A Rua do Imperador de Marconi de Oliveira

Praça Sinimbu numa foto de Abílio Coutinho de 1869

D. Pedro II em 1848

Marconi de Oliveira

Salve, Salve! Como de costume, três vezes por semana, ergo junto com o sol e sigo ao parque aquático do Clube Fênix. Desço a ladeira da Catedral e tomo a Rua do Imperador. Por essa Rua, já deixaram suas pegadas os maceioenses que viviam na época das fotos postadas pelo nosso grupo.

Mamãe, quando saía do Colégio Sacramento com suas amigas, passava por essa Rua em direção a Estação Ferroviária, tomando o trem rumo a Fernão Velho. Hoje não mais, devido ao presente de grego da idade: o reumatismo.

E quantos entes queridos nossos, de outrora e de hoje, já deram e dão os passos como autógrafo na Rua do Imperador. O que muitos não sabem é que o próprio monarca Dom Pedro II e sua digníssima Teresa Cristina já deixaram suas pegadas nessa Rua.

Vez por outra, vislumbro o busto de D. Pedro II na Praça de mesmo nome, o monumento mais antigo do país. O monumento foi ideia do conselheiro Antônio Manuel de Melo e encomendado pelo Barão de Jaraguá. A pedra fundamental foi lançada no dia dois de dezembro de 1861 (por isso o nome da Rua é Dois de Dezembro).

Na base de mármore da estátua de Pedro II há um dizer em latim que não consigo decifrar, devido ao desgaste do tempo. (Passem por lá e tentem decifrar as letras já apagadas pelo tempo). Dizem que as palavras em latim devem ter sido ditas, quando da despedida do Augusto-Governante-do-Segundo-Império.

Em 31 de dezembro 1859, sua Majestade inaugura a Catedral Metropolitana. Em frente fica a Praça que leva o nome do Augusto Pedro II. Mas já se chamou Pátio da Capela, Largo do Pelourinho, Praça da Matriz ou Praça da Catedral e Praça da Assembleia Provincial.

Teresa Cristina em 1851

Consta na História que a cidade estava alvoroçada pela chegada do Augusto Monarca Pedro II. Autoridades e centenas de pessoas se aglomeravam no trapiche do Jaraguá a espera de sua Majestade e Dona Teresa.

Enquanto a carruagem imperial passava, alunos cantavam um hino a sua majestade composto para esse momento único (Descobri isso lá nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico).

O jovem imperador, com 35 anos, não tinha ainda a longa barba branca das fotos que conhecemos. Muitos oportunistas alisaram a barba de D. Pedro II em busca de títulos nobres.

Imperador erudito; patrocinador do conhecimento, cultura e ciências. Abusava das mesóclises e empregava os verbos na segunda pessoa do plural. Um filho da Viúva.  Poliglota, poeta, músico; amigo de Darwin, Victor Hugo, Wagner, Pasteur, Machado de Assis dentre outros.

Com diversos mestres ilustres de seu tempo, o jovem imperador instruiu-se em português, literatura, francês, inglês, alemão, geografia, ciências naturais, música, dança, pintura, esgrima e equitação.

Lia Homero e Horácio no original. Discursava em grego e latim e ainda entendia a língua dos nossos índios (tupi-guarani) e o provençal. Também estudou hebraico e árabe. Seus conhecimentos eram algo de incomum, pois gostava de matemática, biologia, química, fisiologia, medicina, economia, política, história, egiptologia, arqueologia, arte, helenismo, cosmografia e astronomia.

É uma honra para a cidade ter uma Praça e uma Rua com seu nome. E tivemos a ilustre visita desse Imperador intelectual à nossa província. Após a inauguração magnífico Templo, passou o Réveillon na mansão do Barão de Jaraguá, atual biblioteca pública.

Essa história os livros contam. Mas o que não estão são os pormenores. Os detalhes. Os particulares eventos que nunca foram relatados em livros de história, mas foram escritos em tinta e pena pelo próprio D. Pedro e Tereza Cristina no diário pessoal deles.

Ponte sobre o Riacho Maceió

Os escritos dessas páginas não se encontram no Museu Imperial de Petrópolis. Talvez levadas pela família imperial quando do seu desterro em 1889. Nos primeiros raios do sol do dia 1º de janeiro de 1860, bem de manhãzinha, D. Pedro II e sua sereníssima esposa Teresa Cristina saíram do sobrado onde estavam hospedados com o intuito de se banharem no mar.

