Alagoas na Guerra do Paraguai

Soldados brasileiros ajoelham-se diante da estátua de Nossa Senhora da Conceição durante uma procissão na zona de guerra em 1868
Última foto de Solano López em 1870

Última foto de Solano López em 1870

A guerra do Paraguai, que é considerada o maior conflito internacional na América, teve início quando o exército paraguaio invadiu a província brasileira do Mato Grosso sob o comando do presidente Francisco Solano López, em dezembro de 1864.

Um dos motivos para tal agressão foi a intervenção armada do Brasil no Uruguai, que pôs fim à guerra civil daquele país. Solano López temia que o Império brasileiro e a República Argentina dominassem os outros países do Cone Sul. Como resposta a esta possível ameaça, o presidente paraguaio resolveu deter, em 11 de novembro de 1864, o vapor brasileiro Marquês de Olinda, que transportava o presidente da província de Mato Grosso, Frederico Carneiro de Campos, que morreu em uma prisão paraguaia. Seis semanas depois, o Paraguai invadiu o sul do Mato Grosso.

Com a declaração formal de guerra ao Brasil, oficializada no dia 13 de dezembro de 1864, a mobilização do Governo Imperial em resposta foi aplaudida pelo povo brasileiro. Em Alagoas, a população foi as ruas exigindo que o nosso território fosse desocupado pelo invasor, como registrou Jayme de Altavila no livro A História da Civilização das Alagoas.

No primeiro momento de mobilização de tropas para a guerra, o presidente da província, João Batista Gonçalves Campos, rapidamente cumpriu as orientações do Ministério da Justiça, de 25 de dezembro 1864, que incumbia a todos os presidentes da missão de formar os corpos de voluntários, apelando para o patriotismo, além de ativar o recrutamento para o Exército e a Armada.

A formalização dos Corpos de Voluntários da Pátria aconteceu por decreto Imperial em 7 de janeiro de 1865. Um segundo decreto, de 21 de janeiro, definiu que a meta era ter 14.796 guardas nacionais para o serviço da guerra, cabendo a Alagoas contribuir com 484 soldados.

Membros do Batalhão de Voluntários da Pátria, regimento proveniente da província do Ceará, entre 1867 e 1868

Membros do Batalhão de Voluntários da Pátria, regimento proveniente da província do Ceará, entre 1867 e 1868

Uma boa notícia para facilitar o recrutamento de praças chegou no dia 19 de janeiro de 1865. Um aviso circular do Ministério da Guerra comunicava que os adiantamentos pagos aos praças seriam indenizados.

Como havia a informação de que em várias províncias os corpos de guarda estavam se oferecendo para a combater no Paraguai, o chefe de polícia, Dr. Sebastião Cardoso, e o major comandante, Carlos Cyrillo de Castro, consultaram oficiais e praças para saber se eles estavam dispostos a fazerem o mesmo em Alagoas.

Como todos concordaram, o presidente Gonçalves Campos transformou o contingente do batalhão 8º de Infantaria, que fazia a guarnição da capital, no 20º Corpo de Voluntários da Pátria. Enquanto isso, a segurança de Maceió ficou entregue à guarda nacional e ao corpo de polícia.

Já com os pagamentos sendo feitos pela Fazenda Estadual, a partir do dia 11 de fevereiro de 1865, os destacamentos saíram do interior para a capital, onde começaram os treinamentos. O decreto nº 3.371, de 7 de janeiro de 1865, conferia aos voluntários uma gratificação diária de 300 réis.

Coronel Faria da Rocha revista tropas brasileiras em Tayi, Paraguai,em 1868

Coronel Faria da Rocha revista tropas brasileiras em Tayi, Paraguai,em 1868

Contrariando a lei, algumas dessas gratificações foram repassadas aos familiares dos soldados que assim requisitaram tal benefício. O presidente da província, que autorizou as transferências, explicou a transgressão. “Fiquei sabendo que muitos dos que se ofereceram deixaram mulher e filhos na pobreza, que pensaram em mitigar com aquele parco abono; e, se eles soubessem que nem isso lhe deixavam, é de crer que lá não fossem”.

