Alagoas na Guerra de Canudos

Oficiais do 28º Batalhão de Infantaria, em 1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República
Divisão de Artilharia em Monte Santo com as temidas "matadeiras", canhões Withworth 32, usados na última expedição militar enviada a Canudos, 1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

Divisão de Artilharia em Monte Santo com as temidas “matadeiras”, canhões Withworth 32, usados na última expedição militar enviada a Canudos, 1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

A Guerra de Canudos entrou para a história do Brasil por ter sido um dos mais violentos confrontos entre um segmento da população e o Exército da República. De fundo sócio religioso, os enfrentamentos duraram de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia.

Entre os fatores que contribuíram para o surgimento das contradições que terminaram em massacre, destaca-se a grave crise econômica e social em que se encontrava a região à época. O interior nordestino era dominado por latifúndios improdutivos e vivia sofrendo pela ocorrência de secas cíclicas e desemprego crônico.  A esperança de dias melhores estava depositada numa salvação milagrosa que arrancaria os sertanejos do sofrimento imposto pelo clima e pela exclusão econômica e social.

A primeira mobilização dos seguidores de Antônio Conselheiro foi contra a municipalização da cobrança de impostos. Mas a imprensa, o clero e os latifundiários da região não estava vendo com bons olhos a migração de pessoas e recursos para aquela nova cidade que surgia em Canudos, e que chegou a ter 25.000 habitantes.

Membros do 39º Batalhão de Infantaria em ação. 1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

Membros do 39º Batalhão de Infantaria em ação. 1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

Não demorou muito para que o grupo passasse a ser identificado como de contestadores do regime republicano recém-adotado no país. Assim, foi se construindo o apoio da opinião pública do país para justificar a guerra movida contra o arraial de Canudos e os seus habitantes.

A imagem de Antônio Conselheiro e adeptos passou a ser a de “perigosos monarquistas” a serviço de potências estrangeiras, querendo restaurar no país o regime imperial. A possibilidade da presença de outro país no conflito funcionava como justificativa para o insucesso do Exército em três expedições.

A derrota das tropas do Exército nas primeiras expedições contra o povoado apavorou o país e deu legitimidade para a perpetração deste massacre que culminou com a morte de mais de seis mil sertanejos. Todas as casas foram queimadas e destruídas.

Alagoas contra Canudos

Segundo a pesquisa de Moacir Medeiros de Santana, a primeira notícia sobre a presença de tropas alagoanas no conflito de Canudos surge no jornal O Gutemberg de 25 de novembro de 1896, em Maceió. Na primeira página se lia:

“Movimento de força
O comandante da guarnição deste Estado, atendendo ordens do General Solon determinou ficasse de prontidão um contingente de 100 praças que devem seguir hoje para a Bahia.
Esse movimento de força é necessário pela atitude hostil que tomou o fanático Antonio Conselheiro em Lavras e Lençóis, na Bahia, contra as forças federais e policiais daquele Estado.
Os srs. Alferes Elesbão, Ormínio, Montenegro e Maurício devem seguir com essa força do exército”.

40º Batalhão de Infantaria na trincheira,1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

40º Batalhão de Infantaria na trincheira,1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

Entretanto, somente no dia 6 de dezembro é que embarcaram no vapor “Alagoas” 200 praças do 33º Batalhão da Infantaria, como registrou O Gutemberg de 10 de dezembro, sob o título “Sucessos na Bahia”.

O 33º BI, ao chegar a Bahia, foi incorporado à 2ª coluna comandada pelo general Cláudio do Amaral Savaget, que por sua vez estava sob o comando do general Arthur Oscar. A tropa alagoana compunha a 6ª brigada em conjunto com o 26º BI de Sergipe e o 32º BI do Espírito Santo. O comandante da brigada era o coronel alagoano Donaciano de Araújo Pantoja.

Se o Exército recebia ajuda das forças militares de Alagoas, Antônio Conselheiro também bebia na mesma fonte. O Gutemberg de 13 de março de 1997 informa que desertores da polícia de Alagoas e Sergipe, praças do Exército e cassacos despedidos da Estrada de Ferro do São Francisco se agregavam às forças sitiadas em Canudos.

