A breve vida do engenheiro Mário de Gusmão

Os irmãos Mário e Carlos de Gusmão e um amigo em 1910 na capital pernambucana

Deputado Manoel Messias de Gusmão, irmão de Mário de Gusmão

Mário Cavalcanti de Gusmão Lyra nasceu em São Luiz do Quitunde e foi o quarto filho do advogado e senhor de engenho Manoel Messias de Gusmão Lyra e de Emília Cavalcanti de Albuquerque Gusmão.

Seu pai, nascido em 25 de dezembro de 1847 no Engenho Santa Maria, foi ainda proprietário do Engenho Levada em Camaragibe quando tinha apenas 22 anos de idade. Também foram seus os engenhos Roncador e Castanha Grande, em São Luís do Quitunde. Neste último passou a maior parte da sua vida.

Na vida pública ocupou a presidência da Província interinamente, sendo eleito deputado provincial, senador estadual e federal. Faleceu em 29 de março de 1905 no Engenho Castanha Grande em São Luiz do Quitunde.

O primeiro casamento de Messias de Gusmão foi com uma prima, Rosa da Cunha Cavalcante de Gusmão, falecida em 9 de junho de 1878, vítima de uma “metrorragia”. Rosa tinha placenta prévia, uma complicação obstétrica que interrompia suas gravidezes. Assim mesmo, conseguiu levar a termo uma delas e deu à luz a seu único filho, Antônio Cavalcante de Gusmão, que, posteriormente, foi morar no Rio de Janeiro. Rosa não sobreviveu ao parto dele.

O segundo casamento, com sua cunhada e prima Emília Cavalcante de Albuquerque Gusmão, ocorreu no dia 7 de julho de 1879. Tiveram os filhos, por ordem de nascimento, Manoel Messias Cavalcanti de Gusmão Lyra, Thomaz Cavalcanti de Gusmão Lyra, Mário Cavalcanti de Gusmão Lyra, Maria Luiza Cavalcanti de Gusmão Lyra e Carlos Cavalcanti de Gusmão Lyra. Esta pesquisa encontrou somente as datas de nascimento de  Manoel Messias (1880), no Engenho Roncador, e Carlos de Gusmão (1885).

Duas mães e estudos no Rio

Em Recife, os irmãos Mário e Carlos de Gusmão e um amigo em 1910

Mário de Gusmão passou seus primeiros anos dias de vida em companhia de uma tia. Maria Luísa (Maroca), a irmã mais velha de sua mãe, que era casada com outro primo, Ambrósio Cavalcanti de Gusmão Lyra. Como não tinha filhos, pediu para “criar” o sobrinho recém-nascido.

Ambrósio Cavalcanti de Gusmão Lyra foi deputado provincial e estadual, magistrado, jornalista, advogado, poeta. Foi homenageado em Maceió com nome de rua.

Quando Maria Luísa ficou viúva, em 25 de março de 1892, foi morar com a irmã no Engenho Castanha e Mário passou a conviver com os irmãos e a ter duas mães. Mas esse privilégio durou pouco tempo.

Com seus irmãos foi levado a morar no Rio de Janeiro, para os estudos, aos cuidados de Antônio Cavalcante de Gusmão seu irmão mais velho.

O primeiro registro de sua estadia no Rio de Janeiro é a publicação, no dia 19 de fevereiro de 1898, da autorização para que fosse matriculado na Escola Militar da Capital Federal, na categoria de paisano.

Ainda estudando na Escola Militar, Mário de Gusmão e seu irmão Thomaz se envolveram nas manifestações da mobilização popular que entrou para a história como a Revolta da Vacina, ocorrida entre 10 e 16 de novembro de 1904 na cidade do Rio de Janeiro, com o objetivo de impedir a obrigatoriedade da vacinação.

No livro “Bôca da Grota”, seu irmão Carlos de Gusmão descreve o episódio e lembra que em um dos atos na sua Escola Militar do Realengo, Mário falou aos aos sublevados, em cima de uma mesa. O então comandante da Escola, general Hermes da Fonseca, tentou contê-lo.