Do segundo andar onde estavam hospedados dava para ver o mar. O sobrado onde hoje se localiza a biblioteca pública pertencia a José Antônio de Mendonça, deputado provincial e responsável pela transferência da capital: Alagoas (Marechal Deodoro) para Maceió. Em troca da hospedagem acolhedora, recebeu o título de Barão de Jaraguá em 22 de agosto de 1861.

O casal imperial resolveu seguir pela Rua do Imperador. O caminho no qual se adentra da Catedral até a praia já existia, o qual, posteriormente, será a nossa Rua do Imperador. Com 1,90m, loiro e de olhos azuis, o Imperador flanqueava Teresa Cristina. A fama de mulherengo (muito embora bem menos do que o pai dele, D. Pedro I) não era intriga dos republicanos. Era fato sim. Pedro por várias vezes pulara a cerca. Ou melhor, os muros do palácio Imperial da Quinta da Boa Vista.

Foram os dois rumo à praia, como turistas em lua de mel. Era já um prenúncio, depois constatado, das mais lindas praias do país! Deparou-se com as águas límpidas do riacho Massayó, o salgadinho, que ainda fazia um trajeto maior do que hoje, da sua fonte do poço azul no atual bairro jardim Petrópolis e desembocando na atual praia do Sobral.

Praça Euclides Malta, atual Praça Sinimbu, no final da primeira década de 1900

Posteriormente foi feita a ponte dos Fonsecas, derrubada pela cheia de 1924, e no formato de arco em 1927, que perdura até hoje. E essa data não só está registrada nos livros, mas também no muro da ponte. Confiram depois.

No início da década de 1930, o percurso do riacho fora desviado para a praia da Avenida. Com isso, a ponte dos Fonsecas perdeu o seu sentido.

As puras águas do riacho não foram obstáculo para o rumo do casal imperial à praia. Como também não, para Josué diante do Rio Jordão. Lá o Criador fez a maravilha de dividir as águas e o povo hebreu transpassou a pés enxutos.

Aqui, não havia necessidade da proeza dessa maravilha. Primeiro porque o Criador escancarou maravilhas em toda topografia de Massayó e, segundo, porque o imperador era um justo e perfeito cavalheiro: pôs Dona Teresa Cristina sobre seus braços transpassando o estreito riacho.

E o menino do Rio e sua enamorada alcançaram as finas dunas da praia. Pegadas régias foram calcadas nas areias. Pedro e Teresa ficaram minutos a fio pasmados com a obra divina! A expressão “a fio” bem que convém. D. Pedro, apaixonado por inovações científicas, foi presenteado por Alexander Graham Bell do primeiro telefone fabricado. Ahh se Pedro pudesse usufruir de um telefone, quando vislumbrasse os coqueirais e dunas do litoral da Massayó…

Jornal Francês L`Illustration de 1889 anunciando a chegada do imperador Dom Pedro II à Lisboa a bordo do navio Alagoas

Diria ao amigo inventor: “Hello, Graham Bell! The Paradise is here!” Mas fotografar a arrebatadora topografia local foi possível, através do aparelho de fotografia daguerreótipo que ele comprara em Paris.

Quem sabe, Pedro & Teresa fazendo selfie nas areias maceioense? E nesse embalo de vanguarda, Teresa Cristina postou uma mensagem pelos correios à suas amigas da Corte, uma restegui: “# Maceió paraíso das águas!”

De fato, não há lugar mais lindo que contenha com tanta exuberância coqueirais, lagoas, enseadas e praias de salinas águas mornas. Deus é o arquiteto do Universo, mas para a orla de Maceió, Ele foi Seu Urbanista.

Pedro & Teresa Cristina mergulham… Um batismo nas águas de tom azul esverdeado. Deslizam numa onda que os impeliu à areia. Teresa Cristina ainda fez um coração na areia com os nomes deles e, de pronto, pôs as areias sobre seus nomes num frasco, antes que fosse apagada por uma marola espumante.

Pedro, de costa para o mar, vê, ao longe, o morro da Jacutinga e, sobre ele, o majestoso Pharol. Este foi erguido no dia primeiro de julho de 1856, a mando do movimento secreto “Luz do portal de Deus” (No meu Conto “Sob o Olhar do Pharol” há explanação sobre isso), sendo o primeiro farol de Alagoas. Em 1937, o Pharol recebeu o sistema de luz elétrica, o pioneiro no Brasil a ser movido a energia elétrica.