No mesmo dia em que ocorreu a rendição de Canudos, às 16 horas do dia 5 de outubro de 1897, o diretor do jornal O Gutemberg, Dr. Eusébio de Andrade, entrevistava o coronel alagoano Virgínio Napoleão Ramos, comandante do 33º BI e que se recuperava em Maceió de ferimentos recebidos em combate acontecidos no dia 27 de junho na localidade Macambira.

Virgínio Napoleão de referia aos combates de Canudos como “oficina da morte” e calculava que os engajados com Antônio Conselheiro ultrapassavam os dois mil combatentes. O comandante do 33º BI também estranhava a não utilização pela expedição Moreira César dos fuzis de guerra “Kropatchek”, enquanto que essa arma era utilizada pelos atiradores de Canudos. Ele suspeitava que os “fanáticos” dispunham de maior número de armas que o Exército na 3ª Expedição (foram quatro expedições), e que após a vitoriosa 4ª Expedição, foram encontradas muitas munições, aumentando a suspeita de que os rebelados receberam auxílios de armas e munições.

Vista parcial de Canudos em 1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

Vista parcial de Canudos em 1897. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

O segundo deslocamento de soldados alagoanos para a Campanha de Canudos aconteceu em março de 1897. A partir do dia 12 de março, o 33º BI passou a aguardar o transporte para a Salvador, que só aconteceu no dia 21 do mesmo mês. Às 16h30, o vapor “Espirito Santo” recebeu todo o efetivo do Batalhão.

O Gutemberg de 23 de março de 1897 registrou assim o acontecimento:

O embarque do 33º
O povo formando alas acompanhava a marcha daquela legião de servidores da Pátria, aos quais o dever impôs o sacrifício de ir combater as hostes inimigas da tranquilidade da Nação.
O bairro de Jaraguá achava-se, nas imediações da ponte de embarque, repleto de povo em sua maioria mulheres e crianças que tristemente, chorosas e consternados iam dar adeus aos que partiam, aos maridos, filhos, irmãos e parentes.
Puxava a marcha a banda do Corpo de Polícia seguida da do Batalhão 33º, as quais em saudosíssimas harmonias davam à terra de que se apartavam, em momento de tantas apreensões, a despedida.
E a tropa passava silenciosa, cadenciada, mas sem tristeza, ouvindo-se de quando em quando aclamações e vivas aos valorosos servidores da nação.

…………………………….

Mulheres e crianças prisioneiras. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

Mulheres e crianças prisioneiras. Foto de Flávio de Barros do Acervo Museu da República

Defronte da ponte de embarque o coronel Virgínio Napoleão Ramos apresentou as despedidas ao povo de sua terra natal, incitando no mesmo passo a bravura de seus bravos comandados.
Após discursos que em seguida foram pronunciados pelo dr. Ângelo Neto, dr. Manoel Luiz Gonçalves, engenheiros de obras públicas e pelo dr. Costa Leite, teve início o embarque da tropa, somente concluído às 19 horas”.

O 33º BI voltou a Alagoas no dia 11 de novembro, a bordo do “Prudente de Moraes”. Desembarcaram somente 110 homens e 30 mulheres. Os demais ficaram sepultados nos sertões baianos, ou feridos em hospitais, como registrou O Gutemberg.

Foram recebidos sem festa, principalmente porque havia ocorrido recentemente o assassinato, no Rio de Janeiro, do marechal Carlos Machado Bittencourt.

Fontes:
– Só História. http://www.sohistoria.com.br.
– Alagoas na Guerra de Canudos, de Moacir Medeiros de Santana.

2 Comments on Alagoas na Guerra de Canudos

  1. Jorge Barros // 22 de agosto de 2017 em 22:03 //

    Importante resgate da história!

  2. MARIA SONIA DE OLIVEIRA // 23 de agosto de 2017 em 09:41 //

    Excelente material… estão de parabéns os produtores de imagens e texto!

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