A Boca de Maceió

Boca de Maceió no final do século XIX
Boca de Maceió em 1869

Boca de Maceió em 1869

Quando o governador da nova capitania das Alagoas, Sebastião Francisco de Mello e Povoas, desembarcou em Jaraguá no dia 27 de dezembro de 1818, não teve uma boa impressão da pequena vila de Maceió.

Craveiro Costa, em História das Alagoas, descreve a cidade: “Sua fisionomia, no conjunto de ruelas e habitações rústicas, com a mata à beira do casario, o pântano da Boca de Maceió e os mangues da lagoa, se não era de animar ao cortesão, não seria de escandalizar o governador”.

Boca de Maceió com a Estação Central no final do século XIX

Boca de Maceió com a Estação Ferroviária Central no final do século XIX

Estes alagadiços, antes de serem domados pelos aterramentos, fizeram valer a força da natureza por décadas, causando transtornos à vida urbana e revelando Maceió como uma cidade restinga, como a definiu o professor Ivan Fernandes Lima ao explicar que a cidade ficava sobre uma faixa arenosa, resultado do fechamento do estuário primitivo do Rio Mundaú, criando uma lagoa.

Situado onde hoje se localizam as Praça Sinimbu, Praça dos Palmares e a Rua Barão de Anadia, a Boca de Maceió era o alagadiço da capital que ficava mais próximo do centro da cidade, numa área cortada pelo Riacho Maceió (hoje Salgadinho), que ainda percorria seu antigo leito, desaguando na Praia do Sobral.

O Canal da Ponta Grossa, atual Canal da Levada, na época referida avançava até onde hoje se encontra o Mercado do Artesanato e era utilizado como área de desembarque de passageiros e mercadorias das nossas lagoas. Quando, em 1846, o presidente da Província, Antônio Manoel de Campos Mello, apresentou o projeto para o melhoramento deste canal, havia a proposta de prolongá-lo até encontrar o Riacho Maceió na Boca da Cidade. Esse projeto estava sob o encargo do engenheiro Pedro José de Azevedo Scharamback.

A ideia era reabrir o que teria sido o leito do Rio Mundaú, fazendo as águas da Lagoa passarem pela atual Praça do Pirulito, desembocando na mesma foz do Riacho Maceió (atualmente seria aproximadamente em frente ao Posto Avenida, no começo da Praia do Sobral). Essa informação revela que a Boca de Maceió denominava uma área mais ampla, possivelmente se estendendo na direção sul até a Rua Dias Cabral.

Pontes

Riacho Maceió Salgadinho, no antigo leito. A ponte da foto destruída na cheia de 1924

Riacho Maceió Salgadinho, no antigo leito. A ponte da foto destruída na cheia de 1924 e substituída pela Ponte do Fonseca. Ao lado direito, a garagem de bonde que deu lugar ao Clube Fênix

Quando o Riacho Maceió, que ainda não era o nosso desprezado Salgadinho e o seu leito no trecho final era paralelo ao mar – foi concluída sua retificação em 1944 -, o aceso ao Porto de Jaraguá era feito por canoa, jangada ou batelão, como registra em 1853 o relatório do presidente da Província, Manoel Sobral Pinto, que faz referência a existência de uma ponte na Boca de Maceió.

Em relatório governamental de 1866, há o registro de uma espécie de levada que atravessava a Rua Boca de Maceió (atual Barão de Anadia), o que dificultava a passagem de carros. A medida adotada para resolver o problema foi derrubar um pontilhão de madeira e construir uma “bomba” de alvenaria, o que “tornou o pavimento da rua unido em toda sua largura, dando fácil saída as águas pluviais, que se estagnavam, formando um pântano próximo ou quase no centro desta cidade”.

O pontilhão de madeira era o “caminho natural entre Jaraguá e a Vila”, e segundo Maya Fernandes, ele ficava sobre um alagadiço conhecido como “Lagoa da D’Água Negra”. Essa “lagoa” também era nominada como “Lagoa Manoel Fernandes” ou ainda “Olho D’Água”.