Gonçalves Campos também constatou que os voluntários preferiam “assentar praça no referido corpo pela razão de que, finda a guerra, deve retornar para a província”, revelando que no Exército esse destino não estava garantido.

Depois dos preparativos e treinamentos, o 20º Corpo de Voluntários da Pátria, formado pelo corpo de polícia e mais duas companhias de Voluntários da Pátria, embarcou no dia 13 de março de 1865 na corveta a vapor São Francisco. O 20º CVP seria depois reordenado para 52º CVP.

Na despedida, o clima era de festa com desfile pelas ruas de Jaraguá, que recebiam uma multidão de parentes e amigos dos soldados que embarcavam sob a orientação religiosa do capelão, padre Domingos Fulgino da Silva Lessa, que até então era coadjutor da freguesia do Poxim.

Religioso brasileiro junto a civis paraguaios. Os homens em pé ao fundo são das forças aliadas. Foto datada entre 1869 e 1870

Religioso brasileiro junto a civis paraguaios. Os homens em pé ao fundo são das forças aliadas. Foto datada entre 1869 e 1870

Um incidente que demonstra o entusiasmo reinante no momento do embarque envolveu o alferes ajudante Manoel de Moraes Sarmento, que caiu da ponte sobre o escaler e fraturou um braço quando ajudava no embarque da tropa. Mesmo ferido, exigiu a sua permanência no batalhão, no que foi atendido pelo presidente e teve o seu gesto aplaudido pela multidão.

Após o esforço inicial, que obteve resultados satisfatórios, o recrutamento de novos soldados foi ficando cada vez mais difícil. É o que relata o presidente da província Esperidião Eloy de Barros Pimentel em sua mensagem à Assembleia Provincial de 19 de abril de 1866.

No seu informe aos deputados, ele revela que até o mês de agosto de 1865 ainda não tinha sido possível completar o contingente de guardas estipulado para Alagoas, que era de 484 praças, e que após aquela data havia mobilizado 271 praças, mas somente 156 embarcaram para a corte em diferentes datas.

Para os Voluntários da Pátria somente se ofereceram 22 pessoas. Seguiram para guerra 19 e três foram julgados incapazes do serviço militar. O Exército recebeu 163 recrutas que foram enviados para a capital, dos quais 114 embarcaram para a corte. O restante foi dispensado. Como voluntários, o Exército recebeu somente três inscrições e um foi dispensado.

Prisioneiros paraguaios em 1866

Prisioneiros paraguaios em 1866

Em resumo, no segundo período de remessas de forças, no governo de Barros Pimentel, foram despachados 291 soldados para a guerra.

Segundo o governante, a causa da diminuição do número de soldados enviados se deve ao “natural resfriamento do entusiasmo provocado pelas primeiras explosões de patriotismo ofendido, o caráter sedentário da sua população, o horror tradicional às guerras do sul do Império, e sobre todas as notícias exageradas e aterradoras que chegavam do teatro de operações militares quanto à mortalidade por efeito do clima, fadiga das marchas e epidemias que dizimavam o exército”.

Há registro de que alguns interioranos, para fugirem ao recrutamento, arrancavam seus dentes incisivos, que eram necessários para rasgarem os cartuchos de pólvora no momento de carregar as armas. Esses ficaram conhecidos como Voluntários de Corda, por não terem energia para o combate.

Mesmo com dificuldades, em abril de 1866, a força alagoana no Paraguai já chegava a 1.114 praças. Para a Armada foram enviados até aquela data 57 praças.

Prisioneiros paraguaios fotografados durante a ocupação de Assunção, capital do país

Prisioneiros paraguaios fotografados durante a ocupação de Assunção, capital do país

O presidente Benjamim F. da Rocha Vieira, em mensagem à Assembleia Provincial de 22 de julho de 1867, relata que até agosto do ano anterior tinham sido enviados 1.171 praças, sendo 627 Voluntários da Pátria, 245 guardas nacionais, 257 recrutas e 42 oficiais.