Deputado Manoel Messias de Gusmão mais conhecido como Manoelzinho do Castanha. Era irmão de Mário de Gusmão

Thomaz, que estudava na Escola Militar da Praia Vermelha, foi ferido na mão pela Polícia do general Piragibe, que disparou tiros nos alunos.

Foram presos e conduzidos ao quartel do 38º Batalhão de Infantaria em Niterói. No total, 25 estudantes foram detidos e expulsos da Escola Militar. Entre estes estava outro alagoano, o poeta Tito de Barros.

Dias depois foram embarcados no vapor Itapaci para Porto Alegre, onde foi consumada a expulsão, incursos no artigo nº 123 do regimento interno. Mário e Thomaz foram anistiados, mas procuraram estudar Engenharia em outras instituições.

Provavelmente por influência de Antônio, irmão mais velho, Mário e seus irmãos aderiram à Filosofia Positiva, ou Positivismo como ficou mais conhecida. Tendo como fundador o pensador francês Auguste Comte, esta corrente de pensamento tinha como objetivo a reorganização do conhecimento humano, sob a premissa que o saber humano pode ser sistematizado segundo os mesmos princípios adotados como critério de verdade para as ciências exatas e biológicas.

Mário de Gusmão com seu teodolito

Mário e seus irmãos mais novos acompanhavam Antônio à Capela da Humanidade, às conferências na Igreja Positivista. Também assistiam às conferências cívicas, homenagens a Tiradentes, José Bonifácio e grandes vultos da nossa História. Havia um pleno desgaste da consciência cristã, mas um grande sentimento patriótico.

No início de abril de 1905, Mário de Gusmão estava tentando ser admitido na Escola Polytechnica, instituição vinculada ao Exército Brasileiro responsável naquele período pela formação de bacharéis em ciências e engenheiros civis. Desde de 1874, quando deixou de ser a Escola Central, atendia apenas a alunos civis.

Em 18 de agosto de 1906 prestou exames, desta feita no Lyceu de Artes e Ofícios. Pretendia ser admitido no curso de “Empregos de Fazenda”, o que indica que não foi aprovado na Escola Polytechnica.

Engenharia em Recife

Após várias tentativas no Rio de Janeiro, Mário de Gusmão volta ao Nordeste e em Recife é admitido na Escola Livre de Engenharia de Pernambuco.

A atual Faculdade de Engenharia de Pernambuco nasceu como Escola de Engenharia de Pernambuco em 1895. Foi extinta em 1904 e assim surgiu no seu lugar a Escola Livre de Engenharia de Pernambuco, que funcionou por 12 anos custeada apenas por taxas pagas pelos alunos e sem remuneração para os docentes. Em 1925, a instituição voltou a ser denominada Escola de Engenharia de Pernambuco.

Em março de 1910 ainda cursava Engenharia Civil, mas já estava empregado como auxiliar técnico na Comissão de Melhoramento do Porto do Recife, de onde se desligou em janeiro daquele ano para trabalhar, na mesma função, nas obras da estrada de ferro que interligaria São Luiz a Caxias no Maranhão, estabelecendo vínculo empregatício com a empresa Ibirocahy & Cia.

Permaneceu no Maranhão por alguns poucos meses e voltou ao Recife para trabalhar na Comissão de Saneamento da cidade, tendo como chefe o dr. Saturnino de Brito.

Em abril de 1912 foi empossado como auxiliar do Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais. Trabalhava nas obras da Colônia Agrícola de Água Preta. Em maio de 1913 foi nomeado pelo ministro da Agricultura para “dirigir os trabalhos e a conservação do Centro Agrícola de Água Preta no Estado de Pernambuco”.

O jornal O Paiz de 13 de fevereiro de 1914, do Rio de Janeiro, publica várias demissões ocorridas no Serviço de Proteção aos Índios. Mário de Gusmão é citado entre os que foram atingidos pela medida.