No local da travessia sobre o Riacho Maceió foi construída uma pinguela, depois ampliada para uma ponte de madeira. Em Histórias do Velho Jaraguá, J. F. de Maya Fernandes avalia que esta primeira ponte foi construída entre 1820 e 1841. Em seu livro, publica uma Planta da Povoação de Jaraguá, de Carlos Mornay, onde localiza esta ponte sobre o Riacho Maceió.

Em 13 de janeiro de 1871, neste mesmo local, foi inaugurada uma moderna ponte de ferro e alvenaria com a denominação de Ponte dos Fonsecas, em homenagem à família Fonseca e seus militares famosos — um deles chegaria à presidência da República em 1889, ao participar do movimento que derrubou a monarquia. A obra foi encomendada ao engenheiro Hugh Wilson e custou 6.500 libras esterlinas. Media 120 metros por 4 de largura e tinha passeios laterais iluminados por oito grandes lampiões.

Esta construção manteve-se até 1924, quando foi atingida por uma tromba d’água. Foi reconstruída pelo engenheiro Singaud, agora em cimento armado. Dela sobrevive os corrimões na entrada da Rua do Imperador, ao lado do Clube Fênix.

A seta número 8 indica as duas pontes sobre o Riacho Maceió. Planta de Carlos Mornay do acervo do IHGA

A seta número 8 indica as duas pontes sobre o Riacho Maceió. Planta de Carlos Mornay do acervo do IHGA

Ao descrever a chegada de Póvoas a Maceió, Maya Fernandes narra que o presidente, após desembarcar em Jaraguá, percorreu um extenso areal com a a praia a sua esquerda, até chegar à margem da Lagoa Maceió, que pode ter sido uma área mais larga do Riacho Maceió à altura da hoje Praça Sinimbu, e que a transpôs rapidamente em canoa ou batelão. Segundo Craveiro Costa, essa “lagoa” ficava em sítio onde, 20 anos depois, essa travessia custaria 40 réis. Após a travessia, Póvoas percorreu ainda uma rua na direção sul (provavelmente onde hoje está a Rua da Praia) até chegar ao pontilhão sobre a Lagoa D’Água Negra, na Boca de Maceió.

Não foi descrito, mas pode-se concluir que o governante ao sair do que seria hoje a Rua da Praia e antes de chegar ao pontilhão, entrou à direita pelo arruado que depois veio a ser a Rua Barão de Anadia.

Desenho com base na planta de José da Silva Pinto, de 1820, arquivado no IHGA

Desenho com base na planta de José da Silva Pinto, de 1820, arquivado no IHGA

No mapa ao lado, que é um desenho da planta de José da Silva Pinto, de 1820, percebe-se a situação desta parte de Maceió poucos anos após o desembarque do seu primeiro presidente. O alagadiço na parte superior da planta seria a Lagoa D’Água Negra, enquanto que o alagadiço na parte inferior direita, que fica ao lado do Riacho Maceió, seria a Lagoa Maceió.

Na planta, estão duas ruas projetadas em linha reta. A em diagonal seria a continuação da atual Barão de Penedo, enquanto que a da direita, o projeto para a atual Rua do Imperador. Nota-se ainda o arruado da Rua da Praia e da Rua Barão de Anadia, além da localização do Forte de São João, atual 20ª CSM do Exército brasileiro.

Outra menção à Boca de Maceió pode ser encontrada na fala do presidente da província em 1882. Cândido Augusto Pereira Franco informa que mandou calçar a Rua da Verdura (atrás da Assembleia) e o início da Rua Nova (atual Rua Barão de Penedo), na Boca de Maceió .

Com a denominação de Boca da Cidade, as últimas referências sobre melhorias nesta parte da cidade estão no O Gutemberg de 17 de novembro de 1905, que noticia o início das obras de ajardinamento da Praça Euclides Malta (hoje é a Praça Sinimbu), e a situa num local que “vulgarmente chamam Boca de Maceió”.

Últimas casas da Rua Nova (Barão de Penedo) na Boca de Maceió no final do século XIX

Últimas casas da Rua Nova (Barão de Penedo) na Boca de Maceió no final do século XIX

A partir de então, a Boca da Cidade deixa de existir, dando lugar à Praça Euclides Malta, Praça dos Palmares e à Rua Barão de Anadia.