O casal imperial faz o percurso de volta. Bronzeados, agora, pelo exclusivo céu, sal e sol de Maceió. Eles passaram por onde tempos depois surgirá a Praça Visconde de Sinimbu, um título conferido por decreto de Pedro II em 19 de fevereiro de 1858 a João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, que foi o primeiro e único Barão e Visconde.

“Essa terra tem aptidão turística… Foi um capricho do Criador!”, arrazoou o visionário Pedro à sua Teresa. – Dou razão agora mais do que nunca ao ouvidor Batalha que persuadiu meu avô (D. João) a sancionar o desmembramento de Pernambuco. Ponderou o Monarca.

Os profanos emancipacionistas de 1817 foram imprudentes e temerários, não aguardando a sequência das coisas. Cinco anos depois, em 1822, o país daria seu grito de libertação. Não vinha assim ocorrendo desde a França e os EUA? Por que quebrar o “COM – PAS – SO”?

Praça D. Pedro II em 1905.

Como recompensa a retidão dos povoados das Alagoas, fora sancionada em 16 de setembro de 1817 a província de Alagoas. A ata secreta pelo desmembramento previa seu contorno geográfico à semelhança do ESQUADRO com as cores azul e vermelha simbolizando a monarquia constitucional e o republicano respectivamente.

Já a bandeira de Maceió tem as cores verde, branco, azul e vermelho. A divisa ondulada na cor vermelha simboliza o sinuoso riacho Massayó, hoje Salgadinho. Pedro de Alcântara, inspirado recita um trecho de um poema à Teresa:

“Em teus lábios tão puros, minha amada,
Tal minha alma quisera terminar,
Só do primeiro beijo perfumada!!!!”

E bem propício esse poema, recitado logo em frente ao local que será a casa do poeta Jorge de Lima. Já próximo à Igreja, o imperador foi interceptado pela comitiva, que respeitaram o momento a sós com Dona Teresa Cristina.

Vós estais a esperar por muito? Indagou Pedro. — Bom e majestoso Imperador! Reitero que é uma honra tê-lo em nosso solo. — Bom é Deus que nos presenteou esse litoral, meu caro Barão! — E majestoso é esse Templo junto com o Pharol!! Estávamos usufruindo desse encanto!

Na manhã da partida do Imperador e Dona Teresa Cristina, centenas de maceioenses estavam no trapiche do Jaraguá aguardando a partida de Sua Majestade e a Imperatriz. Todas as autoridades da província de Alagoas estavam lá. Souza Dantas, presidente da província de Alagoas, fez o agradecimento pela nobre visita real.

O conselheiro Antônio Manuel de Melo inquiriu a Dona Teresa Cristina qual cidade das províncias visitadas a Imperatriz se agradou mais. Houve um silêncio por uns instantes. Era de certo que a mãe dos brasileiros, como Dona Teresa era conhecida, daria uma réplica ponderada, temperada e bem equilibrada. Súbito, tal qual o inesquecível filme “A princesa e o plebeu” com Gregory Peck e Audrey Hepburn, Dona Teresa Cristina, aqui também, quebrou o protocolo, afirmando com chancela: “A encantadora MACEIÓ! Meu nobre conselheiro… Sim… Reafirmo: Maceió! Segurando com força entre sua mão e a de D. Pedro o pequenino frasco contendo as areias de Maceió!

Uma celeuma orgulhosa se ouviu por um breve tempo. O Imperador se calou. Queres leitores amigos uma tradução bem livre para esse silêncio do Monarca? O turista Pedro concordou também! E confidenciou a sua comitiva: “Se um dia eu for deposto do Brasil pelos republicanos, quero levar comigo uma lembrança desse País” (No dia 16 de novembro de 1889, aos 74 anos, o deposto Pedro de Alcântara com sua família parte para o exílio na França no navio chamado ALAGOAS!) Incrível, NÃO?? E bem antes disso, lá na despedida do Imperador e de Dona Tereza no trapiche do Jaraguá, ouve-se uma saudação vinda do povo:

“MAGNO PETRO ALAGOANA PROVINTIA GRATA”.

2 Comments on A Rua do Imperador de Marconi de Oliveira

  1. André José Soares Silva // 24 de abril de 2017 em 14:05 //

    Texto leve e gracioso. Parabéns.

  2. Cleide Vanderley // 9 de outubro de 2017 em 15:03 //

    Maravilhoso! Nada como um mergulho nas águas passadas de Alagoas.

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