Casamento

Casou-se, em Recife, com Maria Amália (ou Maria Júlia) Moscoso Bandeira em 28 de janeiro de 1914. Conheceram-se a partir da amizade entre as duas mães. Ela era filha do desembargador Benjamin Aristides Ferreira Bandeira. O ato religioso foi celebrado pelo monsenhor José de Freitas Machado, secretário do Arcebispado.

Mário de Gusmão e a esposa Maria Amália

Tiveram uma única filha, Miriam, que, por sua vez foi mãe de Maria Amália, sua neta e única descendente direta viva, hoje morando em Brasília.

Uma informação a ser destacada sobre o seu casamento foi encontrada no Jornal de Recife de 14 de fevereiro de 1913. Com o título de “Primeira Publicação” lê-se: “Dr. Mário Cavalcanti de Gusmão Lyra, natural de Alagoas e d. Enedina Marques do Rego Barros, natural deste Estado, solteiros, residentes no distrito da Graça”. A segunda publicação, com estes mesmos nomes, é publicada em 28 de novembro do mesmo ano. Entretanto, esse casamento não se realizou.

Mário de Gusmão trabalhou ainda como chefe da Comissão de Terras e Colonização nos municípios de Passo Fundo, Lagoa Vermelha e Vacaria, no Rio Grande do Sul. Ocupou este cargo até 1921, quando foi designado para tomar parte nas Obras Contra a Seca, na seção do Rio Grande do Norte.

Foi nomeado, no início de julho de 1924, pelo governador de Alagoas, Costa Rego, para dirigir o recém-criado Departamento de Viação e Obras Públicas do Estado. Dividia a função com o engenheiro Luiz Holanda Cavalcanti.

Em novembro, pouco dias antes de morrer vítima da tuberculose, foi nomeado chefe da Seção de Obras Públicas da Prefeitura de Maceió, onde já trabalhava como engenheiro e foi o responsável pelo mapeamento da cidade. Quando faleceu em 24 de novembro de 1924, no Engenho Castanha em São Luiz do Quitunde, Alagoas, tinha aproximadamente 35 anos de idade.

Uma nota dos seus irmãos Antônio e Thomaz publicada no dia 1º de dezembro de 1924 explica que “tendo em vista, porém, as simpatias do querido extinto pela Religião da Humanidade, — religião por eles igualmente aceita e praticada na medida das suas imperfeições pessoais. — resolveram, por um justificável escrúpulo de consciência, não mandar celebrar as cerimônias do culto católico em geral realizadas no sétimo dia da transformação material; embora tributando o mais profundo sentimento de veneração à Sagrada Crença dos seus antepassados”.

Maceió homenageou o engenheiro Mário de Gusmão emprestando seu nome a uma das ruas mais importantes do bairro de Ponta Verde.

Fonte: Jornais da época e o testemunho de Janira Lúcia Assumpção Couto, que transmitiu as anotações de conversas com sua sogra, Heloísa de Gusmão Couto, sobrinha de Mário de Gusmão, e com Maria Amália de Gusmão, neta de Mário de Gusmão e o livro Boca de Grota, Reminiscências, de Carlos de Gusmão, publicado em Maceió pelos Serviços Gráficos Gazeta de Alagoas em 1970.

2 Comments on A breve vida do engenheiro Mário de Gusmão

  1. Carlos de Gusmão Coelho // 30 de setembro de 2017 em 16:39 //

    Muito interessante essa matéria. Sou Carlos de Gusmão Coelho. Filho de Lúcia Cavalcanti de Gusmão Coelho e neto de Carlos de Gusmão irmão do Engenheiro Mário de Gusmão.

  2. Marcos Monte // 2 de outubro de 2017 em 09:37 //

    Mais uma vez, parabéns Ticianelli, pela excelente matéria. Artigos como este são muito importantes para resgatar a nossa história. Digo mais, merecida a homenagem ao ilustre Mário de Gusmão, usando seu nome para denominar uma rua do bairro da Ponta Verdes.

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