Boca de Maceió nos jornais

Em meados do século XIX, a Boca de Maceió ainda era uma região pantanosa e local de moradia ou mesmo de trabalho para poucas pessoas. É o caso de José Antonio de Farias, que fez publicar anúncio no Correio Maceioense de 12 de setembro de 1850 em que se diz “mestre do officio de tanoeiro, residente na Bôca de Maceió, casa n. 1., ao descer a ladeira do palácio”. Ele queria vendedor de ancoras de peroba da melhor qualidade. Outro que se fez divulgar no Almanak Administrativo da Província das Alagoas de 1877 foi José Tavares Cantéo, morador da “Bocca de Maceió”, nº 16. Ele estava classificado profissionalmente como “canteiro”.

Pela nota divulgada pelo O Guarany de 25 de novembro de 1879, depreende-se que na Boca de Maceió também havia espaço para manifestações culturais. O jornal, que se intitulava um “periodico, critico e joco-serio”, comentava na coluna Diz o Guarany…, “…que os poetas B… de A…, Candeira e Alvim encontrarão-se á boca da noite, na boca de Maceió; os craneos dos poetas inflamarão-se com tal encontro e o Candeia foi o primeiro a botar coisa:

Rua Barão de Anadia em 1910

Rua Barão de Anadia em 1910

Eu sou o poeta Candeira,
Saúdo a vós outros, irmãos!
Homem, como é isto engraçado!
Apertemos, pois, nossas mãos!

…que o B… de A… deixou cahir o beiço e urrou:

Caspité! Caros colegas!
Inspirações sublimadas!
Olhem o pharol como brilha!
Oh! Que ruas apagadas!

…que o Alvim sorrio doce e poeticamente e suspirou:

Voceis não sabem rimar?!
Vão aprender com o Raymundo!
Pois é para lastimar
Que não nos entenda o mundo!”

Outro registro importante está no jornal O Magistério, órgão do Instituto dos Professores Primários, de 30 de março de 1889, que publica um texto de Nicodemos de Sousa Moreira Jobim sobre a lenda da origem da primitiva Capela de São Gonçalo do Amarante, onde faz referência a uma senhora de nome Maria Joaquina Xavier, “residente e proprietária do terreno e velhas casas da Bocca de Maceió”.

Carros de boi na porta da Estação Central aguardam cargas

Carros de boi na porta da Estação Central aguardam cargas

No final do século XIX, com o crescimento da capital, as melhorias vão acontecendo na Boca de Maceió, como noticia o jornal Cruzeiro do Norte de 25 de setembro de 1892. Um comunicado público do intendente (prefeito), Antonio Francisco Leite Pindahyba, reconhece a necessidade de calçar, “mesmo que a pedra bruta ou granito, algumas ruas, travessas e praças da cidade, e principalmente a do prolongamento da rua da Boa-Vista até o começo da rua Barão de Anadia ou Bocca de Maceió”.

Um dos últimos registros da existência da Boca de Maceió em jornais é uma nota paga publicada no O Gutemberg de 16 de julho de 1910, que dá como endereço para contato a “rua Barão de Anadia, antiga Bôcca de Maceió, junto da Estação Central de Estrada de Ferro”.

Principais construções da Boca de Maceió

Antigo Forte São João, hoje é a CSM do Exército

Antigo Forte São João, hoje é a CSM do Exército

O primeiro equipamento a se instalar na Boca de Maceió, em 1820, foi o Forte São João, construído pelo então governador da Província de Alagoas, Tenente Coronel Sebastião Francisco de Mello e Povoas, dois anos após assumir o governo. Em 1844, as antigas instalações do forte receberam a Enfermaria Militar. Parte dela desmoronou em 1876 e o prédio foi reconstruído em 1877, ganhando a configuração atual, inclusive com a capela que foi datada de 8 de dezembro de 1876. Hoje é patrimônio do Exército Brasileiro e hospeda a 20ª Circunscrição do Serviço Militar – CSM.

Palácio Provincial em 1855

Palácio Provincial em no final do século XIX

A construção do sobrado de José Antônio Mendonça, o Barão de Jaraguá, que aconteceu em 1849, também influenciou decisivamente nos destinos da Boca de Maceió. Parte do palacete do Barão de Jaraguá era voltado para esta região, nas imediações da Praça dos Palmares, e foi alugado para, a partir de 1855, receber a sede do governo alagoano, passando a ser conhecido como Palácio Provincial. A sede do governo funcionou neste local até 1902, quando foi inaugurado o Palácio do Governo no Largo dos Martírios. O prédio, antes de ser demolido em 1940, ainda recebeu o Instituto Comercial e o Colégio Dias Cabral. Nos seus últimos anos era conhecido Palácio Velho.

