A maldição do Teatro Deodoro

Obra do Teatro 16 de setembro em plena praça Deodoro, depois demolido

Obra do Teatro 16 de setembro em plena praça Deodoro, depois demolido

Quando, em 1910, Gaston Leroux lançava em Paris uma das mais famosas novelas de todos os tempos, Le Fantôme de l’Opéra (O fantasma da ópera), jamais poderia imaginar que naquele mesmo ano, na distante Alagoas, estavam inaugurando um teatro que comprovaria a tese de que a realidade sempre surpreende a fantasia.

Na novela francesa é o fantasma Erik quem perturba a Ópera de Paris, enquanto que por aqui o problema é uma igreja não construída enterrada embaixo do Teatro Deodoro.

Construção do Teatro Deodoro em 1907

Construção do Teatro Deodoro em 1907

Uma pesquisa detalhada de Marcos Peixoto, publicada no site da instituição, nos revela os detalhes da “maldição”.

A primeira tentativa de se ter uma casa de espetáculos de grandes dimensões (para a época) em Maceió se deu em 1898, no governo de Manoel José Duarte. O início da construção de um teatro no antigo Largo da Cotinguiba, também chamado Largo das Princesas, onde hoje fica a Praça Deodoro, ocorreu no dia 16 de setembro em homenagem à emancipação política do estado. O projeto já era o do arquiteto Luiz Lucariny.

As obras do que deveria ser chamado Teatro 16 de Setembro, foram interrompidas no dia 31 de dezembro do mesmo ano, quando já se encontrava bem adiantadas. Como os recursos para a construção vinham apólices estaduais e elas foram proibidas, a obra parou.

No final de Março de 1900, uma forte ventania atingiu Maceió e parte da construção desabou. Em março de 1905 começou a ser derrubado após autorização do então governador Joaquim Paulo Vieira Malta, irmão de Euclides Malta, sob o argumento que a construção inutilizava uma praça e prejudicava a ventilação para os moradores locais “elemento indispensável à saúde pública e à higiene das habitações”, como justificou em relatório.

O material foi aproveitado na construção do teatro “nos fundos da praça”, após algumas desapropriações. Enquanto isso a Praça Deodoro se destinava a receber um monumento equestre do proclamador da República, seu patrono. Procedeu-se ainda a urbanização da praça, com obras inauguradas em 1910.

Quando demoliam uma das casas para a construção do Deodoro, em 2 de junho de 1905, os operários Manuel Antônio e João Timotheo foram soterrados pela queda de uma das paredes e ficaram em estado gravíssimo.

Teatro Deodoro poucos anos após o fim da sua construção

Teatro Deodoro poucos anos após o fim da sua construção

Ainda em 1905 o projeto volta a ser tocado, já no governo de Antônio Máximo da Cunha Rego, com o lançamento da pedra fundamental, em 11 de junho, desta feita no local onde hoje se encontra hoje o Teatro Deodoro.

A construção foi coordenada pelos mestres-de-obras Antônio Barreiros Filho e Oreste Scercoeli e durou cinco anos e tinha uma área menor que a definida para o não construído Teatro 16 de Setembro.

O projeto executado era do arquiteto Luiz Lucariny, que faleceu em 1909 sem ver sua obra terminada. Sua morte serviu para reforçar a ideia de que o Teatro era amaldiçoado e que desabaria no dia da sua inauguração.

Sobre o projeto do Teatro 16 de Setembro, Luiz Lucariny ainda teve que enfrentar uma acusação publicada no Jornal de Debates acusando-o de plágio. O anônimo insinuou que era uma cópia da Grande Ópera de Paris. Lucariny rebateu afirmando que o projeto foi escolhido por profissionais competentes e lentes da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em um concurso em que outros foram eliminados.

Esses temores sugiram porque no local onde o Teatro foi erguido existia em construção uma igreja, que foi demolida contra a vontade de muitos religiosos.

Teatro Deodoro na década de 1910

Teatro Deodoro na década de 1910

No dia 15 de novembro de 1910, quando da inauguração do Teatro Deodoro com a presença do governador, muita gente ficou em casa com medo da profecia e não assistiram aos dramas Um Beijo, da autoria do alagoano J. Britto, e O Dote, de Arthur Azevedo, representados por Antônio Ramos e Lucilia Peres.

