A origem do coco alagoano: dança e nome

Coco. Foto do Acervo da Fundação Joaquim Nabuco
Coco de Roda

Coco de Roda

Abelardo Duarte
(Texto publicado originalmente na Revista da Academia Alagoana de Letras, em dezembro de 1991, Ano VII, nº 7).

Quem procurar estudar as culturas Bantus ou sejam os povos Bantus, essa grande família linguística africana, pois, na realidade, não há unidade étnica, mas linguística, não relutará em identificar certos traços dominantes dessas culturas com as manifestações espirituais e materiais aqui deixadas pelos escravos negros. Efetivamente, os povos de origem Bantu entraram largamente nas Alagoas, a ponto de afirmar-se que houve predominância dessa corrente negra.

Numa visão antropogeográfica mais geral, os povos Bantus estão (ou estavam) divididos em três grandes grupos — 1° os povos do Congo; 2° as tribos da África oriental; 3° o grupo do sul. Foram os povos do primeiro grupo (ou ocidental) os que maior número de escravos forneceram para o Brasil, principalmente nos séculos XVI e XVII. Angola, Benguela, Mossâmades, Loanda, Cabinda transformaram-se em arrojados mercados, onde se abasteceram de peças os traficantes, no resgate nefando. O trabalho de levantamento dos padrões culturais que permaneceram, tentado por alguns autores, noutras áreas afro-brasileiras, e de modo sábio e particular por Nina Rodrigues e Arthur Ramos, pode sê-lo também, pelos mesmos processos, na área afro-alagoana. No que se refere à cultura dos Bantus, Arthur Ramos estabeleceu dois padrões: a) — o grupo Angola-Conguês; b) — o grupo da Contra-Costa.

Tudo leva a crer que houve, no quadro geral, uma predominância do grupo Angola-Conguês nas Alagoas, pelo menos naqueles dois séculos de mais intenso tráfico. Pesquisas em que me tenho empenhado convencem-me disto. A documentação existente, como subsídio histórico, reforça esse pensamento. Aludem, quando o fazem esses documentos (testamentos, inventários, cartas de alforria, escrituras, assentamentos de compra e venda de escravos, notas) à origem angola-conguêsa, notadamente a primeira. Deixando de lado, porém, o contingente documental, histórico, certamente mais precioso, volto-me para as sobrevivências culturais, mergulhando no folclore negro, afro-brasileiro, ou afro-alagoano. Se se tem querido dar ao Coco, a tradicional dança alagoana, uma origem negra, juízo que me parece muito acertado, embora contestada por vários autores, e aceita por muitos outros, conforme vimos, no capítulo anterior, quero reivindicar — e o faço aqui — para a cultura angola-conguêsa a sua criação. São os Bantus grandes apreciadores e executores da dança e da música, que fazem parte dos seus cerimoniais característicos, da vida tribal, em suma. Há danças entre os negros sub-equatoriais, sobretudo os angolêses, verdadeiramente típicas.

Coco de Roda - Foto de Hélia Scheppa

Coco de Roda – Foto de Hélia Scheppa

Originariamente, o Coco teria sido uma dança negro-africana.

Lembremo-nos do que diz Guilherme de Melo (1) a respeito da influência africana na música do Brasil: “Mais adiante, em frente às suas senzalas, viam-se também grupos de africanos formarem os seus batuques, cantando e sambando sob a toada de seus lundus, cujo ritmo bastantemente cadenciado e onomatopaico, representando os requebros lascivos e luxuriosos de suas mucamas proporcionava aos indígenas um novo sentimento musical, que se propagando entre os mestiços, se identificou com o sentimento pátrio, produzindo a nossa chula, o nosso tango ou o nosso lundu propriamente dito”. Isto teria ocorrido no Sul. No Nordeste, da mesma forma, mas originando outras danças, músicos e cânticos. Assim, saindo originariamente do ambiente primitivo dos mocambos, passando às senzalas e terreiros dos engenhos a seguir, o Coco participou possivelmente da influência das culturas ameríndia e portuguesa, como quer Oneyda Alvarenga (2), quando afirma que “se a umbigada é decididamente africana, a roda em movimento constante, se bem que encontrável também entre os ameríndios, parece característica portuguesa, frequentando grande número das nossas danças de reconhecida procedência ibérica”.