Informa ainda que na administração do presidente anterior, major José Martins Pereira de Alencastro, mais dois corpos organizados foram deslocados para a guerra, com 710 praças e a seguinte composição: 126 Voluntários da Pátria, 329 guardas nacionais e 255 recrutas. Para a Armada (Marinha de Guerra) foram 59 praças.

O presidente Pereira de Alencastro foi um dos que pagou um preço alto por impor medidas de austeridades no período da guerra, principalmente por utilizar meios de recrutamento que indignaram a população. Depois de uma intensa campanha oposicionista, foi afastado do governo e deixou Alagoas no dia 12 de junho de 1867 “sob o toque de finados dos sonoros sinos maceioenses, e, enquanto isso, subiam ao ar foguetes sem bombas e eram distribuídos pela cidade, e até mesmo no vapor que conduziria o presidente demitido, imundos pasquins”, como narrou Jayme de Altavila.

O recrutamento forçado também foi identificado por Craveiro Costa em História das Alagoas. “Medida odiosa, porque, por toda parte, deu lugar ao exercício de vinganças individuais, dos chefões políticos do interior, rancorosos e destituídos de sentimento cívico, contra desafetos humildes”.

Oficial brasileiro ao lado de um prisioneiro paraguaio, foto datada entre 1865 e 1868

Oficial brasileiro ao lado de um prisioneiro paraguaio, foto datada entre 1865 e 1868

Cícero Péricles, em seu livro Formação Histórica de Alagoas, relata que as dificuldades de recrutamento eram tais que o corpo de Voluntários da Pátria recebia escravos fugidos que se alistavam para irem para longe de onde eram procurados. Anúncios de jornais comprovam essa prática.

O presidente Rocha Vieira, em seu relatório de julho de 1867, acrescenta que enviou mais 60 praças para a Armada e contabiliza que a província já teria contribuído com quase 2.000 homens.

Em maio de 1868, o presidente Antônio Moreira de Barros reclama dos impostos de guerra e informa que recrutou 943 homens, mas somente 650 foram enviados para a guerra. Nesta data ele contabilizava o envio total de 2.709 homens para a guerra do Paraguai.

Jayme de Altavila informa que um levantamento feito por ele nos arquivos da Secretaria da Província revela que o número de alagoanos em combate chegou a 3.659. Não há registro de deserção de nenhum alagoano durante a luta. Craveiro Costa contabiliza a presença alagoana com 3.578 homens.

Alguns índios de Alagoas também participaram da guerra do Paraguai. Os Xucurus, por exemplo, enviaram 120 soldados com a promessa de que, na volta, seriam extintas as sesmarias onde habitavam. De Jacuípe saíram 24 índios para a guerra, 12 deles se apresentaram em Pernambuco. Também há informação sobre recrutamento à força entre os índios.

Em agosto de 1866, José Roiz Leite Pitanga, responsável pela Diretoria Geral dos Índios, relata a dificuldade no recrutamento e que não cumpriu a meta de recrutar 800 índios, só conseguindo 200 deles.

Oficiais brasileiros nos momentos finais da Guerra do Paraguai, entre eles está o Conde d´Eu (com a mão na cintura), em 1870

Oficiais brasileiros nos momentos finais da Guerra do Paraguai, entre eles está o Conde d´Eu (com a mão na cintura), em 1870

Com o fim dos combates, o 20º Batalhão de Voluntários da Pátria retornou a Maceió em 1870, deixando centenas de mortos em terras paraguaias, incluindo o coronel Carlos Cyrilo de Castro, comandante do primeiro corpo policial a chegar na área de guerra e que faleceu no primeiro combate.

Entretanto, os alagoanos que mais se destacaram na guerra do Paraguai foram os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Ainda com as divisas de capitão, Floriano chegou a área de combate comandando a esquadrilha formada pelos patachos “Garibaldi”, “S. João” e Uruguai. Após ter participado de inúmeras ações vitoriosas, Floriano termina a guerra como major e com várias condecorações, além de ser reconhecido como o “Marechal de Ferro“.

