Anilda Leão, uma vida em trânsito

Reunião da Federação Alagoana Pelo Progresso Feminino, nos anos 40
Anilda Leão estudou música, declamação, oratória, dicção, canto oral e lírico no então Conservatório Alagoano de Música

Anilda Leão estudou música, declamação, oratória, dicção, canto oral e lírico no então Conservatório Alagoano de Música. Foto acervo de Carlos Alberto Moliterno

Anilda Leão nasceu em Maceió no dia 15 de julho de 1923. Era filha de Joaquim de Barros Leão e Georgina de Barros Leão. Seu pai, um comerciante respeitado em Maceió, além de líder da sua categoria, elegeu-se deputado e foi indicado prefeito da capital durante o governo de Arnon de Mello.

Foi no Colégio Imaculada Conceição que Anilda estudou o curso primário. Iniciou o ginásio no Liceu Alagoano, depois transferiu-se para a Escola Técnica Federal de Alagoas, na década de 40, onde formou-se em Ciências Contábeis. Sonhava em ser médica, mas seu pai não permitiu. Também estudou música, declamação, oratória, dicção, canto oral e lírico no então Conservatório Alagoano de Música.

Seu primeiro poema foi publicado quando ainda tinha 13 anos. A temática era criança abandonada. Foi colaboradora das revistas Caetés e Mocidade, assim como do Jornal de Alagoas e Gazeta de Alagoas.

Em 1950, em um evento organizado pela Federação Alagoana pelo Progresso Feminino, em que se apresentou como cantora, passou a participar ativamente da instituição. Em junho de 1963, representando a Federação, participou do Congresso Mundial de Mulheres, em Moscou. No ano de 1990 torna-se presidenta da instituição.

Com o pai Joaquim Leão, em São Paulo anos 40

Com o pai Joaquim Leão, em São Paulo nos anos 40. Foto acervo de Carlos Alberto Moliterno

Aos 30 anos de idade, em 1953, casou-se com o poeta e escritor Carlos Moliterno, que era desquitado quando ainda não existia o divórcio. O casamento chocou a sociedade alagoana. Da relação que durou por 45 anos, tiveram dois filhos: Luciana e Carlos Alberto.

Em 1961, incentivada por Carlos Moliterno, publicou o livro de poemas Chão de Pedras. No ano de 1973 conquistou o Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras com a coletânea de contos Riacho Seco, período em que começa a investir em sua carreira de atriz.

Como atriz, atuou nos seriados Lampião e Maria Bonita e Órfãos da Terra (1970), e nos filmes Bye bye Brasil, Memórias do Cárcere (1984) e Deus é brasileiro (2002), além de “Tana’s Take“, de Almir Guilhermino e outras produções locais. No teatro interpretou papeis destacados nas peças Bossa Nordeste e Onde canta o sabiá.

Produtiva e agitada, desempenhava vários papéis ao mesmo tempo, sem abandonar a poesia, os contos, as crônicas e a a elaboração de artigos para jornais. Sempre rompendo as barreiras da sua época, Anilda ousava e escrevia sobre temas considerados tabus, como virgindade, homossexualismo e prostituição.

Com Carlos Moliterno em um carnaval do Clube Fênix dos anos 50. Foto acervo Carlos Alberto Moliterno

Com Carlos Moliterno em um carnaval do Clube Fênix dos anos 50. Foto acervo de Carlos Alberto Moliterno

O historiador Geraldo Majella lembra que em outubro de 1978, ainda em plena Ditadura Militar, Anilda Leão era diretora do Departamento de Assuntos Culturais — órgão vinculado à Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Alagoas, o equivalente, hoje, ao cargo de secretário de Cultura —, quando foi procurada pelo jornal Boca do Povo para ouvi-la sobre a mobilização que se iniciava sobre a Anistia. Anilda, como sempre, não vacilou:

“A luta pela democracia em uma nação jamais atingirá seu objetivo se não contar com a participação de todos os setores da sociedade, destacando a classe trabalhadora. Nessa questão eu vejo a importância da anistia ampla, geral e irrestrita para todos os presos políticos, que lutaram justamente para que o país se torne democrático. Todos os crimes políticos cometidos no país durante o período de arbítrio deverão ser apurados e julgados, para que posteriormente sejam punidos os responsáveis”.

Anilda Leão recebeu as Comendas Mário Guimarães (pela Câmara Municipal de Maceió); Nise da Silveira (pelo Governo do Estado de Alagoas); Graciliano Ramos (pela Câmara Municipal de Maceió); a Ordem do Mérito dos Palmares (pelo Governo do Estado); e a Comenda Teotônio Vilela, pela Fundação Teotônio Vilela. Também recebeu o Diploma do Mérito Cultural, da União Brasileira dos Escritores.

Trabalhando no DAC, anos 80

Trabalhando no DAC, anos 80

Faleceu, aos 88 anos, na noite de 6 de janeiro de 2012, em Maceió. Estava internada no Hospital Arthur Ramos tratando de uma fratura no fêmur provocada por uma queda.

Na ocasião, o escritor Benedito Ramos assim se referiu a ela: ”Anilda Leão é, possivelmente, a única criatura no mundo que sempre determinou a idade que desejava ter. Sua disposição para encarar desafios é sua principal característica. A escritora e poetisa sempre viveu intensamente tudo o que fez”.

Em sua homenagem, uma via do Conjunto Antares, em Maceió, passou a ser denominada Rua Escritora Anilda Leão Moliterno.

HORAS PERDIDAS

Eu vivo nesse momento a tristeza
Das horas perdidas,
Das horas mortas,
Das horas inúteis,
Horas que deixamos passar sem serem vividas.
Há tanta vida lá fora e nós dois tão distantes,
Tão dolorosamente afastados.
Por que matamos sem piedade tudo o que há de belo
Dentro de nós? Por que?
Há uma infinidade de horas entre a hora presente.
E ainda agora trago nas minhas mãos,
Na minha boca, no meu corpo,
A sensação da nossa última carícia.
Eu vivo neste momento a tristeza
Das nossas horas inúteis.
Horas estéreis. Melancolicamente vazias.

Anilda Leão

Anilda Leão

Obras publicadas

Chão de Pedras (1961), poesia
Chuvas de Verão (1974), poesia
Poemas marcados (1978), poesia
Riacho Seco (1980), contos
Círculo Mágico (e outros nem tanto) (1993), poesia
Olhos Convexos (1989), crônicas
Eu em Trânsito (2003), memórias

1 Comentário on Anilda Leão, uma vida em trânsito

  1. Uma pessoa chamada Tânia Moliterno é parente de Anilda?

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