O Parecer do escritor e crítico literário Valdemar Cavalcanti sobre “O Coco de Alagoas“, Memória (*) que o folclorista José Aloisio Vilela apresentou ao I Congresso Brasileiro de Folclore, alude à versão colhida em Viçosa (Alagoas) pelo seu autor, a que me reportei anteriormente, “segundo a qual o Coco teria sido criado pelos negros do famoso Quilombo dos Palmares“. (3) Ora, Palmares foi uma formação nitidamente Bantu. Reconheceu-a, em primeira mão, o percuciente Nina Rodrigues. Os demais autores o acompanharam neste modo acertado de ver. Se a tradição oral assim, se pronuncia, referindo-se ao Coco, mantendo aquela origem, o paralelo cultural (inclinação pela dança e pela música) entre as sobrevivências e o padrão original não o desmente. É um novo argumento este com que reforço a hipótese de sua origem palmarina.

Se ele surgiu no conglomerado negro palmarino, se veio dos quilombolas até nós, numa sucessão de contatos culturais, deveriam ter sido, pois, negros de Angola e do Congo, legítimos representantes das culturas Bantus, aquilombados na área palmarina nas Alagoas, os primeiros dançadores de Coco, dança cuja denominação parece ligar-se à lembrança dos frutos do ouricuri (Cocos coronata, Martius), espécie de palmeira que abundantemente existia, em estado selvagem, naquelas paragens, e não de outra qualquer dentre as muitas espécies existentes. Diga-se, de passagem, que as palhas dessa palmeira, também conhecida ou chamada aricuri, eram empregadas na feitura de diversos artefatos pelos negros (especialmente chapéus).

Nunca aqui se chamou à nossa dança tradicional “coco da praia”, como fora das Alagoas é conhecida e considerada dança praieira. Nós, alagoanos, friso mais uma vez, sempre a chamamos preferente e simplesmente “Coco” e, atualmente para a diferenciar, “Coco alagoano“.

Coco de Roda em quilombo em Natal

Coco de Roda em quilombo em Natal

A dança em apreço passou, na sua ascensão social, dos mocambos palmarinos, na Zona da Mata, para os terreiros e as senzalas e destes para os salões. De dança rural tornou-se citadina. Não resta dúvida.

“A dança é claramente de origem africana”, afirmou o folclorista e musicólogo Luiz Lavenère (4), já por mim citado. E, se revela hoje traços das culturas ameríndia e ibérica, o que é possível, esse mestiçamento não invalida a tese de sua origem negro-africana, que sustento também. Que me parece a verdadeira. Que a hipótese de sua vinda dos Palmares reforça. Há mais de uma vintena, João Ribeiro comentando o livro “Cosas de Negros” de Vicente Rossi, em que este escritor platino sustenta a origem negra do tango, escreveu que a mesma “parece na verdade incontestável”. (5)

O erudito folclorista argentino Felix Coluccio qualifica o tango de “dança crioula de par enlaçado que surgiu em fins de 1900, como uma modificação do tango andaluz que chegou pelo ano de 1888″. Porém, adianta que o Dicionário da Academia o registra, assim: “Festa e baile de negros ou de gente do povo”. (6)

João Ribeiro escreveu que “do ponto de vista puramente linguístico, o vocábulo “tango” apresenta todos os visos de africanismo.

A dança provavelmente teve a mesma origem do batismo.

Somente a música parece revelar um ritmo mestiçado com a melodia peninsular”.

Luiz Lavenère, que de há muito manteve, como vimos, a opinião de que o Coco alagoano é de origem negro-africana, aduziu ultimamente à tese em tela novas considerações numa crônica, na sua secção diária “A propósito…“, Jornal de Alagoas, da capital alagoana. Ei-las: “A propósito… de uma dança africana” — No interessante livro de Patrick Fermer, traduzido para o espanhol, “Un Viaje a través de Ias Antillas“, transcreve-se uma descrição de danças dos negros habitantes da Martinica, feita pelo padre Labat.

Uma delas ajuda-me a provar a minha opinião de que o nosso coco é de origem africana, como já tenho escrito por mais de uma vez.