Estação Ferroviária 1910

Estação Ferroviária 1910

Inaugurada em 1891, a Estação Central da Alagoas Railway Companhia foi a terceira obra mais antiga da Boca de Maceió. Mesmo antes da inauguração, em 1871, já funcionava a linha que ligava a estação de Jaraguá, no porto de Maceió, à Estação Central. Em 1872, os serviços já atendiam Bebedouro, tocada pela E. F. Central de Alagoas. As linhas eram utilizadas por trens de passageiros e cargueiros, e também por bondes a tração animal.

Antigo Palácio Episcopal em 1930

Antigo Palácio Episcopal em 1920

Outro equipamento importante a se instalar na Boca de Maceió foi o Palácio Episcopal. A iniciativa de instalar a casa do bispo na futura Rua Barão de Anadia coube a D. Antônio Brandão, que comprou um prédio, antiga residência de Manoel Sobral Pinto, e terrenos para a construção do Palácio no final do ano de 1902.

D. Antônio Manuel de Castilho Brandão foi o primeiro bispo da Arquidiocese de Maceió. Era alagoano de Mata Grande e já fora bispo do Grão-Pará.  A Arquidiocese foi fundada em 2 de julho de 1900, pelo Papa Leão XIII, através da bula “Postremis Hisce Temporibus“, com a designação de Diocese das Alagoas e abrangendo todo o território do Estado. Foi instalada oficialmente no dia 23 de agosto de 1901, com a posse solene, na Catedral de Nossa Senhora dos Prazeres.

O atual Palácio Episcopal foi construído pelo bispo da diocese de Maceió, D. Santino Coutinho, que autorizou as obras em 1926, mas a construção somente foi concluída em 1931.

O Bella Vista foi inaugurado em 1923

O Bella Vista foi inaugurado em 1923

O último grande equipamento a se instalar na Boca de Maceió, quando a cidade já não se referia a ela por tal nome, foi o Hotel Bella Vista, que foi inaugurado às 13 horas do dia 21 de junho de 1923. Foi construído no local onde funcionou o Hotel Universal e depois o Hotel Petrópolis, o famoso “Único que não tem Mosquitos”.  O Bella Vista fechou as portas no início dos anos 60 e começou a ser demolido no final da mesma década para dar lugar ao prédio do INAMPS, atual INSS, que foi inaugurado em 1974 e hoje já se encontra abandonado e em ruínas.

2 Comments on A Boca de Maceió

  1. NOVO LIVRO: A Gretoeste: A história da rede ferroviária Great Western of Brazil.
    Publicado pela Editora Ideia, João Pessoa (maio de 2016).
    A Great Western of Brazil Railway, popularmente conhecida como A Gretoeste, é uma das redes ferroviárias mais importantes e lembradas no Brasil. Esta ferrovia remonta sua história à primeira estrada de ferro de importância econômica no Brasil (inaugurada em 1858). Ela chegou a dominar mais de 1.700 quilômetros de vias férreas em quatro Estados no nordeste, de Alagoas até Rio Grande do Norte, e perdurou como uma empresa britânica durante quase um século até sua nacionalização em 1950.
    Este estudo detalhado está apoiado por pesquisas inéditas em acervos documentários no Brasil e na Grã-Bretanha. O livro examina o panorama histórico e econômico em todo o Brasil para explicar como o fenômeno ferroviário britânico deu o impulso inicial para modernizar o Brasil no século XIX. O texto também ressalta como as companhias ferroviárias britânicas, começando no nordeste do Brasil, tiveram um papel de destaque no processo da abolição da escravidão no país, e como a chegada de operários ferroviários estrangeiros ajudou a tornar o trabalho assalariado mais dignificado.

  2. Luiz Antônio // 15 de setembro de 2016 em 09:05 //

    Na planta de Carlos Mornay, o que as setas numeradas de de 1 a 7 estão indicando?

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