Deodoro da Fonseca também era capitão quando se destacou nos combates de Tuiuti, Angustura, Campo Grande, Itororó, Protero, Peribebuí e Estabelecimento. Sua bravura em campo e os graves ferimentos recebidos nos enfrentamentos o elevou a ser uma das referências do nascente Exército brasileiro e o habilitou, mais tarde, a liderar a proclamação da República em 15 de novembro de 1889.

Monumento comemorativo

Praça Sinimbu no final do século XIX.

Praça Sinimbu no final do século XIX.

Com o fim da guerra do Paraguai, alguns cidadãos ilustres e orgulhosos da participação dos alagoanos na contenda, resolveram homenagear o heroísmo dos combatentes construindo um monumento em uma praça pública de Maceió.

A iniciativa partiu do padre Pedro de S. Bernardo Peixoto. No dia 6 de julho de 1870 ele encaminhou um abaixo-assinado ao presidente da província, José Bento da Cunha Figueiredo Junior, com 240 assinaturas solicitando a aprovação e ajuda para a homenagem. A petição se fazia acompanhar de um desenho do monumento de autoria do engenheiro Frederico Mery.

Entretanto, o ambiente em Alagoas não era muito propício para tais investimentos e homenagens. Os efeitos da guerra ainda estavam muito presentes na economia local e nas contas públicas. Além disso, os enfrentamentos entre os Conservadores e os Liberais quebravam a normalidade política da província.

Mesmo com essas dificuldades, o presidente acata a proposta e nomeia uma comissão para a execução do projeto. Na primeira reunião da comissão, no dia 21 de julho, na residência do comendador Silvério Jorge, foram escolhidos os coordenadores dos trabalhos. A presidência ficou com Silvério Jorge, a tesouraria com o comendador Roberto Calheiros de Melo e a secretaria com o dr. João Fernandes Chaves. Várias outras comissões foram formadas na capital e no interior, todas mobilizadas para levantar fundos para a obra.

A pedra fundamental foi lançada às 14 horas do dia 7 de setembro de 1870, durante as comemorações da Independência. O local escolhido foi a atual Praça Sinimbu, onde ocorreu a solenidade que contou com a presença de autoridades, incluindo o presidente da província.

Os jornais da época acompanharam a campanha de donativos publicando os valores arrecadados até 17 de novembro de 1870. Lamentavelmente, o projeto foi enterrado junto com a sua pedra inaugural.

Como que antevendo a não realização da obra, o jornal Diário das Alagoas publicou ainda em setembro um alerta sobre o prejuízo que seria não levar adiante o projeto:

“A ideia do Monumento foi uma sublime inspiração do patriotismo alagoano. Nessa bela ideia, Alagoas precedeu a suas irmãs.
Pela sua inauguração, contraiu-se, do modo mais solene, a obrigação de acaba-lo.
Conceber e iniciar esta grande obra para não terminá-la é uma vergonha ainda maior do que dela não se ter lembrado. O patriotismo dos alagoanos não consentirá em tão triste resultado, e a obra sólida do monumento erguer-se-á para atravessar os séculos, atestando a gratidão da pátria ao valor e à abnegação de seus filhos”.

Ao que tudo indica, o patriotismo não suportou a falta de recursos e a obra nunca foi levada adiante. Somente no dia 23 de novembro de 1903 é que o jornal Gutemberg cita novamente a existência da pedra fundamental para a construção do monumento em memória da Guerra do Paraguai.

Fontes:
– Monumento Comemorativo da Guerra do Paraguai, de Humberto Vilela, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, Volume 39, Ano 1984, publicada em 1985.
– Índios e Alagoas, documentários, de Clóvis Antunes, 1984.
– História de Alagoas, de Moreno Brandão, 1908.
– História das Alagoas, de Craveiro Costa, 1967.
– Formação Histórica de Alagoas, de Cícero Péricles de Carvalho, 1982.
– História da Civilização de Alagoas, de Jayme de Altavila, 1988.
– Fatos para uma história da Polícia Militar de Alagoas, de José Amâncio Filho, 1976.
– Pequena História da Polícia Militar de Alagoas, de Félix Lima Júnior, 1990.

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