Como espanhol é facilmente lido pelos brasileiros, não faço a tradução para a nossa língua, reproduzo como se acha no livro citado:

“Los participantes se disponen en dos hileres enfrentadas, Ias mujeres de un lado y los hombres del otro. Un de eelos impro-bisava una canción, de la cual bailadores y espectadores tomabam el estribillo, cuyo ritmo marcabam con un plamateo general. Los danzarinos mantenian Ias manos levantadas en la posición de los tocadores de castanuelas, saltavam e haciam mil piruetas, avanzando hacia la fila opuesta y retirandose interminablemente para adelantarse de nuevo, hasta que un cambio de ritmo del tambor daba la senal de um nuevo movimiento y los danzantes realizaban entonces pasos y figuras”.

Essa dança chamava-se calenda.

Coco de roda Novo Quilombo

Coco de roda Novo Quilombo

“Este baile, prosigue el monje, Ilegó a ser tan idolatrado entre los criollos espanoles de Ias Americas que apenas se les dejaba pensar en otra coisa. Bailan en suas iglesias y sus processiones e incluso Ilegan a praticarlo Ias monjas por Nochebuena, en unos estrados levantados en el presbitério, tras uma reja abierta para que el pueblo pueda compartir la alegria que manifestan aquellas buenas almas en ocasión del nacimento de su Salvador”.

O principal da dança que deu origem ao nosso coco, parece-me, é isto: Formação dos dançarinos em duas filas; canto tirado por um e estribilho cantado por todos; ritmo feito com bater de mãos, com palmas; as piruetas, como descreve o escritor.

Há uma semelhança também com a quadrilha francesa, provavelmente, porque era dança dos brancos, na ilha.

A maior diferença está na constituição das filas, uma de homens, outra de mulheres.

E Patrick Fermer faz esta pergunta: “O primeiro antecessor da rumba, do samba, inclusive o tango, não será esta calenda procedente da costa da Guiné?”

“A minha resposta, conclui o prof. Luiz Lavenère, seria: Sim, inclusive o baião que está hoje na moda.” (7)

Há ainda um A propósito… (8) de autoria de L. Lavenère, em resposta aos comentários escritos pelo Maestro José Siqueira na Revista da Semana, do Rio de Janeiro, sobre o coco, que reforça, mais ainda, ponto de vista sustentado pelo folclorista alagoano.

Escreveu o Maestro José Siqueira: “Não concordo com o professor Lavenère é quando ele diz que o coco é de origem africana. Positivamente, não concordo”. Estabelece o maestro, a seguir, a diferença entre o coco alagoano e o da Paraíba e acrescenta que o conjunto musical das Alagoas possui sanfona, pandeiro, chocalho e maracás.

Respondeu L. Lavenère: “O maestro tem razão, pois não viu nem aqui nem na Paraíba, o coco que se dançava no século passado”. Poderia ter acrescentado e nas primeiras décadas do atual.

“Só o fato de haverem dançado coco com acompanhamento de pandeiro, chocalho e maracás é bastante para provar que não foi coco o que eles dançaram”, diz L. Lavenère.

Jurandir Bozo "puxa" um coco de roda

Jurandir Bozo “puxa” um coco de roda

Refere-se L. Lavenère aos dançarinos que se exibiam durante a Semana de Folclore, realizada em Maceió, vindos de Viçosa, das Alagoas. Não é sem razão que L. Lavenère refere que não dançaram o coco e as fotografias não mentem. Dançaram não o coco antigo, mas outra modalidade, cujo acompanhamento se fazia com os instrumentos citados pelo maestro José Siqueira, quando no passado somente o ganzá entrava em cena. A contestação do Prof. L. Lavenère é perfeitamente válida, coerente com os registros históricos, literários e a tradição popular.

Noutro trabalho, (8) posteriormente publicado, em 1956, L. Lavenère fazendo novas considerações sobre a dança alagoana (“Em torno do Coco“), após inicialmente dizer que “o coco foi uma dança popular e familiar das Alagoas”, frisa que o Coco era dançado nas Alagoas “em toda a parte, nas festas mais humildes, nas casas da elite social, especialmente nas épocas do Natal”.

Volta a dizer — “penso que a dança seja de origem africana”, afirmativa que deixa bem claro um ponto de vista antigo dele, sempre mantido e reforçado com novos argumentos.

Mas, quer que “a nossa dança denominada coco foi importada no Egito transitando pela Espanha, instalando-se no Peru, no Chile, na Bolívia e na Argentina, fundindo-se com o sumba dos negros, tomando formas menos grosseiras”. Uma das várias hipóteses emitidas sobre a origem da dança. Todavia, manteve o antigo folclorista e musicólogo alagoano o seu ponto de vista quanto à origem negra da dança.

O depoimento de L. Lavenère sobre a difusão do Coco dançado “em toda a parte” nas terras alagoanas, outrora, é importante: pela idade avançada do referido polígrafo, que conheceu o coco no seu período de fastígio, sem sofisticações.

Lavenère acha, nesse estudo, que “não é possível que o nome da nossa dança tenha qualquer relação com o fruto do coqueiro que se chama coco por causa de sua forma redonda”.

“Nesse sentido, acrescenta, origina-se da língua grega, em que existem dois nomes parecidos: Kokkos e Kokkys. O segundo significa coco, nome de uma ave; o primeiro, pevide, fruto redondo, cochonila, etc.”

No capítulo anterior, referi-me à opinião de L. Lavenère a respeito da origem do nome; opinião de pessoa credenciada pela vasta ilustração que possui, inclusive musical.

Já J.P. Góes escritor conterrâneo, cujos estudos se ligam especialmente às origens das culturas do continente sul-americano, tratando do coco, sustenta a opinião de que “a esmagadora maioria dos nossos costumes folclóricos nos chegaram direta ou indiretamente da influência colonizadora das culturas deste continente”. (9)

Mário Sete (10), ao recordar o episódio dos “tumbeiros“, os “magotes de negros” aportados às praias do Arrecife, naqueles tempos que já vão longe, refere que “esses negros, ao avistarem a terra do destino, expressavam sua alegria pelo término da angustiosa travessia marítima, com o explodir de cânticos e danças nos conveses dos navios negros”.

Cânticos e danças, — espetáculo de extrema dramaticidade de corpos esquálidos e sofridos, quase um bater de esqueletos humanos —, que no dizer do autor pernambucano, “eles iriam, mais tarde, reproduzir, numa forma estranha de desafogo, de consolo, de nostalgia, nos cercados dos engenhos, nos copiares dos sítios, nos quintais dos palacetes, traduzidos no lundu, no batuque, no samba”.

A meu ver, o nosso Coco, na sua forma original, é no sentido coreográfico — como salientei linhas atrás — uma forma particular do batuque angola-conguense. Sem grande esforço de comparação, chega-se a caracterizá-lo na reprodução da dança dos negros feita por Alfredo Sarmento, nos seus tempos mais distintivos, constantes mesmo: a umbigada, o círculo de dançadores (a roda de coco).

Tanto na América portuguesa como na espanhola, vamos encontrar, no folk-song e no folk-dance, a influência assinalada e positiva das culturas afro-negras. Os estudos de Fernando Ortiz, por exemplo, sobre a aculturação negra no Novo Mundo (especialmente Cuba) demonstram a existência dos mesmos fenômenos observados no nosso país e registrados sobejamente por vários estudiosos. Estamos diante, portanto, de fatos que não são estranhos na obra de aculturação negra. De fatos evidentemente comuns nas áreas de colonização afro-negra, de concentração de elementos afro-negros, como foi o caso dos negros que trabalhavam nos engenhos de açúcar do Nordeste e, inclusive, das Alagoas.

Com o Coco das Alagoas, deu-se algo parecido. Sua origem é afro-negra. Quem havia de pensar que o tango teria essa mesma origem? Com maiores e fundadas razões, pode-se considerar o nosso Coco dança de origem afro-negra, ou, mais explicitamente, bantu. Angola ou Congo, pátria do Batuque e do Samba, teria sido também a do Coco.

Mas, que é feito dessa dança? Parece que de há muito desapareceu das festas tradicionais de Santo Antônio, S. João e São Pedro e de Natal, Ano Bom e Reis, nas Alagoas, pelo menos em Maceió e na margem das lagoas. Deixou-a em abandono a gente simples do povo, em cujas moradas de chão de barro batido a embolada, entoada ao som metálico do ganzá, acompanhava-lhe o ritmo característico afro-negro na umbigada e nos outros tempos coreográficos. Deixamos morrer uma tradição genuinamente alagoana, pelo menos na capital, não se vê nem se ouve o Coco nos bairros humildes, no Jacintinho, no Bebedouro, no Trapiche da Barra, no Pontal, na Ponta Grossa, nas Mangabeiras, no Poço, como antes. (Oh! Manes do Major Bonifácio).

Numa exibição folclórica que se realizou em Maceió, por ocasião da IVª Semana Nacional de Folclore, importaram-se dançadores de Coco, da Zona da Mata — Viçosa. Aqui seria difícil recrutá-los já. E os dançadores matutos, viçosenses da gema, excelentes cantadores, viriam mostrar, na cidade que parece esqueceu o Coco, as modificações resultantes do impacto das duas áreas culturais: a da Cantoria e a do Coco; ou pelo menos, das influências positivas (ou negativas), que da área sertaneja emanaram, na obra evolutiva do velho baile popular e tradicional das Alagoas — o Coco.

José Aloísio Vilela, no seu “O Coco Alagoano”, escreveu: “Incentivado pelo negro, herdando alguma coisa do índio, evoluindo e permanecendo, o coco chegou até nossos dias para ser hoje uma daquelas ‘especialidades Brasileiras’, de que já nos falou Sílvio Romero”. E o disse bem. Porém, a dança já não é a mesma do passado. O depoimento respeitável do velho musicólogo prof. Luiz Lavenère, contemporâneo do coco antigo, é claro: “não dançaram coco, dançaram uma mistura de frevo e do antigo samba”. (11) A dança de ontem, o velho Coco alagoano, perdeu seu feitio primitivo. Não existe mais. Dele, surgiu uma modalidade nova de dança, na verdade.

“FOLCLORE” DO COCO

Há também um “folclore”, do Coco, isto é, o Coco como motivo, tema ou assunto folclórico para cantorias. Esta “Peleja dum cantador de Coco com o Diabo”, de autoria do cantador José Pacheco (14) é um exemplo. José Pacheco, que é autor de copiosa obra poética popular, simulou um encontro casual com o capeta transformado numa negra chamada Gurgutuba Verdelenga e improvisou estas quadras, publicadas em folheto (literatura de cordel):

A vinte e quatro
Do oitavo mês do ano
Todo pessoal romano
teme a São Bartolomeu.

Não se joga,
Também não se vai pescar,
um preto já foi caçar
também a onça comeu.

Muita gente
não viaja, nem disputa
quem se derreter na luta
pode dizer que morreu.

Não se vende,
não se dar, não se confia,
quem já trocou nesse dia
por certo se arrependeu.

Eu fui cantar
na feira de repelegra
apareceu uma negra
dos olhos da cor de breu.

E tinha a cara
como quem teve bexiga
só parecia uma espiga
dessas que cupim roeu.

E era seca
batida, não tinha seio
o pescoço torto e feio
como que a doença deu.

Boca funda,
só tinha um dente na frente
falava cuspindo a gente
do geito de quem bebeu.

Trazia um chale
feito de cipó imbé
a roupa cor de café
e um ganzá como este meu.

A negra disse:
vamos cantá seu sujeito
mas se não cantar direito
diga que a carga pendeu.

Há muito tempo
que ando em sua batida
agora estou prevenida
se tem bom, bote p’ra eu.

Eu a negra
irmã de Forrobodó
este chale de cipó
Foi capataz que me deu.

E eu vim dar-lhe
que por ele fui mandada
sou negra da pá virada
sou pau que nunca perdeu.

E o meu nome
é Gurgutuba Verdelenga
sou mãe do cão cafurenga
Pé de pato é genro meu.

E eu sou prima
de Zombeteiro e Carujá,
irmã da negra Maruja
tia do cão Bolofeu.

Quando a negra
me disse que era o cão
caiu-me o ganzá da mão
todo o corpo me tremeu.

Ligeiramente
eu fiz o pelo sinal
com este dedo legal
Que Jesus Cristo me deu

Eu disse eu sei
que tu és o inimigo
porém não podes comigo
porque eu não sou ateu.

Eu creio em Deus
E na sagrada Jerarquia
na trindade e em Maria
que a Cristo concebeu.

Pelo sinal
da santa cruz, livrai-me Cristo
com ordem de Deus me visto
no manto de São Pompeu.

Misericórdia
São Cosme e São Damião,
valha-me São Simeão
São Gregório e São Abreu.

São Anastácio,
São Paulo e São Zacarias
São Bento, São Jeremias
São André, São Doroteu.

Rezei o credo
dentro do meu coração
a negra ali fez então
um gesto de quem tremeu.

Eu disse tudo
do princípio até o fim
a negra espiou prá mim
lambeu o beiço e mordeu.

Fez ameaças
de bater-me a mão no hombro
deu-me um aceso de assombro
e o coração me bateu.

E ali mesmo
cantei o credo encruzado
antes de ter terminado
ela desapareceu.

Deu um estrondo
deixando muita fumaça
como um fogo quando passa
dum incêndio que se deu.

Eu confecei-me
e jurei a Virgem Maria
de não cantar mais no dia
de Santo Bartolomeu.

Pelo estilo poético, está visto que o cantador, ao som do ganzá, improvisou os versos e entoou a cantoria, ao jeito das pelejas sertanejas, ele mesmo intitulando a sua obra de “peleja”. Note-se que o autor da “Peleja” menciona o ganzá e não outro instrumento.

(*) Trabalho somente divulgado ou publicado, na íntegra, em 1961. Seu autor, com o mesmo título “O Coco de Alagoas”, inseriu alguns apontamentos a respeito no Jornal de Alagoas, de 3 1/5/1957, ano XLVII, n. 122.

REFERÊNCIAS

(1) — Guilherme de Melo — A Música no Brasil — 2. ed. 1947, Rio.
(2) — Oneyda Alvarenga — Música popular brasileira — Ed. Globo.
(3) — Valdemar Cavalcanti — O Coco de Alagoas, “Parecer sobre a Memória deste nome apresentada ao I Congresso Brasileiro de Folclore. Rio.
(4) — Luiz Lavenère — Cantigas do Nordeste — Revista do Instituto Histórico de Alagoas, vol. XIX, ano 62.
(5) — João Ribeiro — O Elemento Negro — Record. Rio.
(6) — Felix Coluccio — Diccionário Folklorico Argentino — El Ateneo, 2a ed. aumentada. Buenos Aires.
(7) — Luiz Lavenère — A propósito… de uma dança africana — Jornal de Alagoas, Maceió, 1953.
(8) — Luiz Lavenère — Em torno do Coco — Jornal de Alagoas. Maceió. 1956, ed. 9/9.
(09) — P. Góes — O Coco e sua origem — Sup. Lit. do Jornal de Alagoas. Maceió, 14/10/1956.
(10) — Mário Sete — Arruar — História pitoresca do Recife antigo, C.E.B., 2a ed., Rio de Janeiro.
(11) — Luiz Lavenère — A propósito… do Coco alagoano, Jornal de Alagoas, Maceió, 19
(12) — Aloísio Vilela — O Coco de Alagoas, Caderno V, DEC, Maceió, Al. 1961.
(13) — Aloisio Vilela — O Coco de Alagoas — Jornal de Alagoas, ano XLVII, n° 122. de 31/05/1956.
(14) — José Pacheco — Peleja de um cantador de Coco com o Diabo. Folheto (“Lit. de Cordel”), Maceió.

3 Comments on A origem do coco alagoano: dança e nome

  1. Nada mais interessante do que conhecer nossas raízes! Orgulho de ser alagoano.

  2. mariajos26@yahoo.com.br // 9 de setembro de 2015 em 08:12 //

    Excelente documentario! Precisamos conhecer nossas origens!

  3. ESSA NÃO E UMA DANÇA DO MEU TEMPO POREM ACHO INCRIVEL PELA SIMPLICIDADE E RESPEITO ACIMA DE TUDO E UMA DANÇA FLOCORICA

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