de Rosalvo Ribeiro

Suntuosidade renascentista diferente dos traços assimétricos de Rosalvo Ribeiro

Exemplares de obras de grande beleza podem, ainda, ser encontrados nos Cemitérios de São José, no bairro do Trapiche da Barra, e no Nossa Senhora Mãe do Povo, localizado no bairro de Jaraguá. Mas nenhum deles se compara nem na quantidade, nem no valor artístico de suas obras, com os monumentos que foram erguidos no antigo cemitério do bairro do Prado.

Sua fachada de estilo sóbrio não esconde a riqueza cultural de seu interior, e por causa disto vem sendo motivo de constantes assaltos ao seu patrimônio artístico, como o que está acontecendo com os belíssimos jarros de louça portuguesa que vem sendo subtraídos de seu muro. O mausoléu da família Almeida Magalhães, todo trabalhado em mármore Carrara, num estilo clássico ornamentado com jarros de inspiração grega, tendo no centro uma coluna clássica quebrada, simbolizando a vida interrompida, está entre as mais belas obras daquele cemitério.

Simetria das pilastras também dão beleza às obras

Simetria das pilastras também dão beleza às obras

Outro exemplo é o jazigo da família Jucá, que foi projetado pelo pintor alagoano Rosalvo Ribeiro, numa inspiração da “belle-époque“, onde a falta de simetria denuncia o espírito burguês em busca de novas formas para suas criações, “No final do século XIX, a burguesia europeia tinha acabado de concluir a Revolução Industrial e rompido com toda a cultura clássica. O movimento da “belle-époque” é a materialização desta nova realidade burguesa que a partir daquele momento estava livre para criar e produzir com suas próprias mãos, sem ter que obedecer a nenhuma forma pré-estabelecida”, explica didaticamente Pierre Chalita.

Ao lado dos traços assimétricos de Rosalvo Ribeiro se ergue um outro mausoléu construído no início deste século, que ao contrário de seu vizinho se destaca da suntuosidade dos ornamentos renascentistas, rodeados de jarros, tendo ao alto uma mulher coberta com véu que, de joelhos, lamenta a perda de alguém muito querido. Este patrimônio artístico-cultural, retrato da opulência dos Barões do Açúcar de Alagoas e da rebeldia de seus filhos está a reclamar das autoridades municipais a consciência para o seu valor histórico e um maior zelo e vigilância para impedir a sua destruição.

*Publicada originalmente na revista Última Palavra, ano 2, nº 61, de 21 a 27 de abril de 1989

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