O Teatro foi entregue ao público às 13 horas com a presença do governador Euclides Malta e várias autoridades. A banda da Força Policial “tocou várias peças do seu repertório”.

O primeiro diretor do Deodoro foi o coronel Antônio Barreiros, nomeado em 5 de novembro, dias antes da inauguração.

No salão Nobre do Teatro Deodoro já funcionaram a Biblioteca Pública, a Câmara dos Vereadores de Maceió e a Justiça Federal. Ali também aconteciam bailes oficiais da Intendência Municipal (hoje, Prefeitura de Maceió), os banquetes e recepções do Governo do Estado, dentre os quais foram oferecidos aos Presidentes da República Nilo Peçanha e Washigton Luiz

As restaurações

Não demorou e os efeitos da maldição corroeram o prédio, provocando uma rápida restauração em 1933, quando o estado era comandado pelo interventor Afonso de Carvalho.

Em 1946, após novas reformas, o Deodoro recebeu a visita do Teatro de Amadores de Pernambuco, que encenou “Primerose” de Cavaillet. Era Interventor Federal no Estado o Dr. Guedes de Miranda. Por carência de hotéis na época, o TAP foi hospedado em casas de famílias.

Teatro Deodoro na década de 1950

Teatro Deodoro na década de 1950

A terceira reforma, em 1954, foi forçada por um incêndio que destruiu os mais importantes trabalhos do cenógrafo italiano Orestes Scercoelli, inclusive o pano de boca original inspirado na cachoeira de Paulo Afonso. Foi reinaugurado em 1957.

Em 1975 houve mais uma reforma, mas a maldição não deixou o Teatro em paz. Em 1988 foi interditado e mergulhou numa das suas mais longas restaurações, passando dez anos fechado ao público, provocando prejuízos incalculáveis às artes cênicas alagoanas. Foi reaberto com estardalhaços em 1998.

No final de 2007, o Deodoro voltou a ser fechado para reformas, só reabrindo em setembro de 2010. Em janeiro de 2014, novamente o teatro é fechado para uma rápida reforma de dois meses, voltando a funcionar em março, quando recebeu a “Valsa nº 6” de Nelson Rodrigues.

O Complexo Cultural Teatro Deodoro é a obra mais recente da velha casa de espetáculos. Iniciada em 2011, com previsão de término para um ano, a ampliação do Teatro Deodoro também foi atingida pela maldição e só foi concluída em dezembro de 2014.

6 Comments on A maldição do Teatro Deodoro

  1. sandreana Melo // 5 de junho de 2015 em 23:56 //

    Eu senti falta nesse artigo, das maldições, o que tanto aconteceu afinal, os mitos falados pela população, faltou isso na minha concepção. Mas, gostei muito de saber um pouco da história. Parabéns ao autor.

  2. Marco Gomes // 6 de junho de 2015 em 16:18 //

    O Teatro e a Fundação Teatro Deodoro – FUNTED está presente na minha história e na vida dos meus colegas republicanos, quando morávamos na rua Santa Maria, de 1983 a 1988. Antes disso, em 1981 comecei a estudar música, com Maestro Quezada, violão clássico, como uma formação de nível médio. Era linda aquela Escola, com jovens artistas passeando e treinando o tempo todo. Sentimos muito a ausência desta instituição, necessária a toda sociedade. Marco Gomes

  3. LUIZ CARLOS // 6 de junho de 2015 em 18:06 //

    Parabéns pela matéria, muitos maceioenses não conhecem esta história, nem na escola se tem tamanha riqueza de informações.

  4. jeltron santos silva // 6 de junho de 2015 em 22:00 //

    O estado deveria cuidar melhor das nossas relíquias, que conta a nossa historia.

  5. Umberto Melo // 16 de novembro de 2015 em 09:25 //

    BELA REPORTAGEM. TODO ALAGOANO DEVERIA LER. PARABÉNS !

  6. Delma Conceição de Lima // 16 de novembro de 2015 em 22:49 //

    Com maldição ou não, temos ai uma obra magnífica, que merece todo nosso respeito! Parabéns pela